O GADO NÃO SE ENGANA... AS CIÊNCIAS, SIM: Entre Trilhas e Abismos ("Que a gente se divirta sem se matar, que ame sem se contaminar, que aprenda sem se enganar, que viva sem se vender." — Lya Luft)
Por Claudeci Ferreira de Andrade
No chamado “Velho Normal”, a escola orbitava em torno do pragmatismo das notas e dos “projetinhos” que, sob o verniz da criatividade, garantiam mais aprovação do que aprendizagem. O “PIA”, anunciado como promessa de integração e protagonismo, frequentemente já nascia esvaziado, amparado por relatórios que apenas cumpriam protocolo. Em teoria, o trabalho por projetos aproximaria o estudante de sua realidade; na prática das trilhas do Novo Ensino Médio, transformou-se em coreografia pedagógica — muito movimento, pouca substância.
Há, é verdade, um lastro teórico nessas reformas. Paulo Freire sustentou que “ninguém educa ninguém, os homens se educam em comunhão”, princípio que inspirou metodologias ativas e a Aprendizagem Baseada em Projetos (ABP) como reação ao ensino bancário. O impasse, contudo, não reside na intenção emancipadora, mas na implementação apressada em estruturas frágeis. Quando faltam recursos, formação consistente e tempo pedagógico, a proposta converte-se em sobrecarga: o planejamento se dilata, o conteúdo se comprime e a avaliação perde nitidez. Celebra-se o produto; esvazia-se o processo.
Robótica, STEAM, podcasts — termos que reluzem como slogans — ocupam o centro do discurso. Entretanto, nomenclaturas atraentes não substituem fundamentos sólidos. A interdisciplinaridade exige coesão curricular; sem ela, degenera em dispersão. O saldo é um simulacro eficiente em aparência: relatórios se acumulam, planilhas se multiplicam, mas a leitura, a escrita e o cálculo permanecem frágeis.
Resta, então, a indagação inevitável: que Novo Ensino Médio é este? A escola pública, já vulnerável, não se robustece com trilhas improvisadas. O perigo não está em inovar, mas em fazê-lo sem sustentação. Entre o ideal libertador e a engrenagem burocrática abre-se um abismo — e é nele que, silenciosamente, se esvai a qualidade que afirmamos proteger.
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Olá! Como seu professor de Sociologia, elaborei estas 5 questões discursivas para pensarmos criticamente sobre como as mudanças na educação afetam a sociedade e o trabalho docente. O foco aqui é entender a diferença entre o que está no papel (teoria) e o que acontece no chão da escola (prática).
1. O Verniz da Aprovação vs. Aprendizagem
O texto afirma que, no "Velho Normal", os projetos serviam como um "verniz" para garantir a aprovação dos alunos. Sociologicamente, qual é o impacto de priorizar a estatística de aprovação em detrimento do aprendizado real para o futuro desses jovens na estrutura social brasileira?
2. A Intenção de Paulo Freire e a Realidade
O autor menciona a ideia de Paulo Freire sobre a "educação em comunhão" para justificar o trabalho por projetos. No entanto, o texto aponta que, sem recursos, essa proposta vira apenas "sobrecarga". Como a falta de infraestrutura nas escolas públicas pode transformar uma teoria libertadora em uma nova forma de exclusão?
3. A Coreografia Pedagógica e o Novo Ensino Médio
O texto utiliza a metáfora de "coreografia pedagógica" para descrever o Novo Ensino Médio: muito movimento, mas pouca substância. Explique por que a multiplicação de termos modernos (como trilhas, STEAM e podcasts) nem sempre resulta em uma melhoria na qualidade do ensino de base (leitura, escrita e cálculo).
4. A Burocracia como Simulacro
Segundo o texto, relatórios e planilhas se acumulam, criando um "simulacro" (uma aparência) de eficiência. De que maneira o excesso de burocracia digital e administrativa pode afastar o professor de sua função principal, que é a mediação do conhecimento em sala de aula?
5. O Abismo entre o Ideal e o Real
O autor conclui que existe um "abismo" entre o ideal libertador e a engrenagem burocrática. Pensando na Sociologia da Educação, quem são os grupos sociais mais prejudicados quando uma reforma escolar é implementada de forma "apressada em estruturas frágeis"? Justifique sua resposta.
Sugestão de Atividade:
Que tal escolhermos um dos conceitos citados (como o "STEAM" ou as "Trilhas") para pesquisarmos como eles funcionam na teoria e como estão sendo aplicados na nossa escola?


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