Ensaio Teológico III(34) Deus na Era Moderna: por uma teologia do diálogo
Por Claudeci Ferreira de Andrade
Há uma imagem de Deus que atravessa os séculos e ainda ecoa em muitos púlpitos: a do juiz que zomba de quem zomba, humilha o orgulhoso e estende a mão apenas ao humilde. É uma figura imponente, quase teatral, construída sobre uma justiça de espelho, em que cada gesto humano recebe uma resposta proporcional do céu. Essa concepção encontra respaldo em passagens como Provérbios 3:34 e, durante muito tempo, pareceu suficiente para explicar a relação entre Deus e a humanidade. Mas, será que ainda basta? Ou continuamos repetindo, quase por inércia, uma imagem divina que já não dialoga com a experiência do mundo contemporâneo?
Vivemos num tempo em que a convivência entre diferenças deixou de ser uma escolha para se tornar uma necessidade. Nesse cenário, vale recordar a lição de Kant: a razão é a bússola mais confiável de que dispomos para atravessar as incertezas da existência. Se é assim, por que não empregá-la também quando refletimos sobre Deus? A ideia de uma divindade que despreza quem discorda, ridiculariza quem questiona ou fecha os ouvidos ao dissenso parece destoar de uma sociedade que aprendeu — muitas vezes pagando um preço altíssimo — que o pluralismo não é uma ameaça, mas uma conquista civilizatória. Não por acaso, Voltaire já advertia que a tolerância constrói pontes onde a intolerância costuma deixar apenas cicatrizes. Respeitar a fé do outro, ou mesmo sua ausência de fé, não é um gesto de concessão; é o alicerce de qualquer convivência verdadeiramente humana.
Talvez, então, seja o momento de abandonar, ainda que por um instante, a imagem de um Deus que separa orgulhosos e humildes como quem divide culpados e inocentes. Ao fazer isso, talvez descubramos uma compreensão mais profunda da própria mensagem cristã. Em Filipenses, por exemplo, Paulo parece apontar para um caminho diferente: menos preocupado em estabelecer hierarquias morais e mais comprometido com a capacidade de ouvir o outro. Nessa perspectiva, a humildade deixa de significar submissão cega e passa a representar abertura. Não é abaixar a cabeça diante de uma autoridade incontestável, mas reconhecer que ninguém esgota a verdade. A humildade, afinal, transforma-se em método de aprendizagem.
Essa compreensão encontra eco na velha máxima socrática: só sei que nada sei. Longe de ser uma demonstração de falsa modéstia, ela expressa uma atitude intelectual marcada pela honestidade e pela disposição permanente para investigar. A dúvida, nesse sentido, deixa de ser inimiga da fé para se tornar sua companheira de caminhada. Afinal, um Deus que se sentisse ameaçado pelas perguntas seria menor do que a própria inteligência que, segundo a tradição, Ele mesmo concedeu ao ser humano. Talvez o sagrado se revele justamente na coragem de continuar buscando, mesmo quando as respostas permanecem incompletas.
É por isso que certas interpretações mais rígidas — aquelas que apresentam o desprezo ao escarnecedor como uma sentença definitiva e irrevogável — merecem ser revisitadas à luz do que a própria experiência humana nos ensinou sobre respeito, tolerância e escuta mútua. Não se trata de esvaziar o sagrado nem de diluir a fé, mas de libertá-la das leituras que transformam Deus em instrumento de exclusão. Afinal, se a religião pretende aproximar o ser humano do transcendente, dificilmente cumprirá essa vocação enquanto afastar pessoas umas das outras.
No fim das contas, talvez a verdadeira grandeza da fé não esteja na rigidez das respostas, mas na generosidade das perguntas. Talvez Deus não espere de nós a arrogância de quem acredita possuir toda a verdade, e sim a humildade de quem continua aprendendo. Por isso, entre dogmas e diálogos, vale recordar a simplicidade luminosa do Evangelho: façamos aos outros aquilo que gostaríamos que nos fizessem. Se essa máxima orientasse nossas relações — religiosas ou não —, talvez descobríssemos que toda teologia, por mais sofisticada que seja, encontra seu ponto mais alto justamente nessa pequena e inesgotável lição de humanidade.

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