ANTOLOGIA DE CRÔNICAS REFLEXIVAS À LUZ DA SÃ CONSCIÊNCIA — Crônica (73): A Chama da Generosidade.
O Seu Nelson nunca falou sobre dízimo. Nunca fez discursos sobre ofertas, percentuais ou obrigações. Também nunca usou a palavra "generosidade". E, pensando bem, talvez isso não seja coincidência. Quem realmente vive certas virtudes quase nunca sente necessidade de anunciá-las. Simplesmente as pratica. O que ele fazia era muito mais eloquente do que qualquer sermão.
Toda sexta-feira, logo pela manhã, saía de casa levando uma sacola. Não era grande. Tinha exatamente o tamanho de quem carrega o suficiente, e não aquilo que lhe sobra. Dentro havia alguns pães; às vezes, um pedaço de queijo, uma garrafa de suco barato ou outra coisa simples. Então caminhava pelos mesmos quatro quarteirões, sem alterar o percurso, distribuindo o que levava a quem cruzasse seu caminho e precisasse mais do que ele. Não fazia discursos. Não entregava folhetos. Não convidava ninguém para a igreja. Muito menos transformava aquele gesto numa oportunidade de pregação.
Descobri esse hábito por acaso. Certa manhã, vi Seu Nelson saindo com a sacola nas mãos e perguntei para onde ia. Ele respondeu com a mesma naturalidade de quem informa o itinerário do ônibus: "Dar uma volta." A resposta só fez sentido algum tempo depois. Conversando com um vizinho que o conhecia havia muitos anos, ouvi a história completa. O homem me contou das sextas-feiras, da sacola, dos quatro quarteirões e daquela rotina silenciosa que já se repetia havia mais de uma década. — "Faz isso há uns doze anos", disse. "Nunca pediu para ninguém saber."
Desde então, toda vez que escuto certas pregações sobre generosidade, a imagem do Seu Nelson volta à minha memória. Refiro-me àquelas mensagens acompanhadas de tabelas de percentuais, promessas de multiplicação e uma lógica sutilmente comercial, como se doar fosse apenas uma estratégia de investimento espiritual. Dê dez, receba cem. Uma matemática sedutora que, sem perceber, transforma a graça em transação e o amor em aplicação de alto rendimento.
O Seu Nelson, ao que tudo indica, nunca fez esse tipo de conta. Ou, quem sabe, fez cálculos completamente diferentes — daqueles que não cabem numa planilha, nem podem ser explicados por fórmulas. Contas que pertencem mais ao coração do que à calculadora.
Existe uma liberdade desconcertante na generosidade que não espera recompensa. E desconcertante talvez seja mesmo a palavra mais adequada, porque ela desnorteia quem foi educado a acreditar que toda entrega precisa produzir algum retorno. A "igreja empresa", de que estas crônicas vêm tratando ao longo das últimas semanas, costuma operar segundo uma lógica de débitos, créditos e recompensas espirituais. Seu Nelson, porém, parecia viver sob outra economia. Uma economia invisível, cujas regras nunca consegui compreender por inteiro.
Só sei de uma coisa. Toda sexta-feira de manhã ele saía de casa com uma sacola do tamanho certo. Voltava algumas horas depois com ela completamente vazia. E, por alguma razão que dispensa qualquer explicação teológica, aquilo lhe bastava. Talvez porque existam riquezas que só aparecem quando as mãos deixam de segurar e aprendem, enfim, a repartir.
.jpeg)

Nenhum comentário:
Postar um comentário