Ensaio Teológico III(9) Dar a Deus: Entre a Fé e a Cobrança
Por Claudeci Ferreira de Andrade
Há uma cena da minha infância que nunca se apagou da memória. Vi minha mãe, certa vez, tirar do orçamento já apertado o dinheiro que faltava para comprar o próprio remédio. Não foi por descuido nem por falta de planejamento. Ela o fez porque, do púlpito, um líder religioso havia afirmado que quem não dizimasse estaria "roubando a Deus" e fechando as portas das próprias bênçãos. Naquele mês, ela entregou o dízimo e passou semanas sem completar o tratamento. O que mais me marcou, porém, não foi a renúncia em si, mas a expressão em seu rosto. Não havia ali a serenidade de quem oferece com alegria, mas o peso de quem obedece por medo. Foi naquele instante que comecei a desconfiar de qualquer teologia que transforme a generosidade em instrumento de coerção espiritual.
Isso não significa que eu rejeite o princípio de honrar a Deus com os próprios recursos. Longe disso. Trata-se de uma prática antiga, profundamente enraizada na tradição bíblica e debatida há séculos dentro do cristianismo. O que proponho é apenas examiná-la com a serenidade que minha mãe, pressionada pelas circunstâncias, não teve oportunidade de exercer. Um dos fundamentos mais sólidos dessa prática é justamente o reconhecimento de que tudo pertence a Deus. Afinal, "do Senhor é a terra e tudo o que nela existe" (Salmos 24:1). Se assim é, devolver parte do que recebemos não deveria representar uma negociação em busca de favores divinos, mas um gesto espontâneo de gratidão e reconhecimento de sua soberania. Não por acaso, Paulo resume esse espírito com rara sensibilidade ao afirmar: "cada um dê conforme determinou em seu coração, não com pesar ou por obrigação, pois Deus ama quem dá com alegria" (2 Coríntios 9:6-7). A expressão "não com pesar" salta aos olhos. Minha mãe, infelizmente, fez exatamente o contrário: deu constrangida, pressionada pelo receio de desagradar a Deus.
É verdade que muitos encontram respaldo para a chamada teologia da prosperidade em textos como "ponham-me à prova [...] e vejam se não vou abrir as comportas dos céus" (Malaquias 3:10). Quando lidas isoladamente, passagens assim parecem estabelecer uma relação direta entre contribuição financeira e recompensa material. O problema começa quando essa promessa deixa de ser um convite à confiança e passa a funcionar como ameaça velada. Foi exatamente isso que aconteceu com minha mãe. Sua fé, que deveria inspirar liberdade, transformou-se em um cálculo angustiado: dar para não perder, contribuir para não ser castigada, ofertar para garantir proteção. A confiança cedeu lugar ao medo.
Entretanto, a própria Bíblia oferece um contraponto que, muitas vezes, acaba sendo esquecido. Deus não é um comerciante que troca bênçãos por depósitos bancários. Davi reconhecia essa verdade ao declarar: "Tudo vem de ti, e nós apenas te demos o que vem das tuas mãos" (1 Crônicas 29:14). Se tudo já pertence a Deus, então até aquilo que ofertamos continua sendo dele. Essa compreensão desmonta qualquer lógica de cobrança coercitiva. O mesmo espírito aparece nas palavras de Jesus, quando adverte contra a obsessão por acumular tesouros terrenos em busca de recompensas (Mateus 6:19-21), e reaparece em Paulo, que insiste para que toda contribuição seja feita "sem pesar nem constrangimento" (2 Coríntios 9:7). Não é difícil perceber o contraste entre esse ensino e o ambiente de culpa criado por certos discursos religiosos.
Há, porém, um aspecto que considero ainda mais decisivo. Segundo o próprio Jesus, dar a Deus significa, antes de tudo, cuidar das pessoas. "Tive fome, e vocês me deram de comer [...] estive enfermo, e vocês cuidaram de mim" (Mateus 25:35-36). O texto não fala de depósitos no templo nem de percentuais obrigatórios. Fala de gente. Fala do faminto, do doente, do preso, do vulnerável. À luz desse ensinamento, não consigo deixar de pensar que, se minha mãe tivesse usado aquele dinheiro para completar o próprio tratamento, também estaria servindo a Deus. Afinal, estaria preservando a vida que Ele mesmo lhe concedera. Em certo sentido, cuidar do próprio corpo também é um ato de mordomia. A generosidade autêntica jamais deveria competir com a sobrevivência de quem a pratica. Quando alguém precisa escolher entre o remédio e a oferta, entre a dignidade e a culpa, é sinal de que alguma coisa se perdeu no caminho.
Por isso, não concluo esta reflexão rejeitando o princípio de dar a Deus. Ao contrário, desejo devolvê-lo ao lugar de onde jamais deveria ter saído: o da liberdade da consciência, e não o da intimidação religiosa. A verdadeira generosidade nasce da gratidão, nunca do medo; floresce na liberdade, jamais na coerção. Como escreveu Agostinho, "ama a Deus e faz o que quiseres". Talvez a forma mais fiel de honrar essa máxima seja garantir que ninguém, como aconteceu com minha mãe, precise escolher entre comprar o remédio de que necessita e buscar uma bênção que lhe prometeram em troca de uma contribuição. Onde o amor governa, o medo perde a voz; e onde o medo fala mais alto que o amor, a fé já começou a perder seu sentido.
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