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MINHAS PÉROLAS

quinta-feira, 29 de outubro de 2026

Ensaio Teológico IX(15) A Culpa que Aprendemos a Carregar: Virtude, Tentação e a Necessidade de uma Ética Adulta

 


Ensaio Teológico IX(15) A Culpa que Aprendemos a Carregar: Virtude, Tentação e a Necessidade de uma Ética Adulta

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Aos dezesseis anos, numa tarde de sábado, ouvi de um líder de jovens que as moças da igreja deviam cobrir os ombros “para não fazer o irmão tropeçar”. Lembro-me até hoje da vergonha estampada no rosto de uma colega, que ajeitou a blusa como quem acabava de descobrir que seu próprio corpo era um perigo. E eu? Também fui vítima daquela lição torta, ensinado a me enxergar como um sujeito incapaz de controlar os próprios desejos. Naquela tarde, ela virou tentação, e eu, uma presa indefesa. Ninguém pareceu se lembrar de que, antes de sermos homens e mulheres, éramos duas pessoas aprendendo a viver. É por isso que volto àquela cena: quero entender como uma moral que se apresenta como virtuosa pode fabricar culpados em vez de formar consciências responsáveis.

Não ignoro a sabedoria presente na tradição cristã. De José, em Gênesis 39, às advertências de Provérbios 7, reconheço que o desejo exige discernimento e que ninguém se torna virtuoso vivendo numa bolha. Mas também encontro em Tomás de Aquino, Agostinho e no Sermão da Montanha uma compreensão mais profunda da moral, voltada para o caráter, a liberdade e a responsabilidade interior. Minha crítica, portanto, não é à fé, mas à sua versão empobrecida, que troca o exame da própria consciência pela fiscalização do corpo alheio. Com Simone de Beauvoir, em O Segundo Sexo (1949), compreendo como a cultura ensina às mulheres o lugar que devem ocupar; com Jonathan Haidt, em The Righteous Mind (2012), percebo como a moral pode unir um grupo e, ao mesmo tempo, cegá-lo para as consequências de suas regras. Afinal, de que adianta preservar a imagem de pureza de uma comunidade se, nessa tentativa, a dignidade de seus próprios membros fica pelo caminho?

Para mim, o caminho não está em trocar a repressão pela permissividade, mas em substituir o medo pela responsabilidade compartilhada. Inspirado no princípio apresentado por Peter Singer em “Famine, Affluence, and Morality” (1972), entendo que devemos agir para evitar o mal quando isso não exige sacrificar algo de importância moral comparável. Essa reflexão me leva a mudar a pergunta: em vez de pensar apenas em como me proteger da tentação, preciso considerar o que posso fazer pelo outro e com o outro. É aí que entra uma educação afetiva e sexual honesta, sem terrorismo moral nem vergonha do próprio corpo, capaz de ensinar rapazes e moças a reconhecer o desejo, respeitar os limites, compreender o consentimento e praticar o cuidado. Desejo não é sentença, corpo não é armadilha e ninguém deve carregar sozinho uma culpa que precisa ser examinada à luz da própria conduta.

Não quero jogar a virtude pela janela; quero devolvê-la ao lugar de onde nunca deveria ter saído: o caráter. Uma pessoa virtuosa não é aquela que vive fugindo de todas as ocasiões de falhar, mas aquela que aprende, pela escolha e pela prática, a agir de modo que os outros possam confiar nela. Volto, então, àquela sala de sábado e imagino como tudo poderia ter sido diferente se alguém tivesse ensinado àqueles dois adolescentes que cada um era responsável pelas próprias escolhas e pelo respeito devido ao outro. Minha colega teria ajeitado a blusa por conforto, não por vergonha, e eu teria saído dali sabendo que meus desejos não anulavam minha capacidade de decidir. Parece pouca coisa, véi, mas é justamente aí que mora a diferença entre uma moral que aprisiona e uma ética que amadurece. A fé não precisa de mulheres envergonhadas nem de homens tratados como reféns dos próprios impulsos. Precisa de gente capaz de pensar, escolher e responder pelo que faz. Uma moral assim não enfraquece a fé; tira-lhe as muletas do medo e a ajuda a caminhar com as próprias pernas.

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