ANTOLOGIA DE CRÔNICAS REFLEXIVAS À LUZ DA SÃ CONSCIÊNCIA — Crônica (69): A Sinfonia dos Direitos Silenciados.
É justa essa solução — vender tudo e ir embora? A pergunta me ocorreu numa segunda-feira de manhã, sentado na sala de espera da prefeitura. O ambiente tinha aquele cheiro inconfundível de papel envelhecido misturado com café requentado, uma combinação que parece fazer parte do mobiliário público. Cheguei cedo, retirei minha senha e me acomodei numa cadeira de plástico azul já desbotada pelo tempo. O número na minha mão era o 47. O painel eletrônico exibia o 23. Acima de nós, um ventilador girava preguiçosamente, sem entusiasmo, como um funcionário próximo da aposentadoria cumprindo os últimos minutos do expediente.
Eu estava ali para protocolar uma reclamação por poluição sonora. A igreja da esquina de casa — personagem recorrente destas crônicas e conhecida entre os vizinhos como "o problema da esquina" — havia elevado o volume dos cultos nas últimas semanas com a mesma naturalidade de quem jamais cogitou encontrar resistência. E, para ser justo, resistência alguma aparecia. As ligações para a ouvidoria produziam protocolos; os protocolos produziam encaminhamentos; os encaminhamentos produziam silêncio. Era uma linha de montagem burocrática cuja mercadoria final parecia ser a inércia.
Quando o número 47 finalmente surgiu no painel, levantei-me e caminhei até o guichê. A funcionária era jovem e trazia um fone de ouvido pendurado no pescoço. Parecia ter acabado de interromper alguma conversa, música ou podcast para me atender, o que interpretei como um raro gesto de boa vontade administrativa. Expliquei a situação. Ela ouviu tudo com a serenidade profissional de quem já escutou aquela mesma história sob diferentes versões, endereços e denominações. — "O senhor tem o endereço da igreja?" Tinha. Ela anotou. "E o horário em que o barulho ocorre?" Domingos, das nove ao meio-dia. Às vezes, também às quartas-feiras à noite. Ela anotou novamente. "Vou registrar. O senhor vai receber um número de protocolo por e-mail."
Recebi. O protocolo existe. O número existe. O registro existe. Tudo existe no papel, no sistema e, provavelmente, em algum servidor público esquecido num canto climatizado da cidade. O que não parece existir é qualquer consequência prática. A igreja continua com as caixas de som voltadas para a rua. Continua com os microfones ligados. Continua transformando o espaço aéreo de duas quadras numa extensão involuntária do templo, sem jamais ter perguntado aos moradores se desejam participar da programação.
Penso, então, em Dona Tereza, do terceiro andar do prédio ao lado. Há algum tempo ela consultou um corretor para saber quanto valia seu apartamento, comprado vinte e dois anos atrás com prestações "intermináveis", horas extras e uma boa dose de esperança. Descobriu que o valor de venda não lhe permitiria adquirir nada semelhante em um bairro semelhante. Em outras palavras, mudar-se não é uma escolha real. Por isso ela fica. Todo domingo, fecha a janela.
E talvez seja justamente aí que mora a parte mais perturbadora dessa história. Aos poucos, vamos nos acostumando a tratar como solução aquilo que, na verdade, é apenas adaptação ao problema. Fecha-se a janela. Aumenta-se o volume da televisão. Compra-se um fone de ouvido melhor. Troca-se a conversa na varanda pelo isolamento da sala. O cidadão recua alguns passos para que o incômodo avance outros tantos.
Há algo profundamente errado num país em que o morador fecha a janela, a instituição abre o microfone e o Estado, chamado a arbitrar o conflito, responde com um número de protocolo. O meu continua guardado na gaveta. Talvez por precaução. Talvez por insistência. Ou talvez como se guarda uma fotografia antiga: não porque ela resolva alguma coisa, mas porque serve de prova de que aquilo realmente aconteceu.
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