ANTOLOGIA DE CRÔNICAS REFLEXIVAS À LUZ DA SÃ CONSCIÊNCIA — Crônica (6): Entre Fios e Voltas.
Por Claudeci Ferreira de Andrade
Ela entrou pela primeira vez num domingo de chuva miúda. Daquelas chuvas sem coragem de virar tempestade, mas insistentes o bastante para deixar tudo úmido — o chão, as roupas, os pensamentos. O cabelo vinha molhado, grudado no rosto, e os olhos… ah, os olhos carregavam aquela fome silenciosa de quem perdeu alguma coisa importante, embora ainda não consiga dar nome ao vazio.
Sentou-se na última fileira. Pouco tempo depois, já estava na primeira. Eu acompanhei essa transformação ao longo dos meses. Não com admiração, como muita gente fazia, mas com uma inquietação difícil de explicar. Era aquele desconforto que a gente sente quando reconhece o desenho de uma armadilha antes mesmo de enxergar o gatilho. O grupo era simpático, caloroso, eficiente no acolhimento. Abraços demorados, palavras doces, promessas prontas para cada ferida. Tinham resposta para tudo.
E, sinceramente, é justamente aí que mora o perigo. Porque quem tem resposta para tudo normalmente já desistiu de procurar a verdade faz tempo. O que resta é só a tentativa de vender uma versão dela. Em poucas semanas, começaram os cortes. Primeiro, a irmã virou “energia negativa”. Depois, o emprego passou a ser chamado de “ambiente de pecado”. Mais tarde veio o apartamento: “o grupo provê o necessário”. E assim, fio por fio, ela foi sendo desligada do mundo que existia antes deles. Tudo muito limpo. Muito espiritualizado. Cada ruptura embalada em versículo. Cada perda acompanhada de oração e sorriso no rosto.
O que mais me perturbava não era a rapidez daquilo tudo. Era a leveza. Ela parecia genuinamente feliz — ou, pelo menos, anestesiada o suficiente para confundir alívio com felicidade. Existe uma paz estranha em parar de pensar. Questionar cansa. Duvide de tudo por alguns anos e você entende o apelo que existe em entregar a própria consciência nas mãos de alguém que promete respostas definitivas.
A doutrina funcionava como sedativo: quanto menos ela sabia, menos sofria. Quanto mais obedecia, mais “ungida” se sentia. Era um sistema sofisticado na própria crueldade. Não prendia ninguém com correntes; prendia com pertencimento. Não ameaçava dizendo “se sair, será destruída”. Fazia pior: retirava o afeto de quem ousasse duvidar.
E o ser humano suporta muita coisa… menos a sensação de abandono. O mais assustador é que eu já vi esse roteiro acontecer vezes demais. Mudam os nomes das igrejas, mudam os slogans, mudam os púlpitos e os líderes. Mas, por dentro, a arquitetura é quase sempre a mesma: uma liderança incapaz de tolerar perguntas, uma doutrina frágil demais para sobreviver ao contexto e pessoas emocionalmente feridas sendo capturadas não exatamente pela fé — mas pela carência que a fé prometeu aliviar.
A ignorância bíblica, nesses ambientes, nunca é um acidente. É matéria-prima. Sistemas assim dependem dela para sobreviver, porque o texto completo — lido sem filtros, sem medo e sem tutor espiritual soprando interpretações prontas no ouvido — desmonta a narrativa. Sempre desmonta.
Voltei a encontrar aquela mulher dois anos depois. Demorei alguns segundos para reconhecê-la. Não era aparência. Não era roupa. Nem jeito de falar. Era outra coisa. Havia um apagamento no olhar, uma ausência difícil de explicar. Como uma casa ainda mobiliada, mas sem ninguém morando dentro.
Na hora, não consegui entender o que tinha mudado tanto. Só mais tarde percebi. Tinham arrancado dela a dúvida. E quando arrancam de alguém a capacidade de duvidar, quase sempre levam junto a capacidade de pensar, de escolher, de existir por inteiro. Porque a dúvida, ao contrário do que disseram para muita gente, não é inimiga da fé. Às vezes, é a última coisa que impede uma pessoa de desaparecer dentro dela.
CiFA
— Claudeci Ferreira de Andrade, cidade de refúgio para quem ainda tem perguntas e não tem medo delas.
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