Ensaio Teológico IV(14) A Ponte entre o Muro e o Abismo: Fé, Razão e a Arquitetura das Relações Humanas
Por Claudeci Ferreira de Andrade
Há um instante, naquele silêncio que antecede qualquer escolha, em que todos nós — crentes ou céticos, sábios ou ainda tateando no escuro — nos deparamos com uma pergunta tão antiga quanto a própria experiência humana: quem devemos deixar entrar em nossa vida? Provérbios 4:10-13 responde com a firmeza de um pai preocupado com o destino do filho: afasta-te dos maus, guarda o coração, porque dele procedem as fontes da vida. É, sem dúvida, um conselho de proteção. Mas, e aqui começa nossa inquietação, também pode carregar o risco do enclausuramento. Afinal, o que é a vida senão esse atrito permanente com o outro — inclusive com aquele que nos contraria, nos incomoda, nos fere e, não raro, acaba nos transformando?
Nietzsche, esse filósofo acostumado a caminhar à beira do abismo, nos deixa uma advertência que, embora parta de outra perspectiva, não chega a contradizer inteiramente a sabedoria bíblica; antes, lança sobre ela uma luz diferente: "Aquele que luta com monstros deve ter cuidado para não se tornar um monstro. E se você olhar muito tempo para o abismo, o abismo olha para você." Percebe-se, então, que os dois textos — o sagrado e o filosófico — reconhecem o perigo, embora proponham respostas distintas. Provérbios enfatiza o afastamento; Nietzsche, a vigilância. Entre fugir do abismo e nele mergulhar de maneira inconsequente, talvez exista um terceiro caminho, mais difícil, porém mais humano: atravessá-lo com consciência, sem permitir que ele nos engula.
Essa tensão reaparece em Provérbios 4:16-19, quando o caminho dos ímpios é apresentado como trevas nas quais os próprios caminhantes não sabem em que tropeçam. Mas, convenhamos: se viver significasse apenas evitar tropeços, que espécie de amadurecimento nos restaria? É justamente aí que Paulo, em Romanos 8:28, oferece uma chave teológica de grande alcance: "todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus." Há uma sutileza importante nessa afirmação. Não se trata simplesmente de dizer que tudo acontece apesar das dificuldades, mas que até as dificuldades podem ser atravessadas e ressignificadas. É como se a Escritura, quando lida em sua totalidade e não como um amontoado de versículos isolados, trouxesse dentro de si uma resposta à própria advertência: o erro, a queda, o conflito e até mesmo o encontro com aquilo que consideramos mundano podem transformar-se em matéria-prima de aprendizado e redenção. Nem todo perigo precisa ser negado; alguns precisam ser compreendidos.
Se I Coríntios 15:33 nos adverte de que as más companhias corrompem os bons costumes, Sócrates nos devolve o espelho e nos obriga a olhar para dentro: "Não é o homem que é bom para o amigo que é amigo, mas o homem que é amigo do que é bom para o amigo." Nesse ponto, filosofia e fé parecem, enfim, dar-se as mãos. O critério não deveria ser simplesmente a origem ou a aparência do outro — se mundano ou santo, respeitável ou marginalizado —, mas aquilo que o vínculo produz em nós. Afinal, um amigo considerado "mau", mas capaz de nos confrontar com a verdade, pode contribuir mais para nosso crescimento do que aquele amigo "bom" que, por excesso de complacência, nos mantém confortavelmente presos à ilusão. Pensemos, por exemplo, no publicano que Jesus chamou para segui-lo ou na mulher samaritana junto ao poço. Eram pessoas situadas à margem dos padrões religiosos e sociais de seu tempo e, justamente por isso, tornaram-se personagens através dos quais a revelação ganhou novos contornos. A vida, essa velha professora que raramente pede licença para nos ensinar, não costuma obedecer às nossas fórmulas.
É por isso que a ideia de que uma regra simples — evitar os "mundanos" — teria sido suficiente para preservar as grandes figuras bíblicas, parece, diante da própria narrativa das Escrituras, um tanto ingênua. Jesus não construiu sua missão levantando muros entre puros e impuros. Ao contrário, atravessou fronteiras religiosas, sociais e morais para encontrar pessoas que outros preferiam manter à distância. Diante da mulher acusada de adultério, por exemplo, não entrou no jogo da condenação coletiva. Em vez disso, deslocou o foco da acusação para a consciência de cada um: "Aquele que dentre vós está sem pecado seja o primeiro a atirar-lhe uma pedra." Naquele momento, a fronteira aparentemente tão nítida entre o justo e o pecador começa a desmoronar. As pedras caem das mãos, o julgamento perde a arrogância e resta aquilo que todos tentamos esconder: a humanidade, nua, contraditória e comum a todos nós.
Isso não significa, evidentemente, abandonar o discernimento. Há relações que adoecem, ambientes que corrompem e vínculos que, em vez de nos fazer crescer, nos arrastam para baixo. A prudência continua sendo necessária. O problema começa quando a prudência se transforma em medo, e o medo, por sua vez, em isolamento. Construir muros pode proteger a casa, mas também pode impedir que alguém bata à porta trazendo justamente aquilo de que precisávamos para crescer. O desafio, portanto, não está em abrir indiscriminadamente todas as portas, mas em aprender a discernir quem entra, por que entra e o que essa presença produz em nossa existência.
Talvez seja esse o verdadeiro ponto de chegada deste ensaio: não negar a prudência bíblica, tampouco transformá-la em uma espécie de idolatria da separação, mas compreender que toda regra moral precisa ser vivida, pensada e discernida — não apenas obedecida mecanicamente. Kant, ao definir o esclarecimento como a saída do homem de sua menoridade autoimposta, aponta justamente para essa maturidade. Pensar por si mesmo não significa desprezar a tradição, a fé ou os princípios recebidos; significa assumir a responsabilidade de compreendê-los e aplicá-los com consciência. A maturidade espiritual, nesse sentido, não está em seguir preceitos simplesmente por medo das consequências, mas em desenvolver discernimento suficiente para reconhecer quando determinado caminho realmente protege e quando, ao contrário, começa a nos aprisionar.
No fim das contas, talvez a questão não seja escolher entre o muro e o abismo. O muro pode ser necessário, e o abismo pode ensinar. Há momentos em que precisamos fechar a porta; em outros, precisamos atravessar a ponte. O segredo está em saber distinguir uma coisa da outra. Entre o muro que protege e o abismo que revela, existe justamente essa ponte chamada discernimento. E talvez a fé mais madura não seja aquela que evita o mundo a qualquer custo, mas aquela que consegue atravessar suas contradições de olhos abertos — sem ingenuidade, sem arrogância e sem perder a própria identidade — e, ainda assim, permanecer de pé.


Nenhum comentário:
Postar um comentário