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MINHAS PÉROLAS

quarta-feira, 1 de janeiro de 2025

Ensaio Teológico VIII(2) A sabedoria clama nas praças, mas quem consegue ouvi-la?

 Ensaio 



Ensaio Teológico VIII(2) A sabedoria clama nas praças, mas quem consegue ouvi-la?

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Ouço, nos púlpitos e nas conversas de fim de culto, uma frase repetida quase sempre com ternura: a sabedoria está ao alcance de todos. Sei que quem a pronuncia raramente pretende soar arrogante; fala de um Deus que não faz acepção de pessoas e de um saber que não depende de diploma, título ou posição social. Por isso, levo a afirmação a sério e procuro examiná-la sem hostilidade. Há, de fato, algo muito bonito nessa ideia. A tradição sapiencial de Israel imagina a Sabedoria como uma mulher que clama nas praças e nas esquinas (Pv 1,20-21); Tiago promete que ela será dada sem censura a quem pedir (Tg 1,5); Jesus agradece ao Pai por revelá-la aos pequeninos (Mt 11,25); e Paulo lembra que, entre os coríntios, não havia muitos sábios segundo a carne (1Co 1,26). Há, nisso tudo, uma espécie de democratização radical do saber, anunciada dentro de uma sociedade antiga, profundamente hierárquica. A praça, pelo menos no texto bíblico, não deveria ter dono.

Mas, o mesmo cânon que promete também hesita. Em Jó 28, o poema pergunta onde mora a inteligência e acaba reconhecendo que ela não se encontra simplesmente na terra dos viventes. Vejo nessa tensão uma das grandes honestidades da Escritura: a sabedoria é dom, sim, mas também é caminho; é graça, mas exige busca, tempo, escuta e experiência. E, convenhamos, nem todo mundo chega à praça com os mesmos pés, nem com o mesmo fôlego. É justamente aqui que a sociologia pode me ajudar, sem tomar o lugar da teologia. Com Pierre Bourdieu, aprendo que o capital cultural existe em três estados — incorporado, objetivado e institucionalizado — e que boa parte dele é herdada quase sem que percebamos. A criança que cresce ouvindo conversas elaboradas à mesa, convivendo com livros, viagens, debates e palavras que ampliam o mundo já começa a estudar antes mesmo de saber que está estudando. Depois, a escola pode chamar de mérito aquilo que, em boa medida, começou no berço. Se nossas igrejas e seminários passam a medir a sabedoria pela fluência verbal, pela citação correta, pelo domínio do grego e do hebraico ou pela capacidade de transitar entre autores e conceitos, temo que o saber, embora anunciado como aberto a todos, acabe protegido por portas invisíveis.

Paulo Freire chamou de "cultura do silêncio" aquilo que ensina os oprimidos a duvidar de que sua própria palavra tenha valor. Penso, então, numa mulher que passou a vida lavando roupa, criando filhos e enfrentando as pequenas e grandes durezas da existência; uma mulher que nunca terminou o primário, mas que reza com uma fé capaz de deixar muito doutor desconcertado. Chamo-a dona Raimunda. Quando alguém lhe pergunta o que a Bíblia diz sobre o sofrimento, ela baixa os olhos e responde: "Isso é coisa para quem estudou." Eis o paradoxo: dona Raimunda tem sabedoria, mas aprendeu que a sabedoria reconhecida pertence aos outros. A frase que repetimos com tanta doçura pode ser verdadeira no céu e falsa no balcão da secretaria do seminário. E não é pouca coisa. bell hooks me lembra que o conhecimento só ganha força libertadora quando acolhe a experiência de quem está em sala; Boaventura de Sousa Santos chama de epistemicídio a destruição de modos de conhecer que não cabem no molde dominante; e Edward Said, em Orientalismo, mostra como o conhecimento produzido sobre o outro também pode se transformar em instrumento de poder. No fim das contas, quem tem o direito de nomear o mundo muitas vezes acaba decidindo, também, quais conhecimentos merecem ser chamados de conhecimento.

Nada disso, porém, desmente o Evangelho. Ao contrário: pode nos devolver o fio que, às vezes, deixamos escapar entre os dedos. Quando Jesus agradece ao Pai por revelar aos pequeninos aquilo que permanecia oculto aos instruídos, há ali uma inversão desconcertante dos nossos critérios de autoridade. O saber que se ostenta pode, paradoxalmente, ser uma maneira sofisticada de não ouvir. Por isso, entendo que a promessa bíblica não significa que todos terão a mesma biblioteca, os mesmos professores, o mesmo tempo disponível para estudar ou as mesmas oportunidades de formação. Significa algo mais profundo: ninguém está excluído de direito do encontro com o sentido — e cabe a nós impedir que essa exclusão aconteça de fato. A questão, então, talvez não seja apenas saber se a Sabedoria continua falando, mas perguntar se estamos construindo praças onde todos possam parar, respirar e escutá-la.

Isso exige alfabetizar sem humilhar, ensinar sem ostentar e estudar sem transformar o conhecimento em crachá de superioridade. Exige, sobretudo, aprender a ouvir antes de corrigir. Talvez seja preciso abrir espaço para que dona Raimunda não seja apenas aquela que aprende, mas aquela que, um dia, também ensina. Porque há saberes que não cabem numa apostila, numa banca examinadora ou num certificado pendurado na parede. Há conhecimentos que chegam pelas mãos calejadas, pelo silêncio, pela sobrevivência, pela fé, pela experiência e até pelas lágrimas. Só então a frase que repito com ternura — a sabedoria está ao alcance de todos — deixa de ser um consolo bonito e passa a ser aquilo que sempre deveria ter sido: um compromisso. Afinal, a Sabedoria continua clamando nas praças. A pergunta é outra: quem está construindo as praças e quem está sendo impedido de chegar até elas?

ALINHAMENTO CONSTRUTIVO

Abaixo, preparei 5 questões discursivas, simples e aprofundadas, acompanhadas de seus respectivos gabaritos/objetivos pedagógicos para orientar a mediação em sala de aula.

Questões Discursivas

1. Sobre Capital Cultural (Pierre Bourdieu)

Enunciado: O texto utiliza a teoria de Pierre Bourdieu para explicar que "boa parte do capital cultural é herdada quase sem que percebamos". Com base na leitura, explique por que a escola ou as instituições muitas vezes acabam "chamando de mérito aquilo que começou no berço".

2. A "Cultura do Silêncio" e o Autoconhecimento (Paulo Freire)

Enunciado: Ao falar de "dona Raimunda", o autor ilustra o conceito de "cultura do silêncio" de Paulo Freire, mostrando que ela acredita que a sabedoria é "coisa para quem estudou". De que maneira a estrutura social faz com que pessoas em situação de vulnerabilidade duvidem do valor de sua própria palavra e experiência?

3. Epistemicídio e Diversidade de Saberes (Boaventura de Sousa Santos)

Enunciado: O texto menciona o conceito de "epistemicídio" (destruição de modos de conhecer que não cabem no molde dominante) associado a Boaventura de Sousa Santos. Pensando na realidade escolar e social, por que alguns saberes (como os científicos ou acadêmicos) costumam ser valorizados enquanto outros (como os populares ou tradicionais) acabam sendo marginalizados?

4. O Conhecimento como Instrumento de Poder (Edward Said / bell hooks)

Enunciado: A partir das referências a Edward Said e bell hooks, o autor discute como o conhecimento pode se transformar em instrumento de poder e exclusão. Dê um exemplo cotidiano (na escola, nas redes sociais ou nas instituições) de como o uso de uma linguagem técnica ou "difícil" pode ser usado para afastar ou invalidar o outro em vez de comunicar.

5. De Consolo a Compromisso (Sociologia e Prática Social)

Enunciado: O texto conclui defendendo que a ideia de que "a sabedoria está ao alcance de todos" deve deixar de ser apenas um "consolador bonito" e virar um compromisso social ("quem está construindo as praças e quem está sendo impedido de chegar até elas?"). Do ponto de vista sociológico, o que significa transformar o acesso ao saber em um compromisso coletivo e não apenas em uma responsabilidade individual?

Orientações para o Professor (Gabarito Resumido)

Questão 1: Espera-se que o aluno compreenda que as condições materiais e culturais de origem (livros, conversas, estímulos) dão vantagens invisíveis (capital cultural) para alguns jovens, mascarando as desigualdades estruturais sob a falsa ideia de meritocracia pura.

Questão 2: O aluno deve perceber que a marginalização econômica e a falta de acesso formal à educação geram um sentimento de inferioridade intelectual, fazendo com que o oprimido internalize a narrativa de que seu saber prático ou vivencial não tem validade científica ou cultural.

Questão 3: A resposta deve tocar na hierarquização dos saberes. O epistemicídio ocorre quando a sociedade impõe um único modelo de conhecimento legítimo (geralmente eurocêntrico e letrado), silenciando saberes ancestrais, populares, artísticos ou corporais.

Questão 4: O aluno pode apontar como o "crachá de superioridade" (jargões técnicos, erudição ostentosa) cria barreiras sociais, reforçando assimetrias de poder e impedindo o diálogo horizontal.

Questão 5: O foco deve ser a transição da visão meritocrática individual para uma visão sistêmica e estrutural: a praça (espaço de troca e saber) precisa ser construída coletivamente, garantindo condições materiais reais, políticas públicas e inclusão para que todos possam, de fato, participar da vida social e cultural.

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