Ensaio Teológico IV(17) A Complexidade da Moralidade
Por Claudeci Ferreira de Andrade
Há uma frase que me acompanha desde que comecei a pensar mais seriamente sobre o bem e o mal: certas pessoas parecem se alimentar da maldade como quem se alimenta de pão — todos os dias, sem culpa, quase como se fosse um hábito necessário à sobrevivência. É uma imagem forte, incômoda, quase visceral. E justamente por isso me recuso a aceitá-la de imediato. Uma imagem tão poderosa também merece ser interrogada. Afinal, será que alguém nasce mau ou aprende a sê-lo ao longo do caminho?
O Evangelho de Mateus não hesita ao afirmar: "Porque do coração procedem maus pensamentos, homicídios, adultérios, prostituição, furtos, falsos testemunhos, blasfêmias" (Mateus 15:19). Li essa passagem muitas vezes ao longo da vida e, durante muito tempo, confesso, aceitei-a quase como uma sentença definitiva: o coração humano seria uma fonte poluída, e o mal, uma espécie de essência escondida dentro de nós. Hoje, porém, já não consigo lê-la sem que uma pergunta incômoda me atravesse: e se o texto estiver descrevendo sintomas, e não necessariamente as causas? E se aquilo que sai do coração for, em alguma medida, o eco distorcido daquilo que primeiro entrou nele — a negligência sofrida, a fome não saciada, o afeto que nunca chegou, a violência que se tornou rotina?
Não pretendo, com isso, negar a passagem bíblica, muito menos esvaziar sua força. Quero, antes, dialogar com ela. Afinal, uma verdade antiga não deveria ser apenas repetida como fórmula; precisa também ser confrontada com a experiência humana concreta. A vida, essa professora que não costuma entregar apostila, mostra-nos que por trás de muitos comportamentos aparentemente inexplicáveis existe uma história que quase ninguém se dispõe a conhecer.
Penso, por exemplo, em um menino qualquer — poderia ser qualquer um de nós — crescendo entre gritos, ausências e portas que se fecham. Aprende cedo, talvez sem que ninguém lhe diga explicitamente, que o mundo não parece reservar para ele um lugar de afeto. Cresce carregando carências que não escolheu e feridas que sequer sabe nomear. Anos depois, esse menino se transforma em um homem que fere, mente, rouba ou destrói. Dizer simplesmente que ele "se alimenta da maldade como de pão" é, sem dúvida, mais confortável. Afinal, assim não precisamos olhar para trás, para a infância abandonada, para as mesas vazias, para os abraços que nunca vieram. O julgamento encerra a história antes mesmo que tenhamos coragem de conhecê-la. Mas talvez o mal que esse homem pratica não seja apenas uma fome escolhida; talvez seja, também, uma fome herdada.
É nesse ponto que a famosa ironia atribuída a Einstein ganha um sentido ainda mais profundo: "duas coisas são infinitas: o universo e a estupidez humana; e não estou seguro sobre o universo". Rio-me toda vez que releio essa frase. E como não rir? Há nela uma mordacidade deliciosa. Mas, por trás do riso, existe uma advertência que não deveria passar despercebida. Muitas vezes, aquilo que chamamos de maldade pode ser, em alguma medida, ignorância travestida de crueldade: falta de educação emocional, incapacidade de compreender o outro, ausência de referências, carência de oportunidades e, sobretudo, desconhecimento de outros caminhos possíveis.
Isso não significa dizer que todo erro deve ser desculpado ou que toda violência possa ser justificada pelas circunstâncias. Não. Compreender não é o mesmo que absolver. Explicar uma conduta não significa aprová-la. Há atos que precisam ser contidos, responsabilizados e, quando necessário, punidos. A questão é outra: será que a punição, sozinha, consegue transformar alguém? Ou apenas devolve violência à violência, como quem tenta apagar um incêndio lançando gasolina sobre as chamas?
Por isso, resisto à ideia de que devemos simplesmente "ficar longe" daqueles que erram gravemente. Essa pode até parecer uma solução prudente, mas, quando transformada em princípio moral, cria uma ética de fronteiras fechadas. E fronteiras fechadas, convenhamos, raramente curam alguém; muitas vezes apenas escondem a ferida. O afastamento pode proteger a vítima, e isso é necessário, mas não deveria nos impedir de perguntar o que aconteceu para que determinada pessoa chegasse até ali.
Prefiro pensar, com Abhijit Naskar, que "não há religião melhor que o amor, nenhuma cor melhor que a cor da felicidade e nenhuma linguagem melhor que a linguagem da compaixão". E prefiro também, com Anatole France, reconhecer que "é da natureza humana pensar sabiamente e agir de forma tola". Há, nessa contradição, algo profundamente humano. Somos capazes de compreender o bem e, ainda assim, escolher o mal; sabemos o caminho e, não raro, seguimos pela estrada errada. Às vezes por egoísmo, outras por ignorância, medo, ressentimento ou simplesmente porque nunca aprendemos a caminhar de outra maneira.
Talvez, então, a verdadeira sabedoria moral não esteja apenas em separar as ovelhas dos bodes, os bons dos maus, os puros dos impuros. Talvez esteja, sobretudo, em perguntar por que o bode se tornou bode. Que caminho percorreu? Que feridas carregou? Quem o ensinou a morder? Quem lhe negou alimento quando ainda era pequeno?
Essa pergunta não elimina a responsabilidade individual, mas amplia o nosso olhar. E talvez seja justamente aí que a moralidade se torne mais humana: quando deixamos de olhar apenas para o ato e começamos a enxergar a história que existe por trás dele. Julgar é fácil; compreender dá trabalho. Condenar exige apenas um veredito; transformar exige paciência, coragem e compaixão.
No fim das contas, talvez a grandeza moral não esteja em apontar quem caiu, mas em compreender por que caiu e, quando possível, estender a mão para que se levante. Porque, se o mal pode ser aprendido, talvez também possa ser desaprendido. E talvez, ao fazermos essa pergunta — não para justificar o mal, mas para compreendê-lo —, comecemos finalmente a curar aquilo que a simples condenação jamais conseguiu curar: não apenas o indivíduo que errou, mas também a sociedade que, muitas vezes, ajudou a produzir a ferida que agora insiste em julgar.





