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MINHAS PÉROLAS

sexta-feira, 30 de dezembro de 2022

O Estigma e a Máscara da Autoridade ("Quem pode, age. Quem não pode, ensina." — George Bernard Shaw) ("Quem pode, age. Quem não pode, ensina." — George Bernard Shaw)

 


O Estigma e a Máscara da Autoridade ("Quem pode, age. Quem não pode, ensina." — George Bernard Shaw)

Por Claudeci Ferreira de Andrade

No ensino básico — sobretudo no terreno irregular da escola regular, pública ou privada — o professor ainda é apresentado como o “guardião da sala de aula”. Espera-se dele a autoridade máxima, capaz de manter corpos sentados, bocas fechadas e olhares fixos na lousa. Essa autoridade, porém, é uma máscara mal ajustada. O conteúdo, o ritmo, o volume de avaliações e até os critérios de nota chegam prontos, definidos previamente. A soberania docente termina onde começa a planilha da coordenação. Quando pais e alunos percebem que o professor é apenas o executor de ordens — um mediador treinado para ser “agradável” em nome de uma didática supostamente moderna — o respeito se esvai. Ele deixa de ser referência e passa a ocupar um lugar incômodo: o de bode expiatório, alvo permanente da erosão cotidiana de sua dignidade profissional.

Nesse cenário, a autoridade real desloca-se em silêncio. Já não está na sala, mas nos bastidores: nos fornecedores de materiais, nos discursos pedagógicos de ocasião e, paradoxalmente, nos próprios alunos. Estes aprendem cedo a lógica do jogo: fingem que aprendem e ensinam o professor a fingir que ensina. Instala-se uma vigilância difusa, quase foucaultiana, em que qualquer gesto vira prova e qualquer palavra, processo. O docente vive sob uma CPI permanente, sempre à espera de ser convocado à diretoria por um boato, uma queixa ou uma interpretação enviesada. Se o sistema legitima sua humilhação, por que o aluno haveria de reconhecê-lo como autoridade? Todo acordo de remanejamento ou alteração na dinâmica das aulas esconde, no fundo, uma exigência de subserviência — não pedagógica, mas simbólica.

É nesse ponto que a virada digital, muitas vezes tratada como detalhe técnico, revela seu peso filosófico. A virtualização das aulas não surge como moda, mas como ruptura no regime de presença e vigilância. O corpo do professor deixa de ser o principal campo de controle. Conflitos típicos do espaço físico arrefecem: diminuem os casos de assédio direto, as acusações baseadas na proximidade corporal e o constrangimento gerado pelo contato inevitável. No ambiente digital, a interação passa a ser mediada por registros, horários e telas. A presença de alunos menores nas redes institucionais do professor torna-se comum, e o envio de textos, links ou ilustrações já não carrega automaticamente a suspeita moral que antes pairava sobre qualquer aproximação. A disciplina muda de forma; o olhar vigilante não desaparece, mas se redistribui.

O que, afinal, está em jogo nessa transformação? Não se trata de romantizar o ensino remoto nem de negar seus limites evidentes, mas de reconhecer que a crise — sanitária, social e institucional — expôs a falência de um modelo de autoridade sustentado apenas pela presença física e pelo controle. A aprovação automática, adotada como paliativo, não resolve o problema; apenas reduz o confronto direto e escancara o esvaziamento do sentido avaliativo. O vírus, sem metáforas excessivas, forçou a educação a encarar sua própria contradição: ou repensa a autoridade como responsabilidade compartilhada e reconhecimento mútuo, ou continuará produzindo máscaras cada vez mais frágeis para um poder que já não convence. A reconfiguração está em curso; resta saber se teremos coragem de conduzi-la conscientemente — ou se seguiremos fingindo que tudo ainda funciona como antes.


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Olá! Como professor de sociologia, preparei cinco questões discursivas baseadas no meu texto acima. O foco aqui é estimular a reflexão crítica sobre as relações de poder, as instituições e as mudanças sociais provocadas pela tecnologia no ambiente escolar.


1. A Ilusão da Autoridade: O texto afirma que o professor é visto como o "guardião da sala de aula", mas que essa autoridade é, na verdade, uma "máscara mal ajustada". Explique, com base no texto, por que o autor considera que o poder real do professor é limitado em relação à coordenação escolar.

2. O Fingimento Institucional: O autor descreve uma "lógica do jogo" onde os alunos fingem que aprendem e ensinam o professor a fingir que ensina. Na sua visão, como esse "teatro" prejudica a função social da escola e a formação do indivíduo?

3. Vigilância e Controle: O texto menciona uma "vigilância difusa, quase foucaultiana". Utilizando o conceito de controle social, explique como a "CPI permanente" (boatos, queixas e interpretações enviesadas) afeta o comportamento e a liberdade do docente no exercício de sua profissão.

4. O Impacto do Digital: Segundo o texto, a virtualização das aulas causou uma "ruptura no regime de presença". De que maneira o ambiente digital alterou os conflitos de proximidade física e a suspeita moral que pairava sobre a relação entre professores e alunos menores?

5. Crise e Reconfiguração: O autor conclui que a crise sanitária expôs a falência de um modelo de autoridade baseado apenas no controle físico. O que o texto sugere como alternativa para que a educação não continue produzindo "máscaras frágeis"?

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