ANTOLOGIA DE CRÔNICAS REFLEXIVAS À LUZ DA SÃ CONSCIÊNCIA — Crônica (8): A Minha Jornada de Libertação.
Por Claudeci Ferreira de Andrade
Saí numa manhã de sábado, sem avisar ninguém. Não teve discurso ensaiado, nem porteira batendo com aquele dramatismo de novela antiga. Foi só eu, a bolsa no ombro e a consciência pesando mais do que devia para alguém que, no fundo, estava apenas tentando fazer a coisa certa. Deixei para trás mais de vinte anos de bancos de madeira, hinos decorados na memória, envelopes entregues religiosamente em dia e uma coleção inteira de perguntas engolidas junto com o café depois do culto.
Mas, não deixei apenas um prédio. Deixei pessoas que eu amava — e talvez essa tenha sido a parte mais difícil. Só que, naquele instante, elas já não conseguiam me enxergar sem precisar me encaixar num rótulo. E o rótulo veio rápido, como sempre acontece quando um sistema se sente ameaçado pela liberdade de alguém: "antidenominacional". A palavra foi lançada como pedra de funda — certeira, fria, calculada para ferir o suficiente e provocar culpa bastante para me fazer voltar.
Mas, eu não voltei. E foi justamente do lado de fora que meus olhos finalmente aprenderam a enxergar o lado de dentro. Vi o controle que eu havia normalizado durante décadas. A roupa precisava ter o corte “correto”. A comida precisava seguir a lista “aceitável”. Havia dias carimbados como santos e outros tratados quase como suspeitos. Vi agendas lotadas de reuniões que já não cabiam numa semana humana — compromissos demais para deixar espaço de menos: menos silêncio, menos reflexão, menos pensamento próprio. E, sinceramente, vi também o cansaço estampado nos rostos. Não um cansaço qualquer, mas aquele tipo perigoso de exaustão que muita gente aprende a chamar de devoção.
Foi aí que certas cenas começaram a me atravessar de outro jeito. Ainda me causa desconforto lembrar do dia em que um pastor transferiu uma congregação inteira para outra liderança — anciãos, diáconos, porteiros, irmãos simples — como quem negocia patrimônio. Tudo formalizado. Assinaturas. Valores. Planilhas invisíveis pairando sobre almas visíveis. O curral estava ali, escancarado diante dos meus olhos, embora a porteira continuasse fechada: gente transformada em número, em estatística religiosa, em patrimônio institucional. Sem nome. Sem rosto. Sem o brilho singular daquela imagem e semelhança de Deus que um dia os levou até ali.
Mercadoria. Foi essa a palavra que me veio ao peito — seca, dura e impossível de "desver". Lembro também de algo que Winn escreveu e que nunca mais saiu da minha cabeça: onde existe opressão, exigências sufocantes e submissão baseada no medo, o Espírito Santo simplesmente não permanece. A fé verdadeira não precisa esmagar para convencer. Não precisa vigiar para manter. Não precisa aprisionar para sobreviver. O que depende da força — seja física, emocional ou espiritual — já deixou de ser Reino há muito tempo. E quem viveu dentro de sistemas assim reconhece isso quase por instinto, sem precisar recorrer a tratados teológicos.
No fim das contas, ser chamado de "antidenominacional" acabou se tornando o maior elogio que já recebi naquele ambiente. Porque significava que eu havia saído do curral. E, pela primeira vez na vida, a porteira ficou aberta. Aberta para mim. Aberta para qualquer outro que, um dia, encontre coragem suficiente para atravessá-la também.
CiFA
— Claudeci Ferreira de Andrade, cidade de chegada para quem finalmente encontrou a saída.
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