Ensaio Teológico — I(3) — Sabedoria, Justiça, Julgamento e Equidade: Os Quatro Pilares da Vida Cristã
Por Claudeci Ferreira de Andrade
Lembro-me de uma tarde da infância, muito antes de qualquer experiência que minha igreja chamaria de "regeneração". Naquele dia, aprendi, sozinho, a diferença entre o certo e o errado. O caixeiro do mercado havia me dado troco a mais, e eu o devolvi, embora ninguém estivesse olhando. Ninguém me ensinou aquilo num culto, nem houve um sermão orientando minha decisão. Foi a consciência — crua, silenciosa e surpreendentemente lúcida — que falou antes de qualquer doutrina. Trago essa lembrança porque é dela, e não de uma tese abstrata, que nasce este terceiro ensaio.
Fui educado a acreditar que nascemos ignorantes e egoístas, vasos da depravação total, à espera de uma intervenção divina que finalmente nos capacitasse a pensar, discernir e amar com retidão. Essa é a doutrina que Agostinho descreve nas Confissões: a vontade humana acorrentada ao próprio peso, incapaz de escolher o bem por si mesma. Reconheço a força dessa perspectiva e seria injusto descartá-la com leviandade. Ainda assim, preciso admitir que ela não explica o troco que devolvi. Também não explica Sócrates, que perseguiu a virtude sem jamais ter ouvido falar do Evangelho, nem o filho que ama o pai antes mesmo de aprender qualquer conceito teológico. Há experiências humanas que parecem escapar das molduras rígidas de qualquer sistema.
Aristóteles afirmava que a alma nunca pensa sem uma imagem. Talvez esteja aí uma chave importante para esta reflexão. Não creio que nasçamos como recipientes vazios, destituídos de qualquer inclinação para o bem ou para a verdade. Vejo-nos mais como folhas prontas para receber a escrita da vida: abertas à experiência, movidas por uma curiosidade que antecede o medo e impulsionadas por um desejo natural de compreender. É justamente essa curiosidade — esse impulso quase irresistível de aprender antes mesmo que alguém nos ensine no que devemos acreditar — que me leva a questionar se a sabedoria realmente depende de uma única porta de entrada. Sócrates resumiu toda a sua busca em três palavras: "conhece-te a ti mesmo". E, sinceramente, não consigo acreditar que ele estivesse enganado, nem que sua procura tenha sido inútil apenas porque aconteceu fora dos limites da fé que hoje professo.
Kant, por sua vez, ofereceu-me a imagem que talvez mais tenha permanecido comigo ao longo deste ensaio: a consciência e a razão como dois pilares que impedem o ser humano de despencar no abismo da própria desgraça. Há algo profundamente humano — e, ouso dizer, profundamente divino — nessa percepção. Se a imagem de Deus foi realmente impressa em cada ser humano, como ensina o próprio Gênesis, por que insistimos em afirmar que ela permanece completamente apagada até uma intervenção pontual da graça? Talvez a graça não seja a chave que destranca uma porta hermeticamente fechada, mas a luz que ilumina, com maior intensidade, um quarto que sempre esteve ali: desorganizado, imperfeito, cheio de sombras, mas jamais entregue à escuridão absoluta.
Não escrevo isso para diminuir a doutrina da graça, muito menos para negar tudo o que defendi nos dois ensaios anteriores desta série. Pelo contrário. Escrevo porque minha própria experiência insiste em desafiar esquemas excessivamente fechados. Ao longo da vida, conheci pessoas extraordinariamente sábias, justas e equilibradas que jamais pronunciaram o nome de Cristo. Da mesma forma, conheci cristãos sinceramente convertidos que continuam sendo cruéis, injustos e resistentes até mesmo à voz da própria consciência. Essa constatação não enfraquece minha fé; apenas me impede de reduzir a sabedoria à profissão de uma crença ou de identificar automaticamente a ausência da fé com a ausência da luz.
A Bíblia continua sendo, para mim, a fonte primeira e insubstituível de sabedoria. Contudo, já não consigo enxergá-la como a única lâmpada acesa neste mundo. Como escreveu Einstein, a mente que se abre a uma nova ideia jamais volta ao seu tamanho original. Eu me permiti essa abertura. E talvez seja justamente ela, mais do que qualquer experiência instantânea de regeneração, o verdadeiro início da sabedoria que venho perseguindo ao longo destes ensaios. Não como uma luz que surge do nada, mas como uma claridade que vai sendo reconhecida, pouco a pouco, onde quer que a consciência humana tenha coragem de procurar a verdade — dentro e fora dos muros da fé.
.jpeg)

Nenhum comentário:
Postar um comentário