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MINHAS PÉROLAS

sábado, 31 de outubro de 2026

Ensaio Teológico X(1) A MESA E A TELA: A EVOLUÇÃO DAS RELAÇÕES FAMILIARES À LUZ DA RAZÃO E DA FÉ

 


Ensaio Teológico X(1) A MESA E A TELA: A EVOLUÇÃO DAS RELAÇÕES FAMILIARES À LUZ DA RAZÃO E DA FÉ

Por Claudeci Ferreira de Andrade


Ao observar uma família reunida à mesa, percebo que a distância entre pais e filhos nem sempre se mede em metros. Às vezes, cabe entre um prato de comida e uma tela de celular. O pai pensa que a filha não o escuta; ela, por sua vez, sente que ele não a compreende. E os dois, cada qual do seu jeito, têm lá suas razões. O fato é que as relações familiares mudaram. A autoridade já não se sustenta apenas na idade, na tradição ou no velho argumento de que os mais velhos sabem mais. Hoje, precisa ser conquistada também pelo diálogo, pela escuta e, sobretudo, pelo exemplo. Por isso, procuro compreender essas transformações sem jogar fora a sabedoria do passado nem condenar a juventude, aproximando duas fontes de reflexão que nem sempre caminham juntas: a ciência e a fé.

Com Jean Piaget, compreendo que o jovem não é um recipiente vazio à espera dos ensinamentos dos adultos, mas alguém que constrói o próprio conhecimento, confrontando o que já sabe com as experiências que a vida lhe apresenta. Carl Rogers, por outro caminho, também me ajuda a perceber que ninguém floresce sob a pressão constante: o desenvolvimento humano precisa de acolhimento, autenticidade e liberdade. Já Michel Serres, em Polegarzinha, retrata uma geração que carrega o conhecimento no bolso e, não raro, ensina aos próprios pais a lidar com as novidades do mundo. Mas, cá entre nós, informação não é sinônimo de sabedoria. A tela responde a quase tudo, mas nem sempre ensina a fazer as perguntas certas; oferece caminhos, mas não escolhe por nós a direção. É justamente aí que encontro uma reflexão interessante nas Escrituras: Jó 12:12 associa a sabedoria à experiência dos mais velhos, enquanto Jó 32:9 lembra que a idade, por si só, não garante discernimento. Portanto, não vejo a sabedoria como propriedade de uma geração, mas como conquista de quem conserva a humildade de aprender.

Na perspectiva bíblica, encontro uma responsabilidade que não pode ficar nas costas de apenas um dos lados. O quinto mandamento orienta os filhos a honrar pai e mãe (Êxodo 20:12), mas o apóstolo Paulo também adverte os pais a não irritarem os filhos, recomendando que os eduquem com disciplina e orientação (Efésios 6:4). Ou seja, a Bíblia não entrega aos adultos um cheque em branco para exercer autoridade sem limites. Em Lucas 2:46-51, vejo Jesus ainda adolescente no Templo, ouvindo, perguntando e demonstrando autonomia, sem que isso o impedisse de retornar a Nazaré e permanecer submisso aos pais. Mais adiante, em Lucas 15, encontro a figura daquele pai que permite ao filho partir, não o acorrenta à própria vontade, mas também não fecha a porta quando ele vai embora. Permanece à espera. Eis uma lição que considero preciosa: educar não é aprisionar, assim como respeitar não significa obedecer cegamente. Entre a liberdade e a responsabilidade existe um caminho que precisa ser construído a muitas mãos.

Por tudo isso, defendo uma parceria familiar, não um tribunal no qual pais e filhos disputam quem tem razão. Os adultos precisam aprender a escutar antes de julgar, reconhecer que também desconhecem muita coisa e, por que não, aceitar que os filhos podem ensiná-los a lidar com um mundo que já não é o mesmo de sua juventude. Isso não significa abrir mão da autoridade, mas compreender que ela ganha força quando nasce do exemplo, e não da imposição. Aos jovens, por sua vez, cabe entender que liberdade não é fazer tudo o que dá na telha: também exige responsabilidade, gratidão e reconhecimento daqueles que vieram antes e ajudaram a abrir os caminhos. Volto, então, àquela cozinha do começo. Não acredito que a solução esteja em arrancar o celular das mãos da filha, muito menos em o pai cruzar os braços e desistir da conversa. Talvez tudo comece com um gesto simples, mas danado de difícil: baixar a guarda e perguntar ao outro o que está vendo naquela tela. Afinal, entre a mesa e o celular, entre a experiência dos mais velhos e a curiosidade dos mais novos, ainda há espaço para o encontro. E é nesse espaço, feito de escuta, respeito e afeto, que uma família pode se reinventar sem precisar apagar sua própria história.

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