O AMOR VENCEU: O Magistério da Piedade ("O Homem perde o poder, quando é contaminado pelo sentimento de piedade." — Friedrich Nietzsche)
Por Claudeci Ferreira de Andrade
Há dias em que a escola parece menos um lugar de aprendizagem e mais um espaço de compensação moral. Professores exaustos, metas suavizadas e o rigor intelectual progressivamente substituído por um cuidado difuso — não o cuidado pedagógico que orienta, mas o que evita conflito. No chamado “novo normal”, o ideal do educador parece ter sido discretamente redefinido: ensinar tornou-se, antes de tudo, compreender.
A frequência passou a valer mais que a compreensão. Em ambientes híbridos ou remotos, percorrer links equivale à presença; estar conectado aproxima-se perigosamente de aprender. O gesto pedagógico, antes centrado no encontro, dissolve-se em registros automáticos. Aprende-se menos conteúdo e mais sobre como comprovar participação.
Surge então o dilema: se o estudante mantém atividade virtual constante, mas não realiza as tarefas propostas, deve avançar? Na prática, quase sempre avança. Justificar uma reprovação tornou-se um percurso burocrático tão sinuoso que se prefere a aprovação preventiva — às vezes chamada de acolhimento, às vezes, nos corredores, de “puro amor”. O rastro digital passa a funcionar como certificado implícito de mérito.
Nem todo caso, porém, se reduz à conveniência. Há estudantes genuinamente prejudicados por condições que escapam à tela: acesso precário, ambientes domésticos instáveis, responsabilidades antecipadas. O problema não está em reconhecer essas realidades, mas em transformá-las em regra e, assim, dissolver qualquer critério comum. Quando tudo é justificável, nada é avaliável.
O ensino remoto também revelou outro limite: o controle pedagógico é, em grande parte, ficção técnica. No espaço virtual proliferam ausências silenciosas, substituídas por justificativas frágeis. A aprendizagem torna-se difícil de verificar, mas a validação institucional permanece obrigatória — e imediata.
Ao desgaste pedagógico soma-se o administrativo. Em um agosto pandêmico, muitos docentes estaduais receberam pagamentos incorretos. Pequeno detalhe contábil, dir-se-ia, não fosse recorrente a direção do erro: raramente favorece quem ensina. O contracheque de quem falha permanece intacto; o prejuízo recai sobre quem sustenta a rotina.
Pergunto-me, então, qual o alcance dessa piedade institucionalizada. Talvez tenha surgido como proteção em tempos excepcionais; tornou-se, porém, método permanente. Exige-se do professor uma resiliência quase devocional — compreender sempre, corrigir pouco, questionar raramente — amar o sistema que não o ampara.
A escola continua sendo escola, mas seu silêncio administrativo fala alto. Entre o faz de conta pedagógico e o holerite impreciso, aprende-se uma lição involuntária: quando a realidade precisa ser suavizada para funcionar, o primeiro conteúdo sacrificado costuma ser a verdade.
-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/
Olá! Como seu professor de Sociologia, fico feliz em mostrar-lhe esse texto. Ele toca em feridas abertas da nossa área: a precarização do trabalho docente, a burocratização do ensino e a função social da escola em tempos de crise. O texto nos convida a pensar se a escola está formando cidadãos críticos ou apenas gerenciando números para o sistema. Preparei 5 questões discursivas focadas na análise sociológica desse cenário para o Ensino Médio:
1. A Racionalização e o "Faz de Conta" Pedagógico
O texto afirma que "estar conectado aproxima-se perigosamente de aprender". Do ponto de vista sociológico, como a preocupação excessiva com registros automáticos e links acessados (metas quantitativas) pode prejudicar a qualidade real do ensino (objetivo qualitativo)?
2. A Escola como Instituição de Controle e Cuidado
O autor diferencia o "cuidado pedagógico que orienta" do cuidado que apenas "evita conflito". Explique, com base no texto, como a escola pode acabar funcionando mais como um espaço de "compensação moral" do que como um local de produção de conhecimento.
3. Precarização do Trabalho Docente
O texto menciona erros recorrentes nos pagamentos dos professores e uma exigência de "resiliência quase devocional". Como a falha administrativa no holerite, somada à sobrecarga emocional, exemplifica o processo de precarização do trabalho no magistério?
4. A Meritocracia em Questão
O autor discute que, quando "tudo é justificável, nada é avaliável". Como as desigualdades sociais (acesso precário à internet, instabilidade doméstica) desafiam a ideia de meritocracia dentro de um sistema de ensino remoto ou híbrido?
5. A "Piedade Institucionalizada" e a Realidade Social
O texto termina dizendo que "o primeiro conteúdo sacrificado costuma ser a verdade". Na sua visão, qual é o risco para a sociedade quando o sistema educacional prioriza a "aprovação preventiva" e as estatísticas bonitas em vez de encarar os problemas reais de aprendizagem dos jovens?
Dica do Professor
Dica para a resposta: Procure conectar o texto com o conceito de Anomia (quando as regras perdem o sentido) ou com a ideia de Burocracia de Max Weber, onde o cumprimento de papéis e normas (o rastro digital) às vezes se torna mais importante do que a finalidade real da instituição (educar).


Nenhum comentário:
Postar um comentário