O Contraste entre Dois Mundos: Do Velho ao Novo Normal ("Quando o ensino se torna consumo e o mestre um produto, a educação deixa de iluminar o caminho para tornar-se apenas parte da escuridão." > — Inspirado em Zygmunt Bauman (Sobre a Modernidade Líqui)
Por Claudeci Ferreira de Andrade
Houve um tempo em que trabalhar na educação era menos profissão e mais trincheira. Direitos não vinham por calendário, vinham por desgaste — como quem cava água no concreto. Cumpríamos horários, preparávamos aulas, corrigíamos provas, mas nada bastava. A dignidade era negociada em assembleias, e o giz terminava sempre antes da paciência.
As greves não eram escolha; eram sintoma de uma engrenagem emperrada por gestões que envelheciam no cargo sem amadurecer na função. Do lado de fora, a sociedade nos olhava com cansaço, como se fôssemos culpados pela febre do próprio sistema. Perdíamos aula, prestígio, saúde — e, pouco a pouco, também o sentido do ofício.
Então veio o chamado novo normal. Prometeram modernidade, mas chegou uma troca silenciosa de lugares: a sala virou janela, o quadro virou tela, e a autoridade virou opinião. Bastou um vídeo escolhido para ensinar e surgiu a sentença doméstica: — Não poderia ter escolhido um vídeo melhor? Não era apenas pergunta; era sintoma de época.
O professor, antes responsabilizado por tudo, passou a ser autorizado por qualquer um. A pedagogia ficou dependente da aprovação imediata do espectador. Ensinar deixou de conduzir para agradar. O aluno tornou-se cliente, a família avaliadora, e o conhecimento virou conteúdo — desses que se abandona após poucos segundos se não seduz. Chamaram isso de humanização. Talvez fosse dissolução.
Repetiam-se slogans conciliatórios enquanto algo mais profundo se desfazia: não o respeito à pessoa, mas ao papel. E quando o papel desaparece, a pessoa não se liberta — fica exposta. Foi então que percebi: o problema não era tecnológico, geracional ou metodológico. Era moral.
Toda sociedade educa aquilo que decide tolerar. Se tolera a inversão permanente de responsabilidade, forma adultos incapazes de assumir consequências. Se tolera o desprezo pela autoridade legítima, forma indivíduos que obedecerão apenas ao medo. Se tolera o cansaço como método administrativo, forma profissionais que sobrevivem, mas não ensinam.
O efeito não é imediato; é cumulativo. Primeiro morre a vocação, depois a aprendizagem e, por fim, a própria ideia de verdade compartilhada. É isso que chamo de apagão: não a ausência de escolas, mas de referência. A luz permanece acesa, porém ninguém sabe mais para onde caminhar.
E quem acelera esse desgaste também se consome nele. Há gestores que pressionam até a exaustão acreditando gerar eficiência, quando apenas multiplicam afastamentos, licenças e desistências. Tentam encurtar o caminho do outro e abreviam o próprio futuro. A violência nem sempre grita; às vezes agenda reuniões.
Nesse ponto, a reflexão deixa de ser pedagógica e torna-se humana. A educação é apenas o primeiro lugar onde uma cultura revela o que fará em maior escala. Quando a vida interior perde valor, a exterior torna-se negociável.
A antiga sabedoria já advertia sobre o preço de tratar a existência como instrumento: quem banaliza o desgaste do outro aprende, cedo ou tarde, a banalizar a própria continuidade. Talvez a resistência não esteja em novas plataformas nem em novas greves, mas em algo mais simples — e mais difícil: restaurar limites, devolver nomes às funções e lembrar que ensinar não é entretenimento, e aprender não é consumo. Porque uma sociedade não colapsa quando faltam recursos. Colapsa quando já não sabe por que deve preservá-los.
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Como professor de sociologia, preparei cinco questões discursivas que exploram as camadas sociais, éticas e estruturais presentes no meu texto. Elas foram elaboradas para estimular o pensamento crítico dos alunos sobre o papel da educação e as mudanças nas relações de autoridade na contemporaneidade.
1 A Crise da Autoridade Docente: O texto afirma que, no "novo normal", a autoridade do professor transformou-se em "opinião" e a pedagogia passou a depender da aprovação do "espectador". Do ponto de vista sociológico, como a transformação do aluno em "cliente" e do conhecimento em "consumo" afeta a função social da escola?
2 A Instituição como Trincheira: O autor descreve o trabalho na educação como uma "trincheira" onde direitos são conquistados pelo desgaste e greves. Explique como a precariedade das condições de trabalho e a burocratização das gestões podem interferir na construção da identidade profissional do professor.
3 Educação e Moralidade Social: Segundo o texto, "toda sociedade educa aquilo que decide tolerar". Relacione essa frase com a ideia de que a educação é um reflexo dos valores de uma cultura. O que uma sociedade revela sobre si mesma quando tolera a inversão de responsabilidades e o desprezo pela autoridade legítima?
4 O Fenômeno do "Apagão de Referência": O autor define o "apagão" não como a ausência de escolas, mas como a falta de referência e de uma "verdade compartilhada". Quais são as possíveis consequências para a vida em sociedade quando as instituições de ensino perdem seu papel de mediadoras do conhecimento e de valores comuns?
5 O Desgaste Humano e a Eficiência: O texto menciona que gestores que pressionam até a exaustão "multiplicam afastamentos" e "abreviam o próprio futuro". Discuta como a lógica da produtividade desenfreada e a "violência silenciosa" nas relações de trabalho impactam a saúde mental dos profissionais e a qualidade do sistema educacional.
Dica Pedagógica: Estas questões podem ser utilizadas para um debate em sala de aula ou como uma avaliação escrita, permitindo que os alunos conectem a teoria sociológica (como os conceitos de instituições sociais de Durkheim ou a racionalidade burocrática de Weber) com a realidade cotidiana descrita no texto. Boa aula!


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