Ensaio Teológico IV(15) A Porta Estreita e o Justo Meio: Ensaio sobre a Coragem de Ser Autêntico
Por Claudeci Ferreira de Andrade
Há uma advertência que atravessa os séculos e ainda hoje nos encara como um espelho incômodo: "Não se enganem: as más companhias corrompem os bons costumes" (1 Coríntios 15:33). É uma frase que soa como conselho de mãe, como aquela mão que segura o braço do filho um segundo antes da queda. E, no entanto — permita-me começar justamente por essa contradição — é, muitas vezes, no encontro com o diferente, no confronto com aquilo que não somos e até mesmo no tropeço, que descobrimos quem de fato somos. A vida, afinal, não acontece dentro de uma redoma. A contemporaneidade, com sua pluralidade vertiginosa de vozes, crenças, comportamentos e modos de existir, já não nos permite viver apenas de um simples "evite" ou "afaste-se". Gostemos ou não, ela nos convoca a pensar, discernir e assumir as consequências das nossas escolhas.
É nesse ponto que Immanuel Kant oferece uma chave preciosa para a reflexão: a autonomia moral. Para o filósofo de Königsberg, o ser humano não deveria ser uma folha seca entregue ao vento das circunstâncias e das companhias; é capaz de pensar, julgar e discernir o bem por meio da razão prática. Se assim é, talvez a "contaminação" temida pelo texto bíblico não esteja propriamente no contato com o mundo, mas na fragilidade de um caráter que ainda não alcançou maturidade suficiente para lidar com ele. Afinal, se uma pessoa perde seus princípios toda vez que entra em contato com alguém que pensa diferente, talvez o problema não esteja apenas na companhia, mas também na falta de convicção de quem se deixa levar. O verdadeiro desafio, portanto, não é simplesmente saber quem frequentamos, mas quão firmes permanecemos em nós mesmos quando convivemos com aqueles que não são como nós.
É aqui que Aristóteles nos estende a mão com sua doutrina do Justo Meio — e é aqui, também, que este ensaio encontra seu ponto de maior interesse. Pensemos num jovem criado em uma comunidade de fé rigorosa, educado desde cedo a desconfiar do mundo lá fora. Um belo dia, ele faz amizade com um colega que não compartilha de sua crença, que bebe, que questiona, que duvida e que escolheu viver de outra maneira. O medo herdado imediatamente lhe sopra ao ouvido: afasta-te! Não te mistures! Não corras riscos! Mas a prudência aristotélica parece sussurrar outra coisa: não é preciso fugir, tampouco se entregar de corpo e alma; é preciso permanecer inteiro enquanto se aproxima.
Esse jovem pode conversar sem abandonar suas convicções, ouvir sem transformar a escuta em submissão, conhecer o diferente sem precisar tornar-se diferente. Pode, enfim, entrar em contato com o outro sem perder a si mesmo. É justamente aí que aparece a virtude aristotélica da coragem. Coragem, para Aristóteles, não é ausência de medo — isso seria quase uma fantasia —, nem temeridade cega, que se lança ao perigo como quem brinca com fogo. Ela ocupa um lugar intermediário entre extremos: de um lado, a covardia do isolamento; de outro, a imprudência da entrega irrestrita. Em outras palavras, ser corajoso não é não ter medo; é não permitir que o medo decida tudo por nós.
A metáfora da porta estreita, apresentada em Mateus 7:13-14, ganha, sob essa perspectiva, um sentido mais profundo e, quem sabe, mais humano. Não se trata necessariamente de uma porta destinada a excluir o mundo, como se a salvação dependesse de vivermos escondidos atrás de muros espirituais. A porta é estreita porque atravessá-la exige de nós alguma coisa difícil: autenticidade. Não basta seguir a multidão; é preciso saber por que se caminha. Não basta repetir aquilo que aprendemos; é necessário compreender aquilo em que acreditamos. E não basta dizer que temos fé; é preciso viver de maneira coerente com ela.
É nesse ponto que Kierkegaard se aproxima da nossa inquietação ao colocar a autenticidade no centro da existência. Ser autêntico é assumir a própria existência sem viver permanentemente sob a sombra daquilo que os outros esperam de nós. A porta estreita, então, pode ser compreendida não como um caminho reservado a poucos privilegiados, mas como o caminho difícil de quem se recusa a viver de aparência. Estreita não porque poucos sejam dignos, mas porque poucos estão dispostos a pagar o preço de serem verdadeiramente eles mesmos. É muito mais fácil vestir uma identidade pronta do que construir, com responsabilidade e consciência, uma existência própria.
Chego, então, ao ponto que realmente me move a escrever estas linhas: creio que a fé amadurecida não é aquela que se protege do mundo por medo, mas aquela que atravessa o mundo por convicção. Há uma diferença enorme entre preservar-se e esconder-se; entre ter princípios e ter medo; entre discernir e simplesmente rejeitar. A fé que precisa de uma redoma para sobreviver talvez ainda não tenha aprendido a caminhar com as próprias pernas. Já a fé madura pode entrar em contato com a dúvida sem necessariamente abandonar a convicção, ouvir a crítica sem perder a identidade e dialogar com o diferente sem transformar o diálogo em apostasia.
Paulo parece oferecer uma síntese admirável dessa postura ao escrever aos tessalonicenses: "Examinem tudo. Retenham o bem" (1 Tessalonicenses 5:21). Eis aí, talvez, uma das mais honestas pontes entre a cautela herdada e a liberdade conquistada. Não uma muralha que nos separa do mundo, nem uma ponte construída sem corrimão, sobre um abismo qualquer, mas um discernimento vivo, atento e exercitado a cada encontro. Examinar tudo significa não ter medo de olhar; reter o bem significa não ter vergonha de escolher.
No fim das contas, talvez a verdadeira porta estreita seja justamente essa: a passagem entre aquilo que recebemos e aquilo que, depois de pensar, escolhemos manter. Ninguém atravessa essa porta sem deixar alguma coisa para trás — o medo, a ingenuidade, a dependência da aprovação alheia ou até mesmo algumas certezas herdadas. Mas também ninguém a atravessa de mãos vazias. Levamos conosco aquilo que resistiu ao exame da consciência e permaneceu de pé depois do confronto com o mundo.
E talvez seja essa a grande coragem de ser autêntico: caminhar entre o muro e a abertura, entre a prudência e a liberdade, entre a fé recebida e a fé conscientemente assumida. Não precisamos temer o outro para permanecer nós mesmos. Precisamos, isso sim, conhecer quem somos, no que cremos e por que cremos. Afinal, quem possui raízes profundas não precisa temer todo vento que passa. Pode até balançar — e balançará —, mas não cai facilmente.


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