Ensaio Teológico I(5) Ouvir, Questionar, Descobrir: A Jornada da Sabedoria nas Escrituras Sagradas.
Por Claudeci Ferreira de Andrade
Havia um homem na congregação onde cresci que sabia de cor capítulos e versículos inteiros. Sempre que alguém ousava fazer uma pergunta mais incômoda, ele respondia imediatamente, com uma precisão quase cirúrgica. A dúvida sequer tinha tempo de respirar; morria antes de nascer. Levei anos para perceber que aquilo não era fé genuína. Era a fé transformada em fechadura. E foi justamente diante desse silêncio imposto que aprendi, mais do que em qualquer seminário, que ouvir e compreender não caminham, necessariamente, no mesmo tempo.
A Bíblia é uma coletânea de escritos sagrados reverenciada há milênios. Seus autores — profetas, apóstolos, poetas, legisladores e tantos outros — deixaram contribuições singulares para a compreensão da sabedoria que atravessa esses textos. Mas, há algo curioso: a própria Escritura resiste à leitura passiva. Ela não se entrega a quem apenas a percorre com os olhos. Recebê-la sem questionamento não é sinal de humildade; muitas vezes, é apenas uma forma sofisticada de preguiça intelectual. Afinal, a sabedoria verdadeira nasce da busca incessante pela verdade, e toda busca exige atrito, dúvida e a coragem de permanecer, por algum tempo, sem respostas.
Ouvir é, sem dúvida, o primeiro passo de quem deseja aprender. Mas, ouvir sem perguntar é como plantar e nunca regar. O apóstolo Tiago expressou isso com clareza ao escrever: "Sejam praticantes da palavra, e não apenas ouvintes, enganando-se a si mesmos" (Tg 1:22 NVI). A advertência é sutil e continua atual. É possível passar décadas acumulando conhecimento bíblico e, ainda assim, permanecer espiritualmente imóvel, iludido pela falsa impressão de que escutar equivale a compreender. Só que não. Colocar a Palavra em prática pressupõe interpretá-la, e interpretar exige, inevitavelmente, fazer perguntas.
É justamente aqui que surge uma tensão da qual o pensamento honesto não consegue escapar: onde termina o questionamento legítimo e começa a interpretação arbitrária? Não existe uma resposta simples. Quem afirma possuir uma fórmula definitiva talvez esteja repetindo, sem perceber, a postura daquele homem da minha infância. O limite, suspeito, não é uma linha bem desenhada; é um processo de maturidade. A diferença está na intenção. Há quem questione para compreender melhor. Outros questionam apenas para encontrar argumentos que confirmem aquilo em que já decidiram acreditar. O primeiro caminho abre portas; o segundo apenas muda o lugar da fechadura.
Os homens e mulheres que as Escrituras apresentam como sábios — aqueles que "entenderam os tempos e sabiam o que deveria ser feito" (1Cr 12:32) — não chegaram a esse discernimento por meio de uma obediência cega. A sabedoria floresceu porque havia disposição para investigar, refletir e discernir antes de agir. Suas decisões estavam firmadas nos fundamentos das Escrituras, mas eram fruto de uma mente inquieta, que não fugia das perguntas difíceis. Talvez essa seja a grande diferença entre eles e aqueles que apenas repetiam a Lei: os sábios aprendiam a habitar a pergunta antes de correr para a resposta.
As palavras da Bíblia, por vezes, parecem envoltas em sombras. E isso não é um defeito; é um convite. Um convite para que o leitor se aproxime com humildade, mas também com rigor, disposto a compreender o contexto histórico, a intenção do autor e a enorme distância entre o mundo em que o texto nasceu e aquele em que nós vivemos. Sem esse esforço, a Escritura deixa de ser janela e se transforma em espelho, refletindo apenas aquilo que o leitor já desejava encontrar.
Em meio à pluralidade de vozes que disputam a interpretação bíblica — e elas são muitas, cada uma com seus diferentes níveis de consistência —, o melhor caminho não é nem o silêncio reverente de quem aceita tudo sem pensar, nem o ceticismo que dissolve qualquer possibilidade de verdade. O caminho continua sendo o dos bereanos, que "examinavam as Escrituras todos os dias para ver se tudo era assim mesmo" (At 17:11). Eles não rejeitaram Paulo. Ao contrário, levaram sua mensagem a sério o suficiente para conferi-la à luz das Escrituras. Talvez essa seja uma das formas mais profundas de respeito que se pode oferecer a um texto sagrado: não simplesmente engoli-lo, mas mastigá-lo, digeri-lo e permitir que ele transforme quem o lê.
Por isso, proponho que busquemos conhecimento não apenas nas palavras da Bíblia ou nas interpretações daqueles que vieram antes de nós, mas também na coragem de fazer a pergunta que ninguém tem disposição para ouvir. A sabedoria verdadeira — aquela que ilumina a caminhada em vez de apenas decorar o mapa — nasce do encontro entre a escuta atenta e a reflexão que não se deixa intimidar. Que sejamos leitores que amam tanto as Escrituras que não tenham medo de dialogar com elas. Porque a fé que teme perguntas dificilmente suportará o peso das respostas.
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