ANTOLOGIA DE CRÔNICAS REFLEXIVAS À LUZ DA SÃ CONSCIÊNCIA — Crônica (7): Entre Denominações e Escolhas.
Comecei a investigar por acidente — como, aliás, acontecem quase todas as descobertas que realmente mudam a vida da gente. Era uma quinta-feira abafada, dessas em que o tempo parece andar arrastando os pés, quando encontrei numa estante esquecida um exemplar antigo de Zurcher. Capa desgastada, páginas vencidas pelo pó e aquele cheiro típico de biblioteca velha, mistura de papel envelhecido com silêncio acumulado. Zurcher era um teólogo adventista respeitado, voz grave, reputação sólida, desses homens citados com reverência em salas de aula e congressos religiosos.
Abri o livro sem intenção nenhuma, bem no meio, como quem abre uma janela ao acaso. E foi ali que tropecei numa frase que ficou ecoando dentro de mim por dias: "Esta é a razão da existência desta igreja — porque deveria ser diferente de outras corporações cristãs."
Deveria. Palavra pequena. Quase tímida. Mas, há palavras que pesam mais que prédios inteiros. Fechei o livro devagar e fiquei olhando ao redor, como se a própria sala tivesse mudado de lugar. Foi aí que o investigador que mora em mim despertou de novo — esse sujeito desconfiado que sempre estranha sorrisos excessivamente treinados e certezas prontas demais. Ele começou a comparar o deveria ser com o que, de fato, era.
E o que encontrou não foi um escândalo cinematográfico. Nada de sangue nas paredes ou conspirações dignas de manchete. Não. Era algo mais silencioso. Mais difícil de apontar. A distância quase invisível entre a promessa e o espelho.
Ao longo dos anos, visitei denominações diferentes. Não como turista espiritual colecionando experiências religiosas, mas como quem investiga padrões. Mudavam os nomes nas fachadas, os estilos musicais, os ternos dos líderes, os horários dos cultos, os slogans de evangelismo. Mas, certas engrenagens permaneciam assustadoramente iguais.
A autoridade raramente prestava contas. A doutrina quase nunca tolerava perguntas. E, cedo ou tarde, surgia sempre alguma versão do mesmo sussurro financeiro, embalado em linguagem celestial: — "Entregue seu tesouro e Deus multiplicará."
No começo, parece fé. Depois de um tempo, começa a parecer método. Lembro de um homem que conheci numa dessas igrejas. Trinta e dois anos dentro da mesma denominação. Homem sincero. Daqueles que sabem os hinos de memória, decoram textos bíblicos sem esforço e lembram o nome dos anciãos de distritos que já nem existem mais. Gente boa. Fé legítima. Mas, bastou começar a perguntar para onde estava indo o dinheiro arrecadado para a atmosfera mudar ao redor dele.
Não houve gritaria. Nenhuma expulsão pública. Instituições raramente funcionam assim quando querem preservar aparência de santidade. O que fizeram foi mais sofisticado: retiraram o calor humano. Os cumprimentos ficaram curtos. Os convites cessaram. Os olhares passaram a carregar distância. Ele virou uma presença inconveniente dentro do próprio lugar de fé.
E, às vezes, o isolamento dói mais do que a rejeição explícita. Numa manhã de sábado, ele simplesmente saiu. Sem discurso inflamado. Sem carta aberta. Sem escândalo. Só pegou a própria consciência pela mão e foi embora.
Muito tempo depois, percebi que aquela saída silenciosa carregava exatamente a urgência do texto bíblico: "Saiam dela, meu povo, não tomem parte nos seus pecados" (Ap 18:4 BV). Não era covardia. Era lucidez. A decisão de não emprestar mais o próprio nome, o próprio tempo e a própria fé a estruturas que haviam se tornado o contrário daquilo que prometeram ser.
No fim das contas, tudo acaba girando em torno de quatro coisas simples: tempo, tesouro, templo e talentos. Quatro palavras pequenas o bastante para caber numa linha — e grandes o bastante para consumir uma existência inteira. Talvez seja por isso que a pergunta mais importante continue sendo absurdamente simples: A quem, de fato, tudo isso está servindo?
A resposta ninguém pode entregar pronta. Cada pessoa precisa procurá-la sozinha, com honestidade brutal e coragem suficiente para suportar o que encontrar. Porque há verdades que libertam. Mas, antes disso, quase sempre desmontam a casa inteira por dentro.
CiFA
— Claudeci Ferreira de Andrade, cidade de escuta para quem finalmente se permitiu fazer as perguntas certas.


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