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MINHAS PÉROLAS

sexta-feira, 30 de outubro de 2026

Ensaio Teológico IX(16) DA JANELA DA CASA À PORTA DO OUTRO

 


Ensaio Teológico IX(16) DA JANELA DA CASA À PORTA DO OUTRO

Por Claudeci Ferreira de Andrade


No capítulo sete de Provérbios, encontro um sábio que, da janela de sua casa, observa um jovem atravessando a rua ao entardecer. Essa cena sempre me faz pensar em quantos julgamentos morais nascem da segurança de quem olha a vida de longe, protegido pelas próprias grades. Reconheço a força pedagógica da oposição entre a Senhora Sabedoria e a mulher estranha, apresentada em Provérbios 9. Afinal, ensinar pelo contraste é um recurso legítimo da literatura sapiencial. O problema começa quando transformamos uma alegoria numa classificação de mulheres reais, como se a vida coubesse em duas portas. A própria Bíblia, aliás, contraria essa simplificação ao apresentar Tamar, considerada mais justa do que Judá (Gênesis 38), e Raabe, acolhida tanto na genealogia de Jesus (Mateus 1) quanto entre os exemplos de fé (Hebreus 11).

Essa inquietação também encontra respaldo em diferentes pensadores. Esther Perel, em Inteligência erótica (2006), revela os paradoxos do desejo; Lawrence Kohlberg (1981) compreende a maturidade ética como uma construção gradual; e Erik Erikson reconhece na juventude um período de experimentação e descoberta da própria identidade. Recorro ainda a Yuval Noah Harari, em Sapiens (2011), e a Judith Butler (1990), para refletir sobre como as narrativas sociais e as normas de gênero influenciam nossos julgamentos. Não podemos esquecer que Provérbios 1–9 nasceu numa sociedade patriarcal, na qual um pai aconselhava o filho. Por isso, considero indispensável olhar para o contexto histórico e perguntar: por que a mulher aparece tantas vezes como tentação, enquanto o homem parece escapar da responsabilidade pelo próprio desejo? Ora, se o desejo é humano, a responsabilidade também precisa ser.

Para aproximar essa discussão da vida real, imagino Marta, uma mulher de 34 anos que, ainda adolescente, ouviu num púlpito que certas moças eram “a mulher da Provérbios 7”. Ninguém quis saber de sua história, de onde vinha ou o que a levara àquela situação. A sentença, porém, ficou; duas décadas depois, ainda pesava sobre seus passos. É por isso que me identifico com Martha Nussbaum, em Love’s Knowledge (1990), ao defender que as narrativas nos ensinam a enxergar pessoas onde os julgamentos apressados só encontram rótulos. Essa compreensão também dialoga com os estudos de John Gottman, que destacam a amizade, o respeito e a comunicação como fundamentos dos relacionamentos duradouros. Afinal, consentimento, cuidado e diálogo não são meros caprichos modernos, mas condições indispensáveis para reconhecer o outro como sujeito, e não como objeto de condenação.

Não quero, com isso, abolir o juízo moral, mas questionar o moralismo que condena antes mesmo de ouvir. Reconheço que os antigos sábios temiam males concretos, como a exploração, a traição e a destruição dos lares; esse cuidado merece respeito. Entretanto, acredito na dignidade humana e na autonomia responsável. Criticar o moralismo também é assumir uma posição moral, e não fujo dessa responsabilidade. Prefiro uma sabedoria que não se contente em classificar pessoas entre duas portas, mas tenha coragem de atravessar a rua e conhecer quem está do outro lado. Quero descer da janela, abandonar a comodidade de quem apenas observa e me aproximar de quem carrega uma história que desconheço. Afinal, antes de perguntar quem é a mulher da narrativa, preciso perguntar quem ela é, o que viveu e o que farei com o poder que tenho de olhar e julgar. Porque, convenhamos, há uma distância enorme entre enxergar alguém pela janela e reconhecê-lo quando estamos frente a frente.

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