O dia em que a teoria pediu presença: Reflexões sobre o Ofício e o Outro ("Ao tentar corrigir um erro, eu cometia outro. Sou uma culpada inocente".— Clarice Lispector )
Por Claudeci Ferreira de Andrade
Recordo com nitidez aquela coordenadora pedagógica. Dominava o ofício de prescrever: orientava metodologias, cronometrava atividades, afinava até o tom de voz recomendado ao professor. Em sua boca, a pedagogia era ciência exata.
Mas bastava faltar um docente para surgir a parte invisível do currículo — o medo. Sala de aula? “Deus me livre.”
Nesses dias, nenhuma teoria sobrevivia à porta aberta e aos trinta rostos aguardando. A solução era “subir” as aulas do ausente, redistribuir o fardo entre os presentes e chamar de organização aquilo que era apenas deslocamento do problema. Nunca soube se era punição ao faltoso ou advertência aos pontuais; talvez apenas a velha crença institucional de que a responsabilidade cabe melhor no ombro de quem não protesta.
Aprendi ali uma regra silenciosa: na escola, o discurso costuma substituir a prática sempre que a prática exige coragem.
Não exerço cargo de coordenação, mas vigio a mim mesmo. Evito acumular tarefas não por preguiça, e sim por prudência — o excesso é matéria-prima da culpa futura. Quando tudo dá errado, o erro precisa de dono, e quase sempre pertence ao mais disponível.
Por isso tento lembrar — com disciplina irregular — do ensinamento do Dalai Lama: a raiva não vence a raiva; multiplica-a. A ideia me atrai; nem sempre me obedece.
Existe uma distância desconfortável entre compreender e conseguir. Epicteto diria que não me perturbam os fatos, mas o juízo que faço deles; Marco Aurélio recomendaria ver o agressor como alguém ignorante do bem. Concordo com ambos… até que alguém confunda negligência com virtude administrativa. Nesses momentos, o estoico em mim pede silêncio, enquanto o cidadão pede resposta. Descubro então que a serenidade também pode tornar-se cumplicidade quando protege apenas quem erra com autoridade.
Assim permaneço: tentando falar sem ferir e, às vezes, falhando nos dois objetivos.
Ainda não superei completamente a vaidade. Quero que minha técnica baste, mas o mundo exige performance. Ensinar, hoje, não é apenas saber — é convencer quem decidiu não querer saber. É vender água em meio à chuva. Falta-me carisma comercial; sobra-me uma insistência quase teimosa.
Prefiro, portanto, cuidar do conteúdo da palavra antes de disputar o volume da voz. Não sou um homem mau; sou, quando muito, um equívoco em revisão permanente.
Mas aprendi algo com aquela coordenadora: o perigo raramente está em quem erra tentando fazer, e sim em quem se abriga na teoria para nunca precisar fazer nada. O primeiro pode falhar. O segundo organiza a falha alheia.
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Como professor de Sociologia, construi este texto sob uma perspectiva que conecta as vivências escolares com conceitos fundamentais da nossa disciplina, como as relações de poder, a burocracia, a ética e o papel das instituições. Aqui estão cinco questões discursivas para refletirmos sobre esses temas:
1 A Burocracia e o "Fazer": O texto menciona uma coordenadora que domina a teoria e a prescrição, mas evita a prática da sala de aula. Com base no conceito de burocracia de Max Weber, como a especialização de funções em uma escola pode criar um distanciamento entre quem planeja e quem executa o trabalho pedagógico?
2 Relações de Poder e Trabalho: O autor afirma que a redistribuição de tarefas após uma falta é "chamar de organização aquilo que era apenas deslocamento do problema". Como essa dinâmica exemplifica o exercício do poder dentro das hierarquias escolares e de que forma ela pode gerar a precarização do trabalho docente?
3 Ética e Resistência: Ao citar que "a serenidade também pode tornar-se cumplicidade", o texto toca em um ponto sensível da vida em sociedade. Do ponto de vista da sociologia política, quando o silêncio de um indivíduo diante de uma injustiça institucional deixa de ser "virtude" e passa a ser manutenção do status quo?
4 A Mercantilização da Educação: O texto traz a metáfora de que ensinar hoje é "convencer quem decidiu não querer saber" e "vender água em meio à chuva". Como as transformações da sociedade de consumo e o modelo de "performance" impactam a relação entre professor e aluno na contemporaneidade?
5 A Teoria como Escudo: O desfecho do texto diferencia quem erra tentando fazer de quem se "abriga na teoria para nunca precisar fazer nada". Relacione essa afirmação com a ideia de "currículo oculto": quais são os aprendizados reais que os alunos e professores obtêm ao observar como as normas são (ou não) aplicadas pelos gestores na prática cotidiana?


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