"Se você tem uma missão Deus escreve na vocação"— Luiz Gasparetto

" Não escrevo para convencer, mas para testemunhar."

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MINHAS PÉROLAS

sábado, 26 de julho de 2025

Ensaio Teológico VIII(8) A Chama e o Pergaminho: Ensaio sobre a Bíblia e a Realidade de Deus


Ensaio Teológico VIII(8) A Chama e o Pergaminho: Ensaio sobre a Bíblia e a Realidade de Deus

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Lembro-me do desconforto que senti ao ler, pela primeira vez, duas versões de um mesmo episódio bíblico e perceber que elas não coincidiam. Havia ali um pequeno abismo, e eu hesitei à beira dele. Imagino que muita gente, crente ou cética, já tenha experimentado essa mesma inquietação: aquele instante em que a Bíblia deixa de parecer um monólito, uma obra uniforme e sem fissuras, e se revela como aquilo que também é — uma biblioteca. São dezenas de autores, escrevendo ao longo de séculos, em diferentes contextos e gêneros literários: poesia, lei, crônica, profecia, carta e apocalipse. Nesse encontro de vozes, surgem tensões, diferenças de perspectiva e até aparentes contradições. Afinal, são seres humanos tentando expressar, cada qual à sua maneira, aquilo que compreenderam de Deus, da vida e de si mesmos. Isso não significa, entretanto, reduzir as Escrituras a um compêndio "cheio de erros". Muita coisa que, à primeira vista, parece incoerente pode ser esclarecida — ou, pelo menos, compreendida com mais profundidade — quando abandonamos as respostas apressadas e nos dispomos a ler com rigor, contexto e honestidade intelectual.

Dois exemplos ajudam a esclarecer o que defendo. As genealogias de Jesus em Mateus e Lucas divergem, entre outros aspectos, quanto à linhagem apresentada e ao nome do pai de José. Uma interpretação possível considera que Mateus organiza a genealogia em três grupos de catorze gerações, recorrendo a uma estrutura simbólica associada a Davi, enquanto Lucas conduz a linhagem até Adão, ampliando o horizonte da narrativa e ressaltando a relação de Jesus com toda a humanidade. Nessa perspectiva, a diferença não precisa ser tratada imediatamente como uma falha: ela também pode revelar intenções teológicas distintas. Nos relatos da ressurreição, encontramos variações quanto às mulheres presentes, aos anjos mencionados e às aparições de Jesus. Ainda assim, os textos convergem em pontos fundamentais, como o túmulo vazio e o testemunho das mulheres, cujo valor social e jurídico era limitado naquele contexto histórico. Essas diferenças merecem ser examinadas, não varridas para debaixo do tapete. Michael F. Bird, ao discutir a autoridade das Escrituras, enfatiza seu testemunho sobre a ação de Deus, em vez de reduzi-las à condição de manual científico. Alister McGrath, por sua vez, destaca a capacidade da fé cristã de nos confrontar com a realidade de Deus e com a verdade a nosso próprio respeito. Recorro aqui à paráfrase, e faço questão de esclarecer isso: o rigor começa justamente quando não atribuímos a ninguém palavras que não podemos citar com exatidão. Respeitar um autor também é não fazê-lo dizer aquilo que gostaríamos de ouvir.

Há, porém, uma tensão que não pretendo esconder debaixo do tapete da conveniência: como buscar a intenção original dos autores bíblicos e, ao mesmo tempo, permitir que suas palavras produzam transformação em nosso presente? Para mim, não se trata de escolher entre uma coisa e outra. Hans-Georg Gadamer, com a ideia de "fusão de horizontes", ajuda a compreender que o encontro entre o texto e o leitor acontece quando o horizonte histórico da obra dialoga com as perguntas do nosso tempo. Em outras palavras, não basta arrancar um versículo de sua época e fazê-lo dizer qualquer coisa que nos convenha; é preciso escutar primeiro o que ele significava naquele contexto para, então, perguntar o que pode nos ensinar hoje. O princípio do "olho por olho" (Êxodo 21:24), por exemplo, pode ser compreendido, em seu ambiente histórico, como uma tentativa de limitar a retaliação e impedir que uma ofensa desencadeasse uma cadeia interminável de vinganças. Não era ainda o horizonte ético proposto por Jesus, mas representava um limite à violência desmedida. Nos ensinamentos do Cristo, esse horizonte ganha outra dimensão, com o convite a romper o ciclo da vingança. De modo semelhante, Gálatas 3:28 afirma uma unidade fundamental em Cristo que desafia distinções hierárquicas de seu tempo, embora a história da interpretação cristã mostre que os próprios textos paulinos também foram utilizados para justificar exclusões e desigualdades. Eis por que a leitura crítica não é luxo de acadêmico nem capricho de quem gosta de complicar o que parece simples. É uma necessidade, pois entre a Escritura que liberta e a interpretação que aprisiona pode existir apenas a distância entre uma leitura honesta e outra interessada.

Seria desonesto, contudo, encerrar esta reflexão sem dar espaço a quem pensa diferente. Os defensores da inerrância bíblica, de B. B. Warfield à Declaração de Chicago, de 1978, não são ingênuos nem necessariamente inimigos da investigação intelectual. Em suas formulações, a inerrância costuma ser vinculada aos escritos originais, e a interpretação deve considerar os gêneros literários, as figuras de linguagem e as particularidades de cada passagem. O receio desses estudiosos é compreensível: acreditam que abandonar a inerrância pode comprometer a confiança na revelação divina. Não se trata, portanto, de uma preocupação que deva ser descartada com meia dúzia de frases irônicas. A divergência está no modo como compreendemos e fundamentamos essa confiança, não necessariamente no valor que atribuímos à fé. Reconhecer isso não me obriga a concordar com todas as conclusões da inerrância, mas me impede de transformar quem pensa diferente em caricatura. Afinal, se reivindico o direito de questionar, preciso reconhecer ao outro o direito de argumentar. É assim que o debate deixa de ser disputa por supremacia e se torna oportunidade de aprendizagem.

Para mim, a Bíblia continua acesa, não porque eu precise fingir que todas as suas páginas são iguais, que todas as narrativas se encaixam sem dificuldade ou que toda pergunta já nasceu respondida, mas porque ainda encontro nela matéria para pensar, rever certezas e confrontar minha própria consciência. O pergaminho atravessou os séculos; a chama, porém, precisa ser alimentada por uma leitura que não tenha medo da verdade. E talvez seja justamente aí que a fé e a razão possam se encontrar: não na obrigação de concordar em tudo, mas na disposição de caminhar juntas sem que uma tente apagar a outra. Uma fé que teme perguntas corre o risco de transformar Deus numa imagem pequena, moldada à medida de suas certezas; uma razão que despreza a fé também pode empobrecer sua compreensão da experiência humana. Por isso, convido você a percorrer esse caminho comigo, sem a pressa de condenar e sem o medo de duvidar. Não lhe peço que abandone suas convicções, muito menos que aceite as minhas sem examiná-las. Peço apenas que mantenhamos a conversa aberta, com humildade para reconhecer os limites do que sabemos e coragem para rever o que julgávamos definitivo. Afinal, prefiro debater essas questões ao seu lado, entre as páginas do pergaminho e as inquietações da vida, a permanecer sozinho na confortável ilusão de que já encontrei todas as respostas.

ALINHAMENTO CONSTRUTIVO

Roteiro de Questões Reflexivas: "A Chama e o Pergaminho"

Componente Curricular: Sociologia

Público-alvo: Ensino Médio

Instruções: A partir da leitura do texto "A Chama e o Pergaminho", responda às questões abaixo de forma dissertativa, conectando os dilemas apresentados com a sua visão de mundo e com a realidade da sociedade atual.

Questão 1: A ilusão da verdade pronta e a diversidade cultural

O autor conta que sentiu um "pequeno abismo" ao perceber que diferentes partes de um mesmo livro sagrado não coincidiam perfeitamente, revelando que a obra é fruto de múltiplos autores, épocas e contextos.

Reflexão: Por que muitas vezes temos a tendência de querer que as nossas referências, tradições e verdades sejam absolutas e sem "fissuras"? De que maneira aceitar a diversidade de pontos de vista nos ajuda a entender melhor a complexidade da vida em sociedade?

Questão 2: As lentes com que lemos o mundo

Ao analisar as diferenças nas genealogias e nos relatos históricos de Mateus e Lucas, o texto mostra que cada autor escolheu destacar aspectos diferentes de acordo com seus objetivos e com o público que desejava alcançar.

Reflexão: Na era das redes sociais e do excesso de informação, percebemos que diferentes grupos contam a mesma história de formas totalmente distintas. Como os nossos valores, crenças e o lugar de onde viemos influenciam o jeito como enxergamos os fatos ao nosso redor?

Questão 3: O peso do passado no presente

Para explicar como um texto antigo pode dialogar com o nosso tempo sem perder seu sentido original, o autor usa o exemplo da evolução de uma norma (como a transição do "olho por olho" para a ética do perdão e do rompimento com a vingança).

Reflexão: Pense em alguma tradição, regra social ou lei herdada do passado que hoje já não parece fazer tanto sentido. Como a sociedade deve equilibrar o respeito à sua história com a coragem de mudar o que precisa ser transformado?

Questão 4: A linguagem que liberta e a que aprisiona

O texto aponta uma grande contradição: um mesmo conjunto de ideias e textos que historicamente inspirou libertações e igualdade também já foi usado para justificar exclusões, preconceitos e desigualdades.

Reflexão: Como um discurso, uma cultura ou uma religião podem ser usados tanto para unir e emancipar as pessoas quanto para oprimi-las e controlá-las? Você consegue citar exemplos disso no nosso cotidiano atual?

Questão 5: O diálogo em tempos de polarização

Na parte final, o autor defende que debater com quem pensa diferente sem transformá-los em "caricatura" é fundamental, e que o medo de fazer perguntas empobrece tanto a fé quanto a razão.

Reflexão: Vivenciamos uma época em que é muito fácil rotular e cancelar quem pensa diferente de nós. Em sua opinião, por que ter a coragem de duvidar e escutar o outro é tão importante para construirmos uma sociedade mais madura e democrática?

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