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terça-feira, 27 de outubro de 2026

Ensaio Teológico IX(11) A SABEDORIA, A FÉ E A CIÊNCIA DIANTE DO MISTÉRIO DA LONGEVIDADE

 



Ensaio Teológico IX(11) A SABEDORIA, A FÉ E A CIÊNCIA DIANTE DO MISTÉRIO DA LONGEVIDADE


Por Claudeci Ferreira de Andrade

Quando meu avô completou oitenta anos, alguém lhe perguntou, entre uma fatia de bolo e outra de prosa, qual era o segredo da longevidade. Ele pensou um instante e respondeu, com a franqueza de quem já viu muita coisa, que não sabia, e que tinha enterrado amigos bem mais cuidadosos do que ele. A mesa riu, mas a pergunta ficou comigo, velha como o medo da morte e teimosa como toda pergunta sem resposta fácil. Hoje acredito que ela merece ser tratada sem caricaturas: nem a que reduz a fé a uma fórmula, nem a que reduz a ciência a uma frieza.

Por isso, não vou brigar com uma tese que a melhor tradição bíblica nunca sustentou. Provérbios, é verdade, associa a sabedoria a “dias longos” (Pv 3:1-2; 10:27), mas basta ler a literatura sapiencial até o fim para ver que ela se corrige sozinha. O Eclesiastes reconhece, com uma lucidez quase dolorosa, que há justo que perece na sua justiça (Ec 7:15). Jó, de ponta a ponta, é um protesto contra a conta simples que iguala piedade e recompensa. E o Salmo 90 admite, sem rodeios, que os anos de uma vida são poucos e carregados de fadiga. Entendo, então, os provérbios como promessas de sentido, não como leis biológicas. Lê-los como determinismo é empobrecer a fé e, pior, tornar cruel o consolo de quem perde alguém cedo, porque a dor ganha, nas entrelinhas, o peso de uma acusação.

Do outro lado da mesa, a ciência tem o que dizer, e diz muito. Foram a medicina, a nutrição e a saúde pública que mudaram a duração da vida: a expectativa global, que rondava os trinta e poucos anos no início do século XX, ultrapassa hoje os setenta (RILEY, 2005; ROSER; ORTIZ-OSPINA; RITCHIE, 2013). O envelhecimento deixou de ser mistério para virar campo de estudo, com seus marcos, como a instabilidade genômica, o encurtamento dos telômeros e a senescência celular (LÓPEZ-OTÍN et al., 2013). Blackburn e Epel mostram que o estresse crônico deixa marcas mensuráveis nesse relógio celular. Sinclair defende que o envelhecimento é passível de intervenção, tese debatida entre seus pares, mas que aponta uma direção. E Marmot revela algo que tira o sono de qualquer um: a posição social prediz saúde e morte, o que faz da longevidade, antes de tudo, uma questão de justiça. Ainda assim, não dá para falar em holismo e deixar o espírito na porta. Uma meta-análise (McCULLOUGH et al., 2000) e um estudo com enfermeiras (LI et al., 2016) associam o envolvimento religioso a menor mortalidade. Com a ressalva de que associação não é causalidade, leio nisso um sinal de que comunidade, hábitos e esperança protegem. A fé, ao que parece, age menos como contrato e mais como laço.

Concluo, então, que a sabedoria não causa a longevidade, mas pode ser a arte de lidar com ela, como sugere Carstensen ao notar que o tempo vivido nos ensina a investir nos vínculos que importam (CARSTENSEN, 2011). Quem reduz a longevidade ao pecado erra por simplificação; quem a reduz à bioquímica erra pelo mesmo motivo, só que pelo outro lado. Penso de novo em meu avô e acho que ele tinha razão em não saber. A ciência nos entrega probabilidades e a chance de cuidar uns dos outros; a fé, no seu melhor, nos lembra por que vale a pena durar: para amar, para servir e para partir sem ter vivido em vão.

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