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MINHAS PÉROLAS

terça-feira, 28 de janeiro de 2025

Ensaio Teológico VIII(4) "A Teologia Machista da Sabedoria: Uma Crítica Necessária"

 Ensaio  


Ensaio Teológico VIII(4) "A Teologia Machista da Sabedoria: Uma Crítica Necessária"

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Há uma cena em Provérbios que nenhum sábio de gabinete gostaria de ler em voz alta: a Sabedoria não espera, comportada, num salão fechado; ela "clama lá fora; nas ruas levanta a sua voz" (Pv 1:20). Gosto dessa imagem porque ela põe o saber onde muita gente não espera encontrá-lo: na rua, no meio do povo, longe dos púlpitos e das cadeiras de autoridade. Mas, há um detalhe que me chama ainda mais a atenção, desses que a tradição religiosa, vez ou outra, prefere deixar de lado: no texto hebraico, a Sabedoria é apresentada no feminino. E aí me vem uma pergunta incômoda, daquelas que não nos deixam dormir em paz: como uma tradição que dá voz e corpo femininos à própria Sabedoria pôde construir, ao longo dos séculos, uma teologia que reserva aos homens o direito de ensinar, interpretar e decidir?

Antes de criticar, porém, convém deixar claro o alvo da minha crítica. Essa teologia nem sempre se apresenta como exclusão; muitas vezes, veste a toga da "ordem natural", ajeita o discurso e invoca 1 Timóteo 2:11-12, passagem em que se recomenda que a mulher aprenda em silêncio e não ensine. O problema começa quando uma orientação situada num contexto específico é transformada em lei universal, como se o restante da Bíblia não tivesse nada a dizer sobre o assunto. Ora, a própria Escritura nos apresenta mulheres exercendo funções que desmentem essa leitura restritiva: Priscila, ao lado de Áquila, explicou com mais exatidão o caminho de Deus ao eloquente Apolo (At 18:26); Febe é apresentada como diaconisa e portadora da carta aos Romanos (Rm 16:1-2); as filhas de Filipe profetizavam (At 21:9); e Débora julgava Israel debaixo de uma palmeira (Jz 4:4-5). Diante disso, fico pensando: será que estamos realmente ouvindo a Bíblia ou apenas selecionando os versículos que protegem posições já ocupadas? Afinal, em Provérbios 8 e 9, a Sabedoria fala em primeira pessoa e assume uma identidade feminina — Sophia, em grego, e Chokmah, em hebraico. Essa figura não aparece como um enfeite literário, mas como uma voz que interpela, ensina e convida à vida. Paulo, por sua vez, recolhe essa tradição ao chamar Cristo de "sabedoria de Deus" (1Co 1:24). Sendo assim, excluir as mulheres dos espaços de conhecimento e autoridade não é apenas limitar direitos; é mutilar a própria tradição que se pretende defender.

Para compreender como essa exclusão se mantém de pé, recorro a Simone de Beauvoir, que, em O Segundo Sexo (1949), formulou a conhecida ideia de que não se nasce mulher: torna-se mulher. Ela não estava discutindo a Sabedoria bíblica, é verdade, mas sua reflexão nos ajuda a enxergar como os papéis sociais são construídos e apresentados, depois, como se fossem naturais. O mesmo raciocínio vale para a suposta incapacidade intelectual feminina: primeiro, impede-se a menina de estudar; depois, usa-se a falta de oportunidades como prova de que ela não nasceu para o conhecimento. Fecha-se a porta, tranca-se a fechadura e, por fim, culpa-se quem ficou do lado de fora. bell hooks, em Ensinando a transgredir (1994), também nos ajuda a compreender o pensamento crítico como prática de liberdade — justamente por isso, tantas vezes vigiada, reprimida ou tratada como ameaça. E a história, essa senhora que nem sempre respeita os limites impostos pelos poderosos, responde com exemplos eloquentes. Marie Curie conquistou dois prêmios Nobel, em 1903 e 1911, num contexto europeu em que as mulheres enfrentavam barreiras institucionais no mundo científico. Malala Yousafzai, baleada aos quinze anos por defender o direito das meninas à educação, recebeu o Nobel da Paz em 2014. Amartya Sen, em Desenvolvimento como Liberdade (1999), lembra-nos de que desenvolver uma sociedade significa ampliar as liberdades reais de seus integrantes. Ora, uma comunidade que afasta metade de seus membros da palavra, do conhecimento e das decisões coletivas pode até erguer templos grandiosos, mas continua pobre em sabedoria.

Confesso, entretanto, que nem sempre são as grandes autoridades intelectuais que mais me convencem. Às vezes, basta uma cena miúda, dessas que passam despercebidas na correria da vida. Penso na avó que nunca frequentou uma universidade, mas encontra a palavra certa para consolar a neta decepcionada; na mulher que sabe um salmo de cor, compreende a dor alheia e oferece conselhos capazes de reorganizar uma vida, mas, ao chegar à igreja, é lembrada de que seu lugar é servir o café. E aí, véi, a pergunta sai quase sem pedir licença: que sabedoria é essa que a igreja aceita na cozinha, mas recusa no púlpito? Que Deus seria esse, capaz de conceder inteligência, discernimento e voz a uma mulher, para depois proibi-la de usar os dons que recebeu? Gálatas 3:28 nos oferece uma resposta que merece ser levada a sério: já não há judeu nem grego, escravo nem livre, homem nem mulher, pois todos são um em Cristo Jesus. O texto não apaga as diferenças humanas, mas põe em xeque seu uso como justificativa para estabelecer hierarquias de dignidade e pertencimento. As fronteiras que, durante tanto tempo, regularam o acesso ao sagrado não podem continuar funcionando como muros intransponíveis.

No fim das contas, a questão não é se as mulheres são capazes de pensar, ensinar ou interpretar as Escrituras. A própria vida, dentro e fora da Bíblia, já respondeu a isso. A questão é por que tanta gente ainda se incomoda quando elas ocupam espaços dos quais foram historicamente afastadas. A Sabedoria continua nas ruas, de voz erguida, como em Provérbios; não perdeu a voz, não pediu licença e tampouco deixou de existir porque alguns preferiram não escutá-la. O problema, portanto, talvez nunca tenha sido o silêncio das mulheres, mas a surdez de quem se acostumou a falar em nome de Deus. E é com essa inquietação que encerro minha reflexão: teremos coragem de abrir as janelas das nossas igrejas, arejar as ideias e deixar a Sabedoria entrar com o rosto, o corpo e a voz que sempre teve? Ou continuaremos defendendo portas fechadas enquanto a verdade, lá fora, clama nas praças?

ALINHAMENTO CONSTRUTIVO

Questões Discursivas: A Sabedoria, o Gênero e a Sociedade

1. A construção social dos papéis de gênero

O texto menciona a célebre frase de Simone de Beauvoir: "Não se nasce mulher: torna-se mulher". A partir dessa ideia e do que o texto aborda sobre a exclusão feminina dos espaços de saber, explique com suas palavras como a sociedade constrói papéis diferentes para homens e mulheres e como isso é frequentemente tratado como se fosse algo "natural".

2. Religião, tradição e relações de poder

O autor discute como uma interpretação restritiva de textos religiosos foi utilizada ao longo dos séculos para justificar a subordinação das mulheres e a proibição de que elas ensinassem ou liderassem. Do ponto de vista sociológico, como as tradições e as instituições (como a religião) podem ser usadas para legitimar relações de poder e desigualdade social?

3. Educação, liberdade e desigualdade

Citando Amartya Sen (Desenvolvimento como Liberdade) e bell hooks (Ensinando a transgredir), o texto aponta que o pensamento crítico é uma prática de liberdade e que o desenvolvimento social exige ampliar as liberdades reais. Por que o acesso à educação e ao conhecimento é considerado uma ferramenta central para a emancipação e para a transformação social?

4. O saber cotidiano versus o saber institucional

No trecho final, o autor contrasta a figura de mulheres intelectuais de destaque (como Marie Curie e Malala) com cenas do cotidiano, como a avó que oferece conselhos sábios, mas cuja voz é diminuída em espaços de liderança. Como a sociologia analisa essa valorização desigual entre o conhecimento formal (acadêmico) e o conhecimento informal (popular ou prático)?

5. A sociologia e a superação de preconceitos

O texto encerra provocando o leitor a pensar sobre a "surdez" daqueles que se acostumaram a manter portas fechadas para a participação plena das mulheres. Em sua opinião, de que maneira o estudo da sociologia pode ajudar os jovens a identificarem e combaterem preconceitos enraizados na cultura e na história de nossa sociedade?

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