Ensaio Teológico II(12) Contra a Polarização: Uma Crítica Teológica à Divisão entre Bons e Maus
Por Claudeci Ferreira de Andrade
Cresci ouvindo sermões que dividiam o mundo em dois campos perfeitamente delimitados, como se a alma humana pudesse ser reduzida a uma linha reta. De um lado, os eleitos; do outro, os réprobos. De um lado, os sábios; do outro, os tolos. Durante muito tempo aceitei essa cartografia moral sem questionar quem havia desenhado esse mapa. Afinal, era mais confortável acreditar que tudo estava organizado em compartimentos estanques. Mas, bastou que, em determinado momento, eu próprio fosse lançado para o lado considerado "errado" — julgado, descartado, rotulado como "boca perversa" simplesmente por expressar o que pensava — para que a dúvida começasse a germinar. Talvez o problema nunca tivesse sido eu. Talvez o mapa fosse impreciso desde o princípio.
É justamente essa suspeita que pretendo examinar aqui. Faço isso sob uma perspectiva teológica, dialogando com as Escrituras e também com pensadores que tiveram a coragem de complicar aquilo que a tradição, tantas vezes, insiste em simplificar. Afinal, a realidade humana dificilmente cabe nas categorias rígidas que costumamos construir.
A crença de que existe uma fronteira perfeitamente definida entre filhos de Deus e filhos do diabo, entre os nascidos de novo e os "duas vezes mortos", esbarra num fato que a própria Bíblia reconhece quando lida com atenção e sem filtros dogmáticos. A Escritura não apresenta uma humanidade dividida entre impecáveis e condenados; ao contrário, enfatiza a universalidade da condição humana. "Todos pecaram e estão destituídos da glória de Deus" (Romanos 3:23); "não há nenhum justo, nem um sequer" (Romanos 3:10). Se todos tropeçam, ainda que de maneiras diferentes, então a linha que separa os supostos bons dos supostos maus começa a vacilar. É justamente essa instabilidade que Michel Foucault sintetiza ao afirmar que "não há nada de absoluto no que diz respeito à moral" (Foucault, 1984, p. 287). Diante disso, torna-se difícil sustentar que alguém possua autoridade para emitir sentenças definitivas sobre o outro. A própria tradição bíblica reserva esse juízo a Deus, "que sonda os corações e conhece as intenções" (1 Samuel 16:7).
Talvez uma das formas mais frágeis de condenação seja aquela que pretende medir o caráter pelas palavras. Nessa lógica, quem se contradiz, questiona autoridades, ironiza o sagrado ou rompe convenções seria, automaticamente, classificado como "mau". No entanto, basta confrontar essa ideia com a experiência concreta para perceber o quanto ela se desfaz. O que alguns chamam de perversidade, outros reconhecem como denúncia da injustiça. O que para uns representa autoridade legítima, para outros simboliza opressão. O que uns interpretam como blasfêmia pode ser apenas humor, sarcasmo ou crítica social. A linguagem jamais é neutra nem estática. Como observa Marcos Bagno, "não é um sistema fechado em si mesmo, mas um fenômeno social dinâmico" (Bagno, 2007, p. 17). Julgar uma pessoa apenas pelo vocabulário que utiliza equivale a julgar um rio pela espuma que flutua em sua superfície. Não por acaso, a própria Bíblia adverte contra esse equívoco: "o homem vê a face, mas o Senhor vê o coração" (1 Samuel 16:7); "nem tudo o que reluz é ouro" (Provérbios 27:21).
É verdade que nem toda distinção moral nasce da intolerância. Seria injusto afirmar isso. Existem comunidades que estabelecem critérios éticos não para excluir pessoas, mas para proteger os mais vulneráveis — as crianças, as famílias, os fracos diante dos fortes. Minha crítica, portanto, não é ao discernimento em si, mas ao modo como ele é empregado. Há uma diferença profunda entre discernir para cuidar e discernir para expulsar; entre usar o discernimento como janela e transformá-lo em muro. O primeiro aproxima, orienta e protege. O segundo isola, condena e desumaniza. É o discernimento humilde, vigilante e compassivo que considero legítimo — e é justamente esse que encontro nas melhores páginas da tradição bíblica, quando ela recomenda sabedoria sem soberba e firmeza sem arrogância.
Por isso, penso que ao homem verdadeiramente sábio cabe menos o gesto de apontar o dedo e mais a disposição de compreender. Antes de condenar, importa perguntar pelas causas; antes de erguer fronteiras, vale a pena construir pontes. Edgar Morin lembrava que "a complexidade humana exige uma abordagem multidimensional e transdisciplinar" (Morin, 2005, p. 15). Curiosamente, muito antes da linguagem acadêmica formular essa ideia, a própria Bíblia já sugeria algo semelhante ao afirmar que "o ferro afia o ferro, e o homem afia o seu companheiro" (Provérbios 27:17). Crescemos, não quando eliminamos quem pensa diferente, mas quando permitimos que o encontro com o outro nos transforme.
Não existe, portanto, uma dicotomia pura entre bons e maus. O que existe é uma trama densa de contradições, ambiguidades e nuances que desafia qualquer classificação simplista. Também não há uma única fonte de sabedoria, mas uma constelação de vozes que, em diálogo, iluminam aspectos distintos da experiência humana. Talvez esse seja, afinal, o verdadeiro chamado da teologia: não antecipar o juízo que pertence a Deus, separando o joio do trigo antes da hora, mas aprender a conviver com a complexidade da existência. Porque, gostemos ou não, todos carregamos luzes e sombras. E reconhecer isso talvez seja o primeiro passo para abandonar a polarização e redescobrir a humildade.
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