Ensaio Teológico III(11) As Adversidades da Vida e a Ação de Deus: Uma Reflexão Teológica
Por Claudeci Ferreira de Andrade
Houve um período da minha vida em que passei a acreditar que um vizinho estava rastreando minha localização pelo celular. Nunca consegui descobrir, ao certo, quais eram suas intenções ( certamente não eram boas). E, pensando bem, talvez essa tenha sido a parte mais angustiante de toda a história: a sensação permanente de estar sendo observado sem saber por quê, sem imaginar até onde aquilo poderia chegar. Levei essa inquietação para Deus. Não foi uma oração bonita, cuidadosamente elaborada; foi um grito da alma. Durante muito tempo, porém, o céu pareceu permanecer em silêncio. Só mais tarde, quando finalmente consegui enfrentar a situação e recuperar a sensação de segurança, percebi que havia algo além do medo. Aprendi a depender de Deus de um jeito que os dias tranquilos jamais haviam me ensinado. Não afirmo isso porque conheça o propósito exato daquele episódio. Digo apenas como alguém que atravessou o vale da insegurança e, do outro lado, encontrou uma fé mais madura, mais humilde e muito mais resistente.
Foi justamente essa experiência que me levou a refletir, juntamente com tantos outros cristãos, sobre uma pergunta que atravessa séculos: como devemos compreender as adversidades da vida? Seriam elas disciplina, prova, consequência natural de um mundo quebrado, castigo ou, quem sabe, oportunidades de crescimento que só conseguimos enxergar depois da tempestade? Não pretendo oferecer respostas fáceis. Ao contrário, proponho uma reflexão que reconheça a realidade do sofrimento sem abrir mão da confiança na bondade de Deus, ainda que, em muitos momentos, essas duas verdades pareçam caminhar em direções opostas.
À luz das Escrituras, as adversidades fazem parte da experiência humana desde a ruptura original entre a criação e o Criador, narrada em Gênesis 3. O pecado trouxe consigo a dor, o trabalho árduo, os conflitos e toda sorte de males que atingem não apenas o ser humano, mas a própria criação, que "geme e sofre dores de parto" aguardando o dia da restauração (Romanos 8:19-22). Por isso, não deveríamos esperar uma existência completamente livre de sofrimento neste mundo. A esperança cristã nunca foi a ausência de lágrimas no presente, mas a certeza de que elas terão fim quando Deus restaurar todas as coisas, conforme promete Apocalipse 21:1-5.
Nesse contexto, há um texto bíblico que costuma causar desconforto — talvez porque desafie nossas categorias mais simples sobre o agir divino. Isaías registra as palavras do Senhor: "eu formo a luz e crio as trevas [...] eu, o Senhor, faço todas essas coisas" (Isaías 45:7). Muitos preferem contornar essa passagem. Eu prefiro enfrentá-la, mas fazendo uma distinção indispensável: uma coisa é reconhecer a soberania de Deus sobre a história; outra, muito diferente, é atribuir-lhe a autoria moral do mal. As Escrituras preservam esse equilíbrio. Tiago afirma que Deus "não tenta ninguém" com intenção destrutiva (Tiago 1:13), enquanto Lamentações declara que ele "não aflige nem entristece de bom grado os filhos dos homens" (Lamentações 3:33). Se Deus permite a provação, seus propósitos jamais nascem do capricho, mas do amor. Às vezes, disciplina (Hebreus 12:5-11); outras vezes, purifica (Malaquias 3:2-4); em tantas outras, fortalece justamente quando reconhecemos nossa fraqueza (2 Coríntios 12:9-10). Em todas elas, porém, permanece o Deus que "é amor" (1 João 4:8).
Ainda assim, preciso fazer uma pausa. Esse tipo de reflexão, embora biblicamente consistente, pode se tornar profundamente cruel quando aplicada sem sensibilidade. Não são poucas as vezes em que alguém, diante da dor mais devastadora, ouve frases prontas como: "Deus tem um propósito". Dizer isso a uma mãe que acaba de perder um filho, a alguém que enfrenta uma doença terminal ou a uma vítima de violência, sem antes partilhar o peso do seu sofrimento, é transformar uma verdade teológica em brutalidade pastoral. Antes de explicar a dor, é preciso sentar ao lado de quem sofre. Antes do discurso, vem a compaixão. O propósito de Deus, quando conseguimos percebê-lo, quase sempre se revela na retrospectiva silenciosa da vida, e não no auge da tempestade. Foi exatamente assim comigo. Somente meses depois daquele episódio de vigilância e medo consegui enxergar algum aprendizado. Enquanto atravessava a experiência, o que eu precisava não era de explicações, mas da presença de Deus sustentando meus passos.
Talvez, então, a resposta mais honesta ao sofrimento não seja explicá-lo por completo, mas aprender a atravessá-lo. Caminhar pela fé quando faltam respostas (Hebreus 11:1), esperar mesmo quando os olhos ainda não veem (Hebreus 11:16) e cultivar a gratidão mesmo em meio às dificuldades (1 Tessalonicenses 5:18). Afinal, nem toda pergunta encontra resposta nesta vida. Algumas permanecem abertas, convidando-nos a confiar mais do que compreender. Sêneca observou que "o fogo é a prova do ouro; a adversidade, dos homens fortes". Hoje, olhando para trás, acrescentaria apenas uma nuance: a verdadeira força não consiste em deixar de sentir medo, mas em continuar caminhando apesar dele. Foi isso que aprendi naquele período tão difícil.
Que possamos, portanto, enfrentar as adversidades com essa mesma disposição. Não recorrendo a respostas simplistas nem tentando explicar cada lágrima que cai, mas permanecendo firmes na confiança de que Deus continua presente, mesmo quando parece silencioso. Porque, no fim das contas, a fé não elimina todas as perguntas; ela nos sustenta enquanto ainda não encontramos todas as respostas. E é justamente por isso que o Senhor continua sendo "refúgio para os oprimidos, uma torre segura na hora da adversidade" (Salmo 9:9).
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