Ensaio Teológico III(3) A Perfeição é uma Ilusão: Uma Análise Crítica da Relação entre Misericórdia e Verdade
Por Claudeci Ferreira de Andrade
Passei anos perseguindo a perfeição. E não digo isso como simples figura de linguagem. Minha rotina era marcada por listas de virtudes a cumprir, exames de consciência ao fim de cada dia e uma inquietação permanente, como se eu estivesse sempre aquém do cristão que imaginava que deveria ser. Por mais que me esforçasse, a sensação de insuficiência nunca me abandonava. Era como correr atrás do horizonte: quanto mais eu avançava, mais distante ele parecia. Recordo-me de uma noite em particular. Exausto, sentei-me sozinho e chorei. Perguntei a Deus por que a misericórdia e a verdade, que eu tanto tentava "atar ao pescoço", conforme a recomendação de Provérbios, pareciam escapar por entre os meus dedos. Hoje percebo que aquela lágrima silenciosa foi também o início de uma mudança. Foi ali, no fundo do cansaço, que comecei a desconfiar de que talvez o problema não estivesse apenas em mim, mas na própria meta que eu havia transformado em obsessão.
As Escrituras realmente exaltam a misericórdia e a verdade como virtudes indispensáveis. O sábio aconselha: "não te desamparem a benignidade e a fidelidade; ata-as ao teu pescoço; escreve-as na tábua do teu coração" (Provérbios 3:3). A imagem é belíssima. Ela sugere que essas virtudes devem acompanhar a pessoa tão naturalmente quanto um adorno que jamais é retirado do corpo. No entanto, existe um perigo quase imperceptível nessa metáfora: acreditar que basta seguir esse mandamento à risca para alcançar uma perfeição moral impecável. Durante muito tempo, foi exatamente assim que li esse texto. Só mais tarde compreendi o peso dessa interpretação. A perfeição, entendida como ausência absoluta de falhas, não pertence à condição humana. Paulo lembra, com admirável realismo, que "todos pecaram e estão destituídos da glória de Deus" (Romanos 3:23). Séculos depois, Voltaire condensaria essa mesma intuição numa frase memorável: "o melhor é inimigo do bom". E foi justamente essa busca incessante pelo "melhor", pelo ideal inalcançável, que quase me roubou a alegria da caminhada.
Com o passar dos anos, outra descoberta se impôs diante de mim. Também era um equívoco imaginar misericórdia e verdade como forças opostas que precisavam ser dosadas segundo uma fórmula perfeita. A vida não funciona como uma equação matemática. A virtude não nasce da simples soma de extremos, mas de um equilíbrio vivo, delicado e sempre provisório. Aristóteles chamava isso de justo meio, o ponto de equilíbrio entre dois excessos. Durante muito tempo, essa ideia me pareceu elegante apenas no papel. Depois, a própria vida resolveu transformá-la em experiência.
Lembro-me de um amigo que, certa vez, me procurou para confessar um erro grave. Minha primeira reação foi imediata: disse tudo o que considerava verdadeiro, mas o fiz sem sensibilidade alguma. Minha verdade era correta; meu coração, porém, estava distante da misericórdia. Minhas palavras acertaram os fatos, mas feriram a pessoa. Algum tempo depois, a situação se repetiu com outra pessoa, e, tentando não repetir o erro anterior, fui para o extremo oposto. Preferi silenciar. Fingi que nada havia acontecido, como se evitar o confronto fosse uma forma de amar. Não era. Era apenas uma misericórdia esvaziada de verdade, incapaz de produzir transformação. O problema permaneceu intacto, apenas adiado.
Foi somente anos mais tarde — e, confesso, depois de muitas tentativas frustradas — que consegui agir de maneira diferente. Aprendi que é possível dizer a verdade sem humilhar e exercer misericórdia sem relativizar o erro. Descobri que firmeza não precisa ser sinônimo de dureza, assim como compaixão não significa complacência. A verdade pode corrigir sem esmagar, e a misericórdia pode acolher sem abandonar aquilo que é justo. Foi nesse momento que compreendi, não apenas intelectualmente, mas existencialmente, aquilo que Aristóteles descrevera séculos antes. O equilíbrio não é um ponto onde finalmente chegamos; é uma arte que reaprendemos todos os dias.
Essa mudança também transformou minha maneira de ler as palavras de Jesus: "sede vós, pois, perfeitos como perfeito é o vosso Pai celeste" (Mateus 5:48). Durante muito tempo, esse versículo soou para mim como uma cobrança impossível, um padrão inalcançável que apenas aumentava minha culpa. Hoje, porém, escuto nele outro convite. A perfeição de que Cristo fala já não me parece significar uma vida sem falhas, mas uma vida orientada pela plenitude do amor. Trata-se de uma maturidade que não nasce pronta nem se conquista de uma única vez. Ela vai sendo cultivada lentamente, entre acertos e tropeços, como quem aprende a caminhar sem jamais perder a consciência de que ainda está a caminho.
Foi por isso que deixei de fazer da perfeição o destino da minha fé. Em seu lugar, passei a buscar algo bem mais humano e, paradoxalmente, muito mais profundo: viver cada dia tentando harmonizar compaixão e integridade. Sei que continuarei errando o alvo. Haverá dias em que serei rigoroso demais; em outros, indulgente além da conta. Mas, já não interpreto essas oscilações como sinal de fracasso. Elas fazem parte do próprio processo de amadurecimento. Afinal, crescer é aprender a corrigir a rota enquanto se caminha.
Talvez seja por isso que as palavras atribuídas a Einstein façam hoje tanto sentido para mim: "tente não ser uma pessoa de sucesso, mas sim uma pessoa de valor". Há alguns anos, eu as teria lido como um conselho inspirador. Hoje, leio-as como uma libertação. Elas me lembram que Deus nunca me chamou para representar o papel de alguém impecável. Chamou-me para ser verdadeiro, misericordioso e disposto a recomeçar sempre que necessário. E, sinceramente, há um descanso profundo em descobrir que a perfeição não é o ponto de chegada da fé. O amor, sim.


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