ANTOLOGIA DE CRÔNICAS REFLEXIVAS À LUZ DA SÃ CONSCIÊNCIA — Crônica (4): O Poder das Escolhas.
Por Claudeci Ferreira de Andrade
O artigo estava aberto sobre a mesa. As páginas já amareladas pelo tempo soltavam aquele cheiro de papel velho que parece carregar décadas de certezas engavetadas. O nome do autor aparecia ali, imponente, com a solenidade de quem talvez jamais tenha imaginado ser confrontado. Era colaborador frequente da Revista Adventista — desses homens respeitados nos corredores dos congressos, de paletó escuro, fala mansa e citações impecáveis. E, no entanto, havia algo naquelas linhas que me embrulhava o estômago.
Eu já tinha relido o texto três vezes. Ali, com fervor acadêmico e segurança quase litúrgica, ele defendia a ideia de que o fiel não possui o direito de decidir o que fazer com o próprio dízimo. Nenhum direito. Nenhuma exceção. Nem diante da fome, nem de uma emergência, nem quando o filho adoece e o dinheiro do remédio simplesmente não existe.
Para sustentar aquilo, ele recorria à autoridade de uma “prognosticadora” — palavra usada com uma reverência quase mística, como quem invoca um oráculo acima de qualquer contestação. E o oráculo dizia, sem rodeios: "Ninguém se sinta na liberdade de reter o dízimo, para empregá-lo segundo seu próprio juízo. Não devem servir-se dele numa emergência, nem usá-lo segundo lhes pareça justo, mesmo no que possam considerar como obra do Senhor..." (apud Holbrook, 1988, p. 11).
Fechei o artigo devagar. Fiquei olhando para a parede por alguns segundos, como quem tenta digerir algo indigesto. Mas, pensando bem, o que mais me perturbava nem era a citação em si. O problema estava na escolha de usá-la. No gesto deliberado de um homem instruído selecionar justamente esse fragmento, colocá-lo num pedestal e publicá-lo como verdade absoluta para milhares de leitores. Famílias inteiras. Viúvas apertadas pelas contas. Pais desempregados. Gente simples que, mesmo sem saber como fechar o mês, ainda colocava o envelope no bolso para entregar no sábado — não necessariamente por fé, mas pelo medo silencioso de ser julgada como infiel.
E é aí que o controle religioso revela sua face mais eficiente. Ele raramente grita. Não chega chutando portas. Não se apresenta como tirania. Pelo contrário: veste roupa social, usa termos sofisticados, cita autores em tom professoral e sorri com a tranquilidade de quem provavelmente nunca precisou escolher entre o dízimo e a farmácia.
Às vezes, me pergunto o que leva alguém a defender esse sistema com tanta convicção. Talvez seja comodidade. Talvez o medo da liberdade. Porque liberdade pesa. Ela exige consciência, discernimento, responsabilidade. Já a obediência cega oferece um alívio sedutor: terceirizar a própria consciência e chamar isso de fidelidade.
Infelizmente, eu já vi gente demais sendo esmagada por esse mecanismo. Conheci uma mulher que devolveu o dízimo no mesmo mês em que não tinha comida suficiente para os filhos jantarem. E não, aquilo não nasceu de uma fé madura e serena. Nasceu do terror. Do medo de ser vista como alguém “em falta” diante da igreja. Medo de olhares, comentários, suspeitas espirituais. Medo de decepcionar homens que aprenderam a confundir controle com devoção.
Isso não é liberdade. Uma escolha feita sob ameaça moral não é escolha; é condicionamento. É uma decisão fabricada, costurada com versículos arrancados do contexto e reforçada por líderes que, quase sempre, jamais precisaram enfrentar esse tipo de dilema na própria pele. No fim das contas, a pergunta mais importante nem é teológica. É humana. Quem está escolhendo por você? E, mais inquietante ainda: por que você permite?
CiFA
— Claudeci Ferreira de Andrade, cidade de repouso para quem cansou de ter a consciência administrada por terceiros.
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