Ensaio Teológico II(18) Sexualidade, Religião e os Limites do Julgamento
Por Claudeci Ferreira de Andrade
Conheci um homem que passou boa parte da vida evitando amigas, colegas de trabalho e qualquer mulher que não fosse sua esposa. Não era falta de amor por ela; era medo. Desde muito jovem lhe ensinaram que toda "mulher estranha" era a antessala do inferno, e ele cresceu cercado por essa convicção, incapaz de manter uma conversa simples sem que a culpa lhe batesse à porta. Conheci também uma mulher que abandonou a fé católica na qual havia sido criada. Um pregador da igreja vizinha repetia, domingo após domingo, que sua devoção aos santos era idolatria e a conduziria à condenação eterna. Ela chorou durante meses, dividida entre o amor que sentia por Deus e o pavor de estar amando "errado". Essas duas pessoas jamais se encontraram. No entanto, carregam a mesma cicatriz: foram convencidas de que o afeto — seja ele sexual, seja espiritual — nasce inevitavelmente sob o signo da ameaça.
É justamente dessas duas histórias que brota este ensaio. Não porque sejam casos extraordinários, mas porque, infelizmente, são mais comuns do que imaginamos. Sempre que a sexualidade e a religião são tratadas por discursos marcados pelo dogmatismo e pela exclusão, deixam de ser caminhos de vida para se transformarem em instrumentos de medo. E quando o medo assume o lugar da consciência, a fé deixa de libertar, enquanto a sexualidade deixa de humanizar. É essa transformação, tão sutil quanto devastadora, que desejo examinar à luz das Escrituras, da psicanálise e da filosofia.
O conceito de "mulher estranha", frequentemente utilizado para condenar qualquer relação fora do casamento, costuma apoiar-se numa leitura estritamente literal de textos como "não adulterarás" (Êxodo 20:14) e "o que se deita com uma prostituta se faz um corpo com ela" (1 Coríntios 6:16). O problema não está nesses versículos, mas na forma como, tantas vezes, são retirados de seu contexto histórico, cultural e literário, como se pudessem responder, sozinhos, às complexidades da experiência humana. Freud definiu a sexualidade como "o conjunto das condições anatômicas, fisiológicas e psicológico-afetivas que caracterizam o sexo de cada indivíduo" (Freud, 1905). Sua compreensão ultrapassa, portanto, a mera dimensão do dever conjugal ou da transgressão moral. A sexualidade constitui uma dimensão essencial da subjetividade, atravessada por desejos, afetos, lembranças, conflitos e vulnerabilidades. Michel Foucault, por sua vez, lembrava que "o prazer está espalhado por toda a superfície do corpo" (Foucault, 1976), mostrando que o erótico não se reduz ao ato sexual. Ao mesmo tempo, essa reflexão evidencia como o prazer, ao longo da história, tornou-se objeto permanente de vigilância, disciplina e controle por parte das instituições.
Essa mesma lógica de exclusão reaparece quando determinadas comunidades cristãs classificam a Igreja Católica Romana como corrompida e idólatra, negando legitimidade à experiência religiosa daqueles que vivem a fé por outros caminhos. Aqui, porém, sinto a necessidade de fazer uma ressalva — talvez a mesma que eu gostaria de ter feito àquela mulher que passou meses chorando. Nem toda interpretação literal nasce da intolerância. Muitos cristãos sustentam leituras tradicionais com absoluta sinceridade, convencidos de que estão sendo fiéis àquilo que compreendem como vontade de Deus. O problema começa quando essa convicção deixa de ser uma escolha pessoal para se transformar em medida universal da fé alheia. A fronteira entre fidelidade e intolerância costuma ser mais estreita do que imaginamos. Como observou Mead, "a religião é um sistema simbólico que serve para relacionar um indivíduo com seu universo" (Mead, 1937). Se isso é verdade, diferentes símbolos religiosos, ainda que expressem compreensões distintas, podem nascer do mesmo anseio humano de encontrar sentido, consolo e transcendência.
A religião, assim como a sexualidade, habita um território paradoxal. É fonte de sentido, mas também de dúvidas; de comunhão, mas, não raro, de conflitos. Balzac chamou-a de "a poesia dos sentidos" (Balzac, 1832), e talvez essa imagem diga mais do que longos tratados teológicos. Afinal, poesia não floresce sob coerção. Ela nasce no espaço delicado onde tradição e liberdade dialogam, onde a regra orienta sem sufocar e a consciência amadurece sem romper, desnecessariamente, com suas raízes. Talvez fosse justamente esse espaço que faltava àqueles dois personagens desta história: ao homem que aprendeu a temer qualquer aproximação feminina e à mulher que acreditou, por tanto tempo, que poderia estar amando Deus do jeito errado.
Volto, então, a pensar neles. Não para julgá-los, mas para reconhecer o quanto suas trajetórias revelam uma tensão presente em muitas comunidades de fé. Talvez a espiritualidade mais madura não seja aquela que elimina toda dúvida por meio de regras inflexíveis, nem aquela que dissolve toda norma em nome de uma liberdade sem critérios. Talvez ela se construa, justamente, na coragem de conviver com essa tensão. Uma fé assim é capaz de reconhecer, no rigor do outro, uma busca sincera por Deus, sem abrir mão do direito de crer, amar e viver a própria consciência sem que o medo ocupe o lugar da esperança. Porque, no fim das contas, quando o amor precisa caminhar algemado pelo medo, nem o amor nem a fé conseguem florescer em sua plenitude.


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