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MINHAS PÉROLAS

sábado, 4 de fevereiro de 2023

POBRE VENDE SUA COMIDA: Reflexões sobre o Esgotamento e a Hipocrisia Ambiental. ("O homem que se vende recebe sempre mais do que vale." — Barão de Itararé)

 


POBRE VENDE SUA COMIDA: Reflexões sobre o Esgotamento e a Hipocrisia Ambiental. ("O homem que se vende recebe sempre mais do que vale." — Barão de Itararé)

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Há uma incoerência estrutural no discurso ambiental contemporâneo. Proclama-se a preservação com a mesma naturalidade com que se inaugura um condomínio sobre o que ontem era mata. A lógica do acúmulo — esse deus invisível — permanece intocável. Nenhuma política de conservação se sustenta quando o sistema empurra o pobre a vender a própria subsistência para manter o excesso de quem já vive além do necessário. Perdemos o senso de medida: extraímos como se a fonte fosse inesgotável e esquecemos que toda retirada exige reposição.

Convém, porém, recusar tanto o alarmismo apressado quanto a ingenuidade conveniente. A Terra não é frágil como sugerem certos slogans, nem infinita como pressupõem os mercados. Projeções demográficas recentes indicam uma possível estabilização da população mundial próxima a 10 bilhões por volta de 2050 — contingente mais que suficiente para tensionar recursos, cidades e sistemas produtivos. A questão decisiva não é apenas quantos seremos, mas como viveremos e, sobretudo, quem continuará arcando com os custos ambientais do privilégio.

Nesse contexto, a retórica da “extinção” por vezes assume um tom teatral. Ao longo das eras, a natureza resistiu a impactos muito mais severos do que a presença humana. Reorganiza-se, recompõe ciclos, encontra novos equilíbrios. Essa constatação, entretanto, não nos absolve; apenas desloca a perspectiva. O planeta pode sobreviver sem a nossa civilização — nós é que talvez não resistamos às consequências de nossas próprias escolhas.

É nesse ponto que ecoa a frase de Chico Xavier: “...desilusão de agora será benção depois”. A citação não surge como fuga mística nem como ironia amarga, mas como metáfora. Toda crise desnuda excessos. A desilusão ambiental pode ser a dor necessária para desmontar o mito do crescimento ilimitado. Se houver alguma bênção, ela não virá por milagre, e sim pelo despertar da consciência.

Diante desse cenário, o debate exige maturidade. Quando se pergunta, em tom provocativo, se “a solução seria o extermínio?”, não se flerta com a barbárie; denuncia-se, precisamente, a perversidade dessa falsa alternativa. A história já evidenciou o destino trágico das soluções que desumanizam. O impasse não se resolve eliminando pessoas, mas revendo modelos de produção, consumo, distribuição e concentração de renda.

Ainda assim, muitos se abrigam em fórmulas prontas. “Sou pai de família trabalhador”, repetem, como se a retidão privada dispensasse a responsabilidade pública. Trabalhar não exime ninguém de refletir; produzir não substitui posicionar-se. Não há verdadeira diligência onde falta consciência do impacto coletivo. Em tempos de crise ambiental, a neutralidade é apenas uma forma polida de omissão.

Os sistemas naturais não funcionam em compartimentos isolados. Água, solo, florestas e atmosfera compõem uma engrenagem interdependente. A escassez hídrica compromete lavouras; o desmatamento reduz a umidade e altera o regime de chuvas; o desequilíbrio climático desestrutura cadeias alimentares. Não se trata de catastrofismo, mas de interconexão. A fome não começa no prato — começa na nascente.

O crescimento populacional intensifica o consumo, e o consumo molda mercados. Animais convertem-se em estatísticas proteicas, variando conforme a cultura: cavalos no Cazaquistão, cães em regiões da Ásia, bois e aves em escala industrial no Ocidente. A questão não é julgar hábitos alimentares, mas reconhecer o padrão: transformar vida em mercadoria para sustentar um modelo que exige expansão permanente.

E aí se revela a ironia maior. Enquanto houver oferta, os ricos continuarão comprando; a escassez atingirá primeiro quem já vive no limite. O pobre, seduzido pela promessa de ascensão pelo acúmulo, muitas vezes reproduz o ideal que o aprisiona. Corre atrás do capital como se fosse alimento, esquecendo que dinheiro não se mastiga, não purifica a água, não produz o ar.

No fim, talvez a hipocrisia mais profunda não esteja apenas nos governos ou nas corporações, mas na crença coletiva de que é possível crescer indefinidamente em um planeta finito. A Terra não exige nossa piedade; exige lucidez. E nós, mais do que discursos inflamados ou fatalismos estéreis, precisamos reaprender a medida — antes que a própria realidade a imponha, sem aviso e sem negociação.


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Como professor de sociologia, organizei estas cinco questões discursivas para ajudar você a refletir sobre os pontos centrais do texto. Elas focam na relação entre sociedade, economia e meio ambiente, fugindo do óbvio e estimulando o pensamento crítico.


1. A contradição do acúmulo:

O texto afirma que existe uma "incoerência estrutural" no discurso ambiental, onde se prega a preservação ao mesmo tempo em que se mantém a lógica do acúmulo. Explique, com base no texto, como a desigualdade social influencia a eficácia das políticas de conservação ambiental.

2. Responsabilidade Privada vs. Responsabilidade Pública:

Muitas pessoas utilizam a justificativa de serem "pais de família trabalhadores" para se isentarem de questões coletivas. Segundo o autor, por que o trabalho ou a retidão na vida privada não eximem o indivíduo da responsabilidade pública e ambiental?

3. O mito do crescimento ilimitado:

O texto menciona que a "desilusão ambiental" pode ser necessária para desmontar o mito do crescimento ilimitado. Do ponto de vista sociológico, qual é o perigo de acreditar que podemos crescer infinitamente em um planeta com recursos finitos?

4. A mercantilização da vida:

O autor discute como animais e recursos naturais são transformados em "estatísticas proteicas" e "mercadorias" para sustentar o mercado. Como essa visão de mundo impacta a nossa relação com a natureza e com o que consumimos?

5. A ironia da escassez:

Ao final, o texto argumenta que o dinheiro não substitui elementos vitais como a água e o ar. Explique a ironia apresentada pelo autor sobre como ricos e pobres lidam com a escassez de recursos e a busca pelo capital.

Dica do professor: Ao responder, tente não apenas copiar trechos do texto. Use suas próprias palavras para conectar as ideias do autor com a realidade que você observa ao seu redor. Bom estudo!

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