Ensaio Teológico II(16) A Repressão Sexual e a Tentação das Mulheres Estranhas
Por Claudeci Ferreira de Andrade
Vi, de perto, o que a traição é capaz de fazer com um casamento. Não falo de teoria, nem de abstrações acadêmicas. Falo de uma mesa de jantar que perdeu a voz, de um silêncio que atravessou meses, de alguém que amei tentando reconstruir a confiança com as próprias mãos, como quem recolhe os cacos de um vaso sabendo que, por mais cuidadosa que seja a restauração, ele jamais voltará a ser o mesmo. Foi diante dessa dor — concreta, silenciosa e persistente — que compreendi uma verdade incômoda: toda reflexão sobre sexualidade e fidelidade que ignore esse estrago corre o risco de se tornar intelectualmente elegante, mas profundamente desonesta com a experiência humana. É com essa lembrança que escrevo.
As igrejas cristãs, de modo geral, orientam seus fiéis a resistirem à tentação representada pelas "mulheres estranhas" — figura recorrente na literatura sapiencial bíblica que simboliza a sedução fora do pacto conjugal. Essa exortação repousa sobre mandamentos inequívocos: "não adulterarás" (Êxodo 20:14) e "fugi da prostituição" (1 Coríntios 6:18). Há, sem dúvida, um zelo sincero nessa postura, um desejo legítimo de preservar o casamento como uma aliança sagrada. Não escrevo para desqualificar esse cuidado. O que me proponho é algo diferente: perguntar se a maneira como esse ensino costuma ser transmitido realmente protege os relacionamentos ou se, em certos casos, acaba aprofundando as feridas de quem já sofreu demais.
Afinal, não raras vezes, a tradição religiosa acaba pregando o medo onde deveria cultivar maturidade. E o medo, aprendi ao longo da vida, até pode impedir determinados comportamentos por algum tempo, mas dificilmente transforma o coração. Michel Foucault enxergava na sexualidade "a poesia dos sentidos", uma dimensão da existência humana muito mais ampla do que a simples função reprodutiva ou a caricatura do pecado que alguns discursos insistem em repetir. Freud, por sua vez, compreendia a sexualidade como uma força constitutiva da personalidade, algo que atravessa corpo, emoções e psiquismo. Não se trata de um vício isolado a ser arrancado, mas de uma realidade que precisa ser compreendida, educada e integrada. Quando reduzimos toda essa complexidade a uma lista de proibições, corremos o risco de produzir vergonha onde poderia nascer responsabilidade consciente.
Ainda assim, preciso fazer uma pausa — uma pausa que devo tanto à minha própria consciência quanto àqueles que carregam as cicatrizes da infidelidade. Compreender a complexidade da sexualidade humana jamais pode significar banalizar a dor de quem foi traído. Há uma diferença profunda entre buscar entender as causas de um desvio e minimizar as consequências que ele produz. Arthur Schopenhauer escreveu que "o perdão é a única vingança verdadeira". A frase é bela, mas sua beleza desaparece quando o perdão é transformado em um atalho para escapar da responsabilidade. O perdão só encontra sentido quando nasce depois do reconhecimento honesto da ferida causada. Perdoar sem admitir o dano não é misericórdia; é apagamento. E poucas coisas são tão cruéis quanto obrigar alguém a fingir que a dor nunca existiu.
Talvez por isso seja mais sensato abandonar a velha lógica do bode expiatório do que continuar demonizando a "mulher estranha" — personagem que, convenhamos, carrega sobre os ombros séculos de uma culpa quase sempre atribuída à sedutora, enquanto o homem que cede à tentação frequentemente aparece como vítima das circunstâncias. Essa leitura, além de simplista, obscurece o elemento mais importante da questão: toda escolha íntima envolve responsabilidade pessoal. Jesus advertiu: "não julgueis, para que não sejais julgados" (Mateus 7:1). Não era um convite à indiferença moral, muito menos uma autorização para relativizar a dor alheia, mas um chamado à humildade de quem reconhece a própria fragilidade. E Platão, ao afirmar que o amor é "a alegria dos bons, a reflexão dos sábios, o assombro dos deuses", recorda-nos que o amor autêntico exige equilíbrio entre paixão e discernimento. Um sem o outro nunca foi suficiente.
Quando a infidelidade acontece, ela deixa marcas que não desaparecem com um pedido de desculpas ou com o passar do tempo. Conheço casais que precisaram de anos de terapia, paciência, lágrimas e sucessivos recomeços para reconstruir aquilo que havia sido rompido. Alguns conseguiram; outros não. Cada história segue seu próprio caminho. Mas, uma coisa me parece evidente: julgar sem compreender é uma forma de crueldade, enquanto compreender sem reconhecer a dor transforma-se numa covardia disfarçada de tolerância. A maturidade da fé talvez resida justamente nessa tensão. Não na rigidez de um julgamento impiedoso, tampouco numa indulgência que faz de conta que nada aconteceu, mas na coragem de encarar, ao mesmo tempo, a fragilidade humana e as feridas concretas que ela pode produzir.
É nesse ponto que as palavras de Paulo adquirem uma profundidade que atravessa os séculos: "todas as coisas me são lícitas, mas nem todas as coisas convêm" (1 Coríntios 10:23). Talvez a verdadeira liberdade não consista em abolir todos os limites, mas em escolhê-los conscientemente, com maturidade e responsabilidade. Afinal, toda escolha afetiva carrega consequências. E quem decide amar alguém de verdade precisa saber, desde o início, exatamente o que está em jogo.
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