ANTOLOGIA DE CRÔNICAS REFLEXIVAS À LUZ DA SÃ CONSCIÊNCIA — Crônica (3): Em Busca do Conhecimento Divino.
Lembro exatamente do dia em que percebi que meu pastor não havia lido o livro que estava citando. Era uma quarta-feira à noite. Sala pequena, ventilação ruim, cheiro de café velho misturado com páginas de Bíblia já gastas pelo uso. Sobre a mesa, a Escritura aberta; no púlpito improvisado, um homem falando com aquela autoridade confortável de quem passou muito tempo sem ser interrompido. Voz grave, pausas ensaiadas, olhar firme. Tudo parecia no lugar.
Até que ele misturou dois versículos de contextos completamente diferentes e apresentou aquilo como uma única verdade revelada. Olhei em volta. Ninguém estranhou. Ninguém franziu a testa. As canetas continuaram correndo nos cadernos como se o céu tivesse acabado de ditar algo incontestável. Eu permaneci quieto. Mas, sinceramente, alguma coisa dentro de mim levantou da cadeira naquele instante e começou a procurar respostas.
Foi nessa busca silenciosa que encontrei Oséias — não pela explicação de alguém, nem num sermão emocionado, mas sozinho, relendo devagar cada palavra: "O meu povo está sendo destruído, porque lhe falta o conhecimento" (Os 4:6). Li outra vez. Depois mais uma. E então a frase caiu dentro de mim como pedra em água funda.
Percebi que aquele texto não falava apenas sobre “o mundo lá fora”, como tantas vezes repetiam. Falava sobre nós. Sobre gente religiosa. Sobre ambientes onde o conhecimento é tratado como ameaça e o questionamento, como rebeldia. Falava também sobre sacerdotes que rejeitam o conhecimento — e, pior ainda, levam outros a rejeitá-lo junto com eles.
A ignorância religiosa quase nunca chega berrando. Ela chega sorrindo. Citando versículos decorados. Distribuindo microfone para quem concorda e retirando a palavra de quem ousa perguntar.
Com o tempo, aprendi que existe uma diferença brutal entre quem conhece as Escrituras e quem apenas sabe utilizá-las. Um busca compreender o texto dentro do contexto, da época, da intenção e do encadeamento das ideias. O outro recorta frases soltas como quem monta um cartaz de propaganda: aproveita o que serve, ignora o que incomoda e ergue uma doutrina sob medida para sustentar conveniências — ou cofres.
E é justamente aí que a coisa deixa de ser apenas teológica e começa a ficar perigosa. Há quem declare, sem hesitar, que "há somente um lugar para os dízimos do Senhor serem depositados: a tesouraria da igreja" — como se essa frase tivesse descido pronta do Sinai envolta em fumaça e trovão. Mas, não. Ela vem de um manual administrativo denominacional (Holbrook, 1988, p. 11).
Percebe a diferença? Não é Deus falando. É burocracia vestida de sagrado. E quando interesses humanos começam a usar a linguagem divina para se proteger, isso tem um nome bastante simples: manipulação. Paulo escreveu que aqueles que recebem o Espírito de Deus não dependem de palavras pomposas ou discursos enfeitados para discernir a verdade. Precisam, antes, de honestidade, discernimento e coragem para separar revelação de interesse pessoal (1 Co 2:12-13).
No fundo, é algo simples. Tão simples que assusta quem construiu poder em cima da confusão. E veja bem: não estou pedindo que você abandone sua fé. Muito pelo contrário. Estou dizendo para segurá-la com as próprias mãos. Ler. Perguntar. Comparar. Pensar. Buscar a verdade sem intermediários que cobram pedágio emocional para permitir acesso ao divino. Porque o conhecimento nunca foi o verdadeiro perigo. Perigoso mesmo é viver sem ele — especialmente quando alguém lucra com a sua falta.
CiFA
— Claudeci Ferreira de Andrade
"Cidade de descanso para quem cansou de engolir versículo picado sem contexto."
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