Ensaio Teológico III(5) Fiança: Entre a Prudência e a Amizade
POr Claudeci Ferreira de Andrade
Meu irmão mais novo me pediu, certa vez, que eu fosse seu fiador. Precisava de um empréstimo para reformar a pequena oficina onde trabalhava, mas o banco exigia uma garantia que ele simplesmente não tinha. Lembro-me, como se fosse hoje, da longa noite em que permaneci sentado à mesa, com o contrato aberto diante de mim. De um lado, o receio de dizer "não" e ferir alguém que eu amava; do outro, o temor de dizer "sim" e acabar comprometendo meu próprio futuro, caso tudo desse errado. Foi justamente ali, espremido entre esses dois medos, que compreendi, na prática, o que a Bíblia ensina sobre a fiança. Ela não é boa nem má por natureza; seu valor depende de quem recebe essa confiança, das circunstâncias envolvidas e, sobretudo, das razões que nos levam a assumir esse compromisso.
A fiança acompanha a história da humanidade desde tempos antigos. Em essência, trata-se de assumir a responsabilidade pela dívida de outra pessoa caso ela não consiga honrá-la. Não por acaso, as Escrituras tratam o assunto com cautela. Provérbios adverte: "quem dá garantia por alguém sem juízo está agindo sem pensar; quem se responsabiliza por dívidas alheias está arranjando problemas" (Provérbios 17:18). Sempre levei esse conselho a sério, e naquela noite ele ecoava em minha consciência enquanto eu observava o contrato sobre a mesa. Mas, ao mesmo tempo, outra pergunta insistia em surgir: será que essa advertência encerra tudo o que a fé tem a dizer sobre confiança, responsabilidade e amor ao próximo?
A realidade, afinal, costuma ser bem mais complexa do que uma resposta pronta. Vivemos num mundo em que o crédito, muitas vezes, só existe para quem já possui patrimônio. Gente honesta acaba esbarrando nessa barreira não por falta de caráter, mas porque lhe faltam bens para oferecer como garantia. Era exatamente a situação do meu irmão. Recusar ajuda apenas porque o texto bíblico alerta contra os perigos da fiança teria sido, no fundo, esconder-me atrás de um princípio para evitar um sacrifício concreto. Por outro lado, aceitar o pedido sem qualquer reflexão seria cair justamente na imprudência que o livro de Provérbios condena. Nem oito, nem oitenta.
Foi então que percebi que a decisão não poderia nascer do impulso, fosse ele motivado pelo medo ou pela emoção. Antes de assinar qualquer documento, precisava responder a algumas perguntas. Eu conhecia o caráter do meu irmão? Sem dúvida. Crescemos juntos; eu sabia de sua honestidade, de seu esforço e da forma responsável como sempre conduziu a própria vida. O empréstimo tinha um propósito legítimo? Sim. O dinheiro seria investido na reforma da oficina que sustentava sua família, e não em aventuras ou caprichos passageiros. E, por fim, se o pior acontecesse, eu teria condições reais de assumir aquela dívida? Depois de fazer as contas com calma, concluí que sim. Foi nesse exame silencioso, quase um diálogo entre a consciência e a razão, que encontrei o verdadeiro sentido da advertência de Provérbios. O texto não exige uma negativa automática; exige discernimento antes de qualquer compromisso.
Assinei o contrato. Os anos passaram. Meu irmão quitou integralmente o empréstimo, reformou a oficina e, desde então, ela sustenta sua família com dignidade. A história terminou bem, graças a Deus. Ainda assim, vez ou outra penso no que teria acontecido se o desfecho fosse outro. Eu teria assumido aquela dívida, e continuo convencido de que não me arrependeria da decisão. Não porque a fiança seja sempre recomendável, mas porque, naquele caso específico, ela foi fruto de uma escolha consciente, e não de ingenuidade.
Essa experiência também me levou a enxergar a fiança sob outra perspectiva. A própria Bíblia afirma que Jesus se tornou "a garantia de uma aliança superior" (Hebreus 7:22). Em outras palavras, assumiu sobre si uma dívida que não era sua para libertar aqueles que jamais poderiam pagá-la. E suas próprias palavras reforçam esse princípio: "Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a sua vida pelos seus amigos" (João 15:13). Guardadas todas as proporções, talvez uma fiança concedida com sabedoria seja um discreto reflexo humano desse amor infinitamente maior — não um gesto inconsequente, mas um compromisso assumido por quem conhece o custo da própria decisão.
Aristóteles definia a amizade como "uma única alma habitando em dois corpos". Nunca essa imagem fez tanto sentido para mim quanto naquela noite. Enquanto observava o contrato sobre a mesa, parecia que meu coração caminhava em duas direções ao mesmo tempo: uma puxada pela prudência, outra pela lealdade. No fim, descobri que não era preciso escolher entre uma e outra. A verdadeira sabedoria está justamente em permitir que caminhem lado a lado.
Por isso, não faço da fiança uma regra universal, tampouco a transformo em um tabu. O que recomendo é algo bem mais difícil e, ao mesmo tempo, muito mais necessário: o discernimento. Entre a prudência que preserva e a generosidade que se dispõe a correr riscos existe um caminho estreito, quase sempre invisível aos apressados. É nesse espaço, onde a razão conversa com o coração e a responsabilidade encontra o amor, que o próximo deixa de ser apenas um dever moral e passa a ser alguém por quem, conscientemente, vale a pena assumir um compromisso.
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