Ensaio Teológico II(3) Erros que Ensinam: A Correção como Caminho para a Sabedoria
Por Claudeci Ferreira de Andrade
Houve um tempo em que eu orava por sabedoria como quem espera uma encomenda pelos Correios: fazia o pedido, aguardava a entrega e me frustrava quando a resposta não chegava pronta, embrulhada e com endereço certo. Demorei a perceber que Deus raramente responde desse jeito. Foi preciso tropeçar muitas vezes — tomar decisões mal calculadas, ignorar conselhos por puro orgulho e suportar correções que doeram muito mais do que eu gostaria de admitir — para entender que a oração de Salomão, ao pedir um coração sábio para governar, jamais foi um atalho mágico. Na verdade, era apenas o primeiro passo de uma longa aprendizagem. A partir dali, ele ainda precisaria exercitar esse pedido todos os dias, no desgaste real da vida, julgando, errando, revendo seus julgamentos e recomeçando quantas vezes fosse necessário.
Provérbios ensina que devemos buscar a sabedoria como quem procura um tesouro escondido. Durante muito tempo, confesso, preferi ignorar a exigência contida nessa metáfora. Afinal, tesouro escondido não cai do céu nem aparece por acaso. É preciso cavar, sujar as mãos, escolher as ferramentas certas e ter paciência com a terra que insiste em resistir. A própria Escritura conduz a uma conclusão inevitável: o coração da sabedoria passa pela disposição de aceitar a correção. Não basta ler sobre os erros alheios, nem elaborar belas teorias sobre as fraquezas humanas. O verdadeiro aprendizado começa quando o erro tem nome, rosto e dono — quando sou eu quem falha, sente o peso da correção e decide, apesar do desconforto, continuar caminhando.
Nunca me esqueço de uma ocasião em que fui corrigido por alguém bem mais jovem do que eu. Meu orgulho reagiu antes da minha razão. A experiência parecia me dar o direito de discordar; os anos de estrada pareciam funcionar como escudo contra qualquer contestação. Mas, bastou silenciar por alguns instantes e ouvir de verdade para perceber o óbvio: a correção fazia sentido. Quem estava errado era eu; quem resistia era o meu orgulho. Foi um episódio simples, quase corriqueiro, desses que muita gente esqueceria no dia seguinte. Eu, porém, nunca esqueci. Naquele instante compreendi uma lição que sermão nenhum havia conseguido gravar em mim: sabedoria não consiste em acertar sempre, mas em reconhecer, com humildade, quando se erra.
Talvez fosse justamente isso que Aristóteles chamava de prudência: a virtude que orienta nossas escolhas não pela teoria isolada da realidade, mas pelo discernimento moldado na prática, no erro reconhecido, na correção aceita e na experiência que, aos poucos, amadurece o julgamento. Há algo de profundamente humano nessa compreensão. A prudência aristotélica não nasce no conforto das bibliotecas, embora delas também se alimente. Ela ganha corpo nas situações concretas da existência, quase sempre desconfortáveis, quando somos obrigados a decidir e, depois, assumir as consequências das nossas escolhas — especialmente das escolhas equivocadas.
É justamente aí que fé e razão deixam de caminhar em trilhas paralelas e finalmente se encontram. Ambas dependem do mesmo gesto de humildade: aceitar que ainda temos o que aprender. Orar por sabedoria, como fez Salomão, sem admitir a possibilidade do erro e sem acolher a correção, transforma a oração em mera formalidade. Da mesma forma, raciocinar com rigor, como propunha Aristóteles, sem reconhecer os próprios limites, converte a inteligência em vaidade. Em ambos os casos, o conhecimento deixa de libertar e passa apenas a alimentar o ego.
Foi assim, entre acertos escassos e muitos tropeços, que compreendi — tarde, é verdade, mas ainda em tempo — que a sabedoria não se instala em nós como resposta imediata a uma oração, nem se alcança simplesmente pela elegância de um raciocínio bem construído. Ela é obra paciente. Vai sendo edificada erro após erro, correção após correção, exatamente nesse espaço estreito entre aquilo que pedimos a Deus e aquilo que Ele espera que façamos com as próprias mãos. Talvez, por isso, a oração mais sincera por sabedoria nem seja "dá-me um coração sábio", mas "dá-me coragem para aceitar a correção". Porque é justamente nesse instante — quando deixamos o orgulho baixar a guarda sem permitir que a alma se despedace — que a sabedoria deixa de ser uma ideia admirável e começa, enfim, a fazer morada em nós.






