Ensaio Teológico III(1) "Caminhos da Aprendizagem: Uma Perspectiva Holística"
Por Claudeci Ferreira de Andrade
Decorei o Salmo 23 aos oito anos, durante uma competição de versículos na escola dominical. Recitei cada palavra sem tropeçar. Ganhei um certificado, recebi aplausos e voltei para casa orgulhoso da minha boa memória. Naquele tempo, pensei que havia aprendido o salmo. Mas, a vida — ah, a vida sempre tem suas próprias lições — mostrou que eu estava apenas no começo da jornada. Só décadas mais tarde, numa noite em que tudo parecia faltar, aquelas palavras retornaram à minha mente com uma força inesperada: "o Senhor é o meu pastor, nada me faltará". Era como se eu as estivesse ouvindo pela primeira vez. Foi nesse instante que compreendi uma verdade desconcertante: aos oito anos, eu não havia aprendido o salmo; havia apenas guardado seu som. O sentido permanecia adormecido, esperando que a experiência lhe emprestasse voz.
Essa constatação me levou a perceber que a aprendizagem — seja intelectual, seja espiritual — não acontece de uma vez só. Ela amadurece. É um processo contínuo, que acompanha o ritmo da existência. Muitos teólogos insistem, com razão, na importância de ouvir, memorizar e conservar a Palavra. Não pretendo diminuir o valor dessa prática. Afinal, foi justamente a memória que me devolveu o Salmo 23 quando eu mais precisava dele. Contudo, hoje entendo que ela representa apenas o primeiro passo. A verdadeira aprendizagem não se limita a armazenar palavras; ela exige tempo, encontros, perdas, recomeços. É a experiência que transforma letras em vida.
Essa percepção encontra eco nas reflexões de John Dewey, para quem o conhecimento só alcança seu verdadeiro valor quando se traduz em experiência e orienta a resolução dos problemas concretos da existência. Aprender, nessa perspectiva, não é acumular informações como quem enche um depósito, mas desenvolver discernimento para viver melhor. Curiosamente, séculos antes, Tiago já expressava essa mesma verdade ao exortar os cristãos: "sejam praticantes da palavra, e não apenas ouvintes, enganando-se a si mesmos" (Tiago 1:22). Há uma distância imensa entre repetir uma verdade e permitir que ela transforme nossa maneira de viver. A informação pode ocupar a mente; a sabedoria, porém, alcança o coração e remodela a vida.
Ainda assim, seria um erro colocar memorização e compreensão em lados opostos, como se fossem adversárias. Na realidade, elas caminham juntas. Decorar aquele salmo na infância não foi perda de tempo; foi como lançar uma semente em solo fértil muito antes da estação das chuvas. Durante anos, nada parecia acontecer. No entanto, quando a seca da alma findou, aquela semente rompeu a terra e floresceu. Não porque eu tivesse aprendido algo novo naquela noite, mas porque aquilo que estava guardado finalmente encontrou o terreno onde poderia criar raízes.
As pesquisas contemporâneas sobre aprendizagem confirmam essa dinâmica. O conhecimento se fortalece quando memória e compreensão deixam de competir e passam a cooperar. Primeiro, guarda-se; depois, experimenta-se; por fim, compreende-se em profundidade. O próprio salmista parece antecipar esse movimento ao afirmar que "a tua palavra é lâmpada que ilumina os meus passos" (Salmo 119:105). A imagem é belíssima. Uma lâmpada não revela toda a estrada de uma só vez; ela ilumina apenas o trecho suficiente para o próximo passo. Assim também acontece com a verdade: ela vai se revelando à medida que caminhamos. Cada nova experiência amplia um pouco mais a luz que já possuíamos.
Talvez seja justamente por isso que, hoje, me pareça limitada a ideia de que a salvação dependa da retenção exata de determinadas doutrinas ou fórmulas religiosas. Essa compreensão já não consegue abarcar aquilo que vivi. A fé, aprendi, não é um arquivo organizado de conceitos decorados, mas uma relação que cresce, amadurece e se aprofunda ao longo do tempo. Quando Jesus afirmou: "conheçam a verdade, e a verdade os libertará" (João 8:32), o verbo conhecer carregava um significado muito mais profundo do que simplesmente memorizar informações. Nas Escrituras, conhecer é estabelecer intimidade, compartilhar a caminhada, viver em comunhão. A verdade, portanto, não é apenas um conceito a ser repetido, mas uma realidade a ser experimentada; mais do que uma definição, é um encontro. E encontros, convenhamos, não se decoram — vivem-se.
Hoje, quando volto ao Salmo 23, já não enxergo apenas o menino que recitava versos impecavelmente diante da igreja. Vejo alguém que precisou atravessar vales, enfrentar silêncios e experimentar perdas para descobrir o significado das palavras que carregava desde a infância. Percebo, enfim, que a memória preservou o texto, mas foi a vida que lhe deu carne, voz e sentido. Talvez seja esse o maior milagre da aprendizagem: não o de acumular respostas prontas, mas o de permitir que, no tempo certo, a verdade deixe de habitar apenas os lábios e passe, enfim, a morar no coração.


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