A EDUCAÇÃO É "IMBIRA": O Simulacro da Aprovação entre o “Velho” e o “Novo Normal” ("Se queres ser cego, sê-lo-ás." — José Saramago)
Por Claudeci Ferreira de Andrade
Aprendi cedo que a prova, na escola, raramente media o que o aluno sabia — media, antes, o que o sistema precisava afirmar. No chamado “Velho Normal”, a lógica era simples e paradoxal: ninguém podia ficar para trás, desde que avançasse no papel. Ao atribuir uma nota baixa, surgiam relatórios, atividades compensatórias, refações e anexos — uma pequena procissão burocrática cujo objetivo não era recuperar o aprendizado, mas preservar a estatística. Chamavam isso de dependência curricular; na prática, era dependência da aparência.
A reprovação deixava de ser diagnóstico pedagógico para se tornar erro administrativo. Não do aluno. Nem do processo. Do professor. Como se ensinar fosse um ato de fé; e aprender, mera formalidade.
Com o tempo percebi que cada educador reage de modo distinto a esse teatro. Alguns se tranquilizam nos números — a matemática da aprovação funciona como anestesia moral. Outros, como eu, permanecem desconfortáveis. Porque o “Novo Normal”, embora vestido de metodologias ativas e linguagem inclusiva, conserva o mesmo altar: a estatística como prova de virtude institucional. Mudaram os termos, não o sentido. Já não se mascara o fracasso — administra-se a narrativa.
Foi então que compreendi: meu incômodo não era apenas emocional, era lógico. Se todos aprendem oficialmente, mas poucos aprendem concretamente, não há avanço pedagógico, e sim um pacto silencioso — a escola finge ensinar, o sistema finge avaliar e a sociedade finge acreditar.
A literatura às vezes nomeia esse mal-estar, não como licença para insultar, mas como espelho do limite humano diante do absurdo. Quando leio o desabafo de Mário Quintana — "Não tenho vergonha de dizer que estou triste, Não dessa tristeza ignominiosa dos que, em vez de se matarem, fazem poemas: Estou triste por que vocês são burros e feios e não morrem nunca..." — não vejo um ataque literal às pessoas, mas a explosão de um espírito diante da repetição da mediocridade institucionalizada. O poeta não agride indivíduos; protesta contra a permanência do erro quando ele já se tornou evidente demais para ser inocente.
Meu desalento nasce do mesmo ponto: não da incapacidade do aluno, mas da nossa habilidade coletiva de tornar irrelevante o próprio aprender. Ainda assim, desistir seria confortável — e, por isso mesmo, impróprio. O sistema educacional não precisa de heróis indignados nem de técnicos resignados; precisa de pequenas desobediências conscientes: avaliar com honestidade, registrar com clareza, conversar com o aluno antes de negociar com a planilha, explicar à família o que o número não explica, inserir realidade na engrenagem. Não resolve décadas de distorções, mas abre uma fresta.
Talvez desatar os “nós cegos” comece assim: alguém, em meio à rotina, decide que a aprendizagem vale mais do que sua aparência — decisão quase invisível, porém pedagógica no sentido mais antigo da palavra: conduzir para fora da caverna estatística.
Se estas linhas chegam até você, já não escrevo sozinho. Toda leitura honesta rompe um pouco o pacto do faz-de-conta. E talvez seja disso que a escola precise primeiro: menos soluções grandiosas e mais testemunhas lúcidas.
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Olá! Como seu professor de Sociologia, fico muito satisfeito em trabalhar com um texto que toca em uma das questões mais sensíveis da nossa área: a relação entre instituições e indivíduos. O texto apresenta uma crítica contundente à "coisificação" do ensino, onde o número (estatística) acaba valendo mais do que o processo humano (aprendizagem). Para nossa aula, preparei 5 questões discursivas simples que conectam o texto aos conceitos sociológicos de burocracia, controle social e ética.
1. A Burocracia e a Estatística
O autor afirma que o objetivo das atividades compensatórias muitas vezes não é recuperar o aprendizado, mas "preservar a estatística". Do ponto de vista sociológico, por que as instituições modernas (como a escola ou o governo) tendem a valorizar tanto os números e os relatórios em vez dos processos reais?
2. O "Pacto do Faz-de-Conta"
O texto menciona um "pacto silencioso" onde a escola finge ensinar, o sistema finge avaliar e a sociedade finge acreditar. Explique como esse comportamento coletivo pode ser considerado uma forma de manutenção da ordem social, mesmo que não gere resultados concretos na educação.
3. O "Novo Normal" vs. O Sentido da Educação
Segundo o texto, o "Novo Normal" usa metodologias modernas, mas mantém o foco na "estatística como prova de virtude". Como o uso de uma linguagem "nova" pode ser usado para "administrar a narrativa" e esconder problemas antigos de uma instituição?
4. A Função Social do Professor
O autor sugere que a solução não é a revolução grandiosa, mas "pequenas desobediências conscientes", como conversar com o aluno antes de negociar com a planilha. Qual é a importância ética do professor agir como uma "testemunha lúcida" dentro de um sistema burocrático?
5. A Caverna Estatística
Fazendo uma alusão ao Mito da Caverna de Platão, o autor fala em "conduzir para fora da caverna estatística". Na sua opinião, o que representa a "luz" (o conhecimento real) fora das sombras dos números e boletins que o sistema apresenta?
Dica do Professor para a Resposta
Lembre-se: Ao responder, não foque apenas em "quem é o culpado". Tente pensar na escola como uma instituição social que sofre pressões de todos os lados (governo, pais, mercado). O texto sugere que a verdadeira educação acontece no encontro humano, e não no preenchimento de formulários.


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