Ensaio Teológico III(31) Uma Perspectiva Ética e Humana sobre a Opressão
Por Claudeci Ferreira de Andrade
Há imagens que o tempo não consegue apagar. Uma delas nunca saiu da minha memória: operárias costurando por dezesseis horas seguidas em galpões abafados, sem janelas, na Bangladesh de 2013, enquanto as paredes ao redor já anunciavam a tragédia. O edifício Rana Plaza ruiu, e mais de mil pessoas foram soterradas sob os escombros de um sistema econômico que transformava a exaustão humana em lucro. Desde então, uma pergunta insiste em me acompanhar: o que leva alguém a aceitar, administrar ou simplesmente fechar os olhos diante de tamanha opressão? E, mais importante ainda, o que se espera de nós para que jamais trilhemos esse mesmo caminho? É dessa inquietação — que permanece viva e incômoda — que nasce este ensaio.
As religiões contemporâneas, em geral, respondem a essa questão recorrendo à linguagem da justiça divina. O opressor, cedo ou tarde, será alcançado por uma condenação que ultrapassa os limites da história. Provérbios 21:15 afirma que a justiça traz alegria aos justos, mas terror aos malfeitores. Há uma beleza inegável nessa promessa, pois ela alimenta a esperança de que nenhuma injustiça permanecerá impune. Ainda assim, ela encerra um perigo sutil: o de transferirmos para o além a responsabilidade de enfrentar, aqui e agora, aquilo que exige nossa ação no presente.
Kant propõe uma perspectiva diferente — e talvez mais exigente. Para ele, o ser humano é o único capaz de justificar a própria existência. Talvez seja justamente essa necessidade permanente de prestar contas à própria consciência, e não o temor de um castigo futuro, que devesse nos afastar da prática da opressão. A ética não nasce apenas do medo de um juiz celestial; ela floresce quando compreendemos que carregamos, dentro de nós, um tribunal que nunca suspende suas sessões. É nesse ponto que Sócrates parece atravessar os séculos para dialogar com Kant. Ao afirmar que não é simplesmente a vida, mas a boa vida, que merece ser vivida, o filósofo grego nos recorda que uma existência digna é, antes de tudo, uma existência examinada — uma vida que responde, em primeiro lugar, à própria consciência, antes mesmo de responder a qualquer céu.
Rejeitar a opressão, portanto, vai muito além de condenar o gesto explícito do opressor. Significa desmontar toda a engrenagem invisível que sustenta a injustiça. Ela se revela no preço irrisório imposto ao fornecedor, na caridade feita para alimentar a própria imagem e não para aliviar a dor do outro, na indiferença diante do sofrimento animal, no silêncio cúmplice diante do colega explorado e, por que não dizer, na violência silenciosa que praticamos contra nós mesmos quando nos exigimos além dos limites do que é humanamente possível. Afinal, a opressão raramente veste apenas o rosto da brutalidade; muitas vezes, ela se disfarça de normalidade.
Sei que os responsáveis por tragédias como a do Rana Plaza podem prosperar durante anos, talvez décadas, sem aparentar qualquer consequência. A história, porém, costuma ser paciente. Não porque exista uma força mágica corrigindo os desvios da humanidade, mas porque toda sociedade construída sobre a injustiça traz, em sua própria estrutura, as rachaduras que um dia a farão ceder. Martin Luther King Jr. dizia que o arco moral do universo é longo, mas se inclina para a justiça. Eu iria um passo além: esse arco não se curva por conta própria. Somos nós que o inclinamos, pouco a pouco, em cada decisão ética, em cada gesto de coragem, em cada recusa de participar da injustiça. E isso acontece, sobretudo, quando ninguém está olhando — porque há escolhas cujo valor independe dos aplausos da terra ou do olhar do céu.


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