Reflexão e Missão: Entre a Cura e o Chamado ("Se descobrirmos que não podemos ajudar os outros, o mínimo que podemos fazer é desistir de prejudicá-los." — Dalai Lama)
Por Claudeci Ferreira de Andrade
Quando a COVID-19 atravessou as ruas como um vento invisível carregando nomes e datas, compreendi algo simples: ninguém negocia com a finitude. Quem está na chuva se molha — e quem nasce, cedo ou tarde, despede-se.
Sobreviver, porém, às vezes inaugura um problema novo. Depois de hospitais, exames e do espanto silencioso do câncer, passei a suspeitar que a vida não preserva alguém por acaso. Não parecia razoável ser poupado apenas para repousar numa aposentadoria confortável ou morrer de forma burocrática, como quem fecha uma aba do navegador. Talvez houvesse uma incumbência: testemunhar que a paz não consiste em evitar a morte, mas em reconciliar-se com ela — ensinar isso a um mundo que se move como se fosse eterno e, por isso mesmo, vive como se estivesse caído.
Enquanto a alma formula perguntas metafísicas, a carne recebe boletos. O espírito contempla o infinito; o mercado exige desempenho.
Sou levado a ajustar métodos, otimizar processos e entregar resultados — linguagem áspera ao lado das parábolas. Ainda assim, percebi que até a planilha pode tornar-se liturgia: cada número revela onde depositamos nossa confiança. O lucro mede eficiência; o cansaço, idolatria.
Nesse ponto reconheço-me em Elias. A Escritura não o apresenta heroico, mas humano: “Ele ficou com medo.” Antecipou a violência de Jezabel e correu — não por covardia, mas por lucidez. Fugiu para salvar a própria vida. Há uma santidade pouco comentada nisso: a fé que também sabe recuar.
Entre essa urgência bíblica e a sensibilidade de um músico ferido encontro outra voz. Bob Marley, que igualmente enfrentou a morte prematura, confessou: "Difícil não é lutar por aquilo que se quer, e sim desistir daquilo que se mais ama. Eu desisti. Mas não pense que foi por não ter coragem de lutar, e sim por não ter mais condições de sofrer."
De repente, Elias e Marley dialogam: um foge para não morrer; o outro cessa a luta para não prolongar a dor. Nenhum celebra a derrota — ambos reconhecem o limite.
Aqui toca o antigo paradoxo espiritual que os místicos chamaram de kenosis: viver exige um certo morrer — não o fim biológico, mas o abandono da ilusão de controle. A cruz não é um acidente da fé; é o seu método.
Passei anos tentando vencer o sofrimento; hoje suspeito que a tarefa seja moldá-lo. Viktor Frankl percebeu isso num campo de extermínio: não escolhemos a dor, mas a forma que ela assume dentro de nós. Entre fugir e resistir há uma terceira via — transformar-se.
Se o mundo está povoado por anjos caídos, talvez a missão não seja combatê-los nem imitá-los, mas reaprender a levantar voo mesmo carregando cicatrizes.
Continuo sem resposta definitiva. Não sei se devo correr como Elias ou permanecer como quem aceita a noite. Faço então o mais difícil: fico. Trabalho, descanso quando posso, recuso batalhas inúteis, abraço as necessárias e trato cada dia como uma pequena pedagogia da despedida. E, enquanto permaneço nessa incerteza, descubro que talvez a fé não seja escapar da morte nem desejá-la, mas aprender lentamente a viver de modo que, quando ela chegar, não encontre em mim um derrotado… apenas alguém finalmente inteiro.
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Olá! Como professor de Sociologia, fico muito feliz em fazer um texto tão rico para análise. O conteúdo transita entre a Sociologia da Religião, a Sociologia do Trabalho e a Existencialidade, permitindo-nos refletir sobre como as estruturas sociais (o mercado, a pandemia, as instituições) moldam a nossa percepção da vida e da morte. Abaixo, apresento cinco questões discursivas pensadas para o nível de Ensino Médio, focadas na interpretação sociológica e crítica do texto:
1. O conflito entre o "espírito" e o "mercado"
O texto menciona: "Enquanto a alma formula perguntas metafísicas, a carne recebe boletos. O espírito contempla o infinito; o mercado exige desempenho." Pergunta: De que maneira a lógica de desempenho do sistema capitalista moderno pode entrar em conflito com a busca por propósito e bem-estar subjetivo do indivíduo? Relacione sua resposta ao conceito de "idolatria do cansaço" citado pelo autor.
2. A Finitude e a Pandemia como Fato Social
O autor reflete sobre a COVID-19 como algo que equaliza a todos: "Ninguém negocia com a finitude".
Pergunta: Sociologicamente, como grandes eventos coletivos (como uma pandemia) alteram a percepção de solidariedade e a consciência de grupo em uma sociedade?
3. Trabalho e Liturgia
O autor afirma que "até a planilha pode tornar-se liturgia".
Pergunta: Pensando na Ética Protestante (Max Weber), como a visão de trabalho como uma "missão" ou "vocação" transforma a relação do indivíduo com as tarefas produtivas cotidianas?
4. A Terceira Via de Viktor Frankl
O texto cita que não escolhemos a dor, mas a forma que ela assume dentro de nós, sugerindo uma "terceira via" entre fugir e resistir: a transformação.
Pergunta: No contexto da sociedade atual, marcada por altos índices de ansiedade e depressão, como a capacidade de ressignificar o sofrimento pode ser vista como uma forma de resistência cultural e pessoal?
5. A Pedagogia da Despedida e o Mundo dos "Anjos Caídos"
Ao final, o autor fala em "tratar cada dia como uma pequena pedagogia da despedida".
Pergunta: Vivemos em uma sociedade que, muitas vezes, nega a morte e o envelhecimento. Como essa "negação do fim" influencia o consumo e o comportamento das pessoas nas redes sociais e na vida pública?
Dica do professor: Ao responder, tente não apenas repetir o que o texto diz, mas conecte as ideias com a sua realidade e com os conceitos de grandes pensadores que estudamos em sala! Bom trabalho.


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