O Admirável Mundo Novo da Educação: Entre Nuvens e Joysticks ("Para iludir minha desgraça, estudo. Intimamente sei que não me iludo". — Augusto dos Anjos))
Por Claudeci Ferreira de Andrade
Houve um tempo — não tão distante — em que o ensino a distância era tratado como o primo pobre da educação: um conjunto de “correspondências” enviadas pelo correio e desacreditadas antes mesmo de serem abertas. Faltava-lhe a internet, essa entidade redentora que, segundo nos prometeram, resolveria o problema da ausência com a presença luminosa das telas. Hoje, garantem-nos, tudo é confiável. Tão confiável que já não se fala em ensino “a distância”: fala-se em imersão, em conexão, em onipresença digital capaz de dissolver fronteiras — e, de quebra, silenciar vazios.
Nesse admirável mundo novo — expressão que tomo de empréstimo de Admirável Mundo Novo — o professor passou a viver em simbiose com cabos invisíveis. Participa de reuniões síncronas, elabora planejamentos on-line, organiza portfólios em PowerPoint como quem monta vitrines pedagógicas. Planilhas de Excel, diários no Gemul, registros no Siap: tudo repousa nas nuvens, esse céu administrativo onde a burocracia ganhou asas e paira sobre nossas cabeças com leveza opressiva.
As demandas da Secretaria de Educação deixaram de ser meras exigências e assumiram ares de disputa estratégica, digna de Game of Thrones. Cada formulário é uma batalha; cada prazo, um cerco; cada atualização de sistema, uma nova dinastia que se impõe. Entre aulas síncronas e assíncronas, celebra-se o “milagre” pedagógico: decretou-se, com entusiasmo estatístico, o desaparecimento dos alunos que chegam ao 7º ano sem saber ler ou escrever o próprio nome. Agora, todos são “protagonistas e participativos”. A realidade, porém, essa velha indisciplinada, insiste em não caber nos relatórios.
Oxalá a ironia não seja pecado, pois, após tantos anos de magistério, seria trágico que o inferno me aguardasse apenas por desconfiar dos paraísos digitais.
Então veio a pandemia e, com ela, o estudo “a distância” compulsório. Apostaram-se todas as fichas na salvação tecnológica. Em nome da saúde — e sob o comando magistral dos joysticks — reinventou-se a escola sem que ninguém precisasse sair de casa. Que viesse, enfim, a ordem e o progresso em versão Wi-Fi. Se este é o ápice da eficiência, que se preserve o modelo; pede-se apenas, com modéstia, que o professor não adoeça.
No virtualismo, a ausência tornou-se quase um ato de rebeldia. Se o corpo cede, envia-se o atestado pelo WhatsApp — prático, asséptico, instantâneo. Se não houver forças para atravessar a rua até o consultório, recorre-se à consulta pelo Zoom: febre em alta definição, tosse com boa conexão. Enquanto isso, do conforto do lar, a diretora registra a frequência e envia seus lamentos por mensagem de voz, num timbre que oscila entre solidariedade e protocolo.
Entre nuvens e joysticks, a educação continua a proclamar sua modernidade. E nós, professores — seres analógicos em constante atualização — aprendemos, a cada clique, que o futuro já se instalou. Resta saber se, em meio a tanta conexão, ainda haverá espaço para aquilo que nenhuma plataforma hospeda: o encontro humano que, silencioso e imperfeito, sempre foi o verdadeiro “milagre” pedagógico.
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Olá! Como professor de sociologia, preparei estas 5 questões discursivas baseadas no texto, focando em temas como a precarização do trabalho docente, a burocratização digital e a desumanização das relações no ambiente escolar.
1 A Burocracia nas "Nuvens": O texto menciona que a burocracia ganhou "leveza opressiva" ao migrar para os sistemas digitais (Gemul, Siap, nuvem). De que maneira a digitalização do trabalho pedagógico pode, contraditoriamente, aumentar a carga de trabalho do professor em vez de simplificá-la?
2 O "Aluno Protagonista" vs. Realidade: O autor ironiza o fato de que, nos relatórios e estatísticas, não existem mais alunos com dificuldades básicas de leitura no 7º ano, sendo todos chamados de "protagonistas". Sociologicamente, qual é o risco de mascarar as desigualdades educacionais através de termos pedagógicos "modernos" e métricas puramente digitais?
3 Vigilância e Controle no "Virtualismo": O texto descreve a facilidade de enviar atestados por WhatsApp e fazer consultas por Zoom, ressaltando que a ausência se tornou "quase um ato de rebeldia". Como as novas tecnologias de comunicação alteraram a fronteira entre a vida privada e a vida profissional do professor?
4 A Metáfora do "Game of Thrones" na Educação: Ao comparar as demandas da Secretaria de Educação a uma "disputa estratégica" e "batalhas", o autor sugere uma mudança na gestão escolar. Como essa visão de "gestão por resultados" e "metas" pode afetar a autonomia pedagógica do docente?
5 O "Milagre" do Encontro Humano: Na conclusão, o texto afirma que o verdadeiro milagre pedagógico é o "encontro humano", algo que nenhuma plataforma hospeda. Considerando a sociologia das interações, por que a presença física e o contato direto são fundamentais para o processo de socialização e aprendizado, para além da simples transmissão de conteúdos via Wi-Fi?
Dica Pedagógica: Estas questões são excelentes para estimular o pensamento crítico dos estudantes sobre o papel da tecnologia na sociedade contemporânea e como ela molda as instituições das quais eles fazem parte.
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