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MINHAS PÉROLAS

sexta-feira, 30 de outubro de 2026

Ensaio Teológico IX(18) O QUE CABE NO CORAÇÃO

 


Ensaio Teológico IX(18) O QUE CABE NO CORAÇÃO

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Conheci um casal que, depois de trinta anos de casamento, já não sabia viver o desejo sem culpa. Ele aprendera a temer o próprio corpo; ela, a desconfiar dos próprios sentimentos. Os dois haviam sido fiéis, mas estavam exaustos de carregar uma culpa que parecia não ter fim. Essa história me fez perceber que a sexualidade não deve ser tratada como inimiga da alma. Reconheço o valor da fidelidade, da castidade e do compromisso, pois os vínculos afetivos exigem cuidado e, quando rompidos, deixam feridas. Também levo a sério os ensinamentos de Paulo, que apresenta o amor como “elo perfeito” (Colossenses 3:14), mas nos lembra que “tudo é permitido, mas nem tudo convém” (1 Coríntios 10:23). Entendo, porém, que os limites precisam nascer do amor, não do medo, sem esquecer o chamado à prudência, ao acolhimento e à paciência (Mateus 7:1; Efésios 4:2).

Para compreender melhor essa complexidade, busco diálogo entre a ciência, a filosofia e a Escritura. Esther Perel, em Mating in Captivity (2006), mostra que o desejo vive entre a segurança e o mistério, enquanto Helen Fisher, em Why We Love (2004), ajuda a compreender a profundidade do amor romântico. Já Zygmunt Bauman, em Amor líquido (2003), chama a atenção para a fragilidade dos vínculos numa sociedade marcada pelo consumo e pela pressa. Também me inquieta a reflexão de Michel Foucault, em História da sexualidade I (1976), sobre o discurso sexual como instrumento de poder e controle. Essas contribuições não me levam a justificar qualquer comportamento, mas a reconhecer que o desejo é complexo e que ninguém escolhe simplesmente tudo o que sente. A responsabilidade começa justamente quando decidimos o que fazer com nossos sentimentos.

Há, entretanto, um princípio do qual não abro mão: o consentimento. Reconhecer o outro como sujeito, e não como instrumento de satisfação, é condição indispensável para qualquer relação humana. Mesmo admitindo que muitas normas morais são construídas socialmente, entendo que retirar do outro o direito de consentir não é uma simples diferença cultural: é violência. Nessa direção, encontro respaldo em John Gottman, cujos estudos destacam a amizade, o respeito e a comunicação como fundamentos dos relacionamentos duradouros, em vez da vigilância e do controle. Também valorizo a contribuição de Carol Gilligan, que amplia a compreensão da ética ao destacar o cuidado e a atenção às circunstâncias. Por isso, defendo uma educação sexual abrangente, fundamentada em evidências, que ensine sobre o corpo, o desejo, a fidelidade, os limites e o compromisso. Não quero uma educação que apenas mande obedecer, mas que ensine a pensar, escolher e respeitar.

Volto, então, àquele casal que, depois de três décadas de casamento, já não sabia desejar sem sentir culpa. Não precisava de uma sentença condenatória, tampouco de uma autorização para viver sem limites. Precisava compreender que o desejo é humano e que o amor exige cuidado, respeito e responsabilidade. É essa dimensão mais humana da tradição que desejo preservar: aquela que encontra no mandamento “amai-vos” não uma licença para tudo, mas um convite a cuidar uns dos outros. Não defendo liberdade sem compromisso, nem fidelidade sustentada pela vigilância. Defendo limites sem humilhação, moralidade sem medo e amor sem a obrigação de esconder o próprio corpo. Afinal, de que adianta preservar as regras de um relacionamento e perder a ternura de quem deveria vivê-lo? A sabedoria que busco começa quando conseguimos acolher o desejo sem abandonar a responsabilidade e compreender que, no coração, também cabe o cuidado com o outro.

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