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MINHAS PÉROLAS

sexta-feira, 30 de outubro de 2026

Ensaio Teológico IX(17) O QUE O DESEJO NÃO CABE EM DIZER

 


Ensaio Teológico IX(17) O QUE O DESEJO NÃO CABE EM DIZER

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Quando tinha dezesseis anos, ouvi de um pregador que o corpo era um território inimigo e que a pureza dependia de vigiá-lo. Concordei com a cabeça, mas voltei para casa carregando uma culpa que só muitos anos depois aprendi a questionar. Hoje percebo que me ensinaram a temer o que sentia antes mesmo de me ensinar a compreender meus sentimentos. Afinal, a sexualidade não deve ser tratada como inimiga, tampouco como um território sem limites. Reconheço o valor da fidelidade, da castidade e do compromisso, porque os vínculos afetivos exigem cuidado e responsabilidade; quando rompidos, também deixam suas feridas. O que questiono, portanto, não é a preocupação moral, mas o uso do medo e da vergonha como instrumentos de educação. Uma coisa é ensinar limites; outra, bem diferente, é transformar o corpo numa fonte permanente de culpa.

Essa compreensão ganha outras dimensões quando recorro a Esther Perel, em Inteligência erótica, e a Lisa Diamond, em Sexual Fluidity, que ajudam a compreender a complexidade e os movimentos do desejo humano. David Eagleman, em Incógnito, mostra que nem tudo o que sentimos passa primeiro pelo crivo da consciência. Já Jack Brehm (1966), ao estudar a reatância psicológica, explica como a proibição pode intensificar justamente aquilo que se pretende evitar. Foucault, em História da sexualidade I, também me provoca a pensar em como o discurso sobre o sexo pode se transformar numa ferramenta de poder e controle. Não interpreto essas contribuições como uma defesa de que tudo é permitido ou de que todo desejo seja inofensivo. Pelo contrário, entendo que precisamos distinguir aquilo que sentimos daquilo que escolhemos fazer. É justamente aí que começa a responsabilidade moral.

Entre tantas questões, há um princípio do qual não abro mão: o consentimento. Reconhecer o outro como sujeito, e não como instrumento de satisfação, é condição básica de qualquer relação verdadeiramente humana. Mesmo admitindo, com Judith Butler e Yuval Noah Harari, que nossos valores sofrem a influência das construções sociais e culturais, não vejo nisso motivo para relativizar a dignidade humana. Pelo contrário, encontro respaldo nos estudos de John Gottman, que apontam a amizade, o respeito e a comunicação como fundamentos dos relacionamentos duradouros, em vez da vigilância e do controle. Por isso, defendo uma educação sexual abrangente, fundamentada em evidências, que ensine sobre o corpo, o desejo, a fidelidade, os limites e o compromisso. Quero uma educação que ensine a pensar, não apenas a obedecer; que fale de liberdade sem esconder suas responsabilidades e de moralidade sem fazer da vergonha uma ferramenta pedagógica.

Quando penso naquele rapaz de dezesseis anos, voltando para casa de cabeça baixa, percebo que ele não precisava de uma sentença, mas de orientação, acolhimento e alguém disposto a ouvi-lo. Precisava compreender que sentir é humano, mas que nossas escolhas também alcançam a vida do outro e, por isso mesmo, exigem responsabilidade. Hoje, não defendo uma liberdade sem cuidado, muito menos uma moralidade sustentada pelo medo. Entre o desejo sem limites e a culpa sem compreensão, existe um caminho mais humano: o da consciência, do respeito e da autonomia responsável. É nessa direção que caminho. Afinal, a sabedoria em que acredito não pretende apagar o desejo, mas ensinar a compreendê-lo; não quer aprisionar o corpo, mas lembrar que a liberdade de cada um precisa reconhecer a dignidade de quem caminha ao seu lado.

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