"Se você tem uma missão Deus escreve na vocação"— Luiz Gasparetto

" Não escrevo para convencer, mas para testemunhar."

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MINHAS PÉROLAS

domingo, 30 de maio de 2010

A EDUCAÇÃO É BELA: Para Além da Catarata da Alma ( A beleza está nos olhos de quem a vê)














Crônica


A EDUCAÇÃO É BELA: Para Além da Catarata da Alma ( A beleza está nos olhos de quem a vê)

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Há um tipo de olhar que não se cansa apenas de ver — ele se cansa de viver. São olhos opacos, fatigados, que atravessam o mundo como quem anda por um corredor mal iluminado. E o pior: esse olhar tem o péssimo hábito de matar o entusiasmo diante do que é belo.

Confesso: os meus andavam assim. Até que a medicina — discreta, quase silenciosa — entrou em cena. Depois de duas facectomias bem-sucedidas, algo mudou. Não foi só a visão que clareou; foi o mundo inteiro que pareceu reaparecer. De repente, as formas ganharam contorno, as cores recuperaram sua ousadia, e até as flores — essas velhas companheiras de paisagem — pareciam ter resolvido vestir seus tons mais vivos, como quem diz: “Bem-vindo de volta”.

Falo, claro, da visão física. Do cristalino limpo, das lentes ajustadas, da precisão da cirurgia. Mas cá entre nós: como seria bom se existisse uma operação parecida para o espírito. Uma cirurgia capaz de remover também a catarata da alma — aquela névoa fina que se instala entre nós e o sentido mais profundo das coisas.

Porque ver, no fundo, não é apenas um fenômeno óptico. É um exercício moral. Tem gente que enxerga perfeitamente e, mesmo assim, caminha pela vida como quem tateia num nevoeiro ético. Outros, mesmo em meio às sombras, conseguem perceber o brilho do belo nas miudezas da existência: num gesto gentil, num olhar honesto, numa atitude simples, mas íntegra.

Talvez seja disso que a gente mais precise: destruir essa catarata normativa — essa cegueira branca da rotina que anestesia a sensibilidade e transforma o extraordinário em paisagem banal. Há dias, aliás, em que a vida exige mais do que colírios e lentes corretivas. Exige um verdadeiro transplante de sensibilidade. É preciso reaprender a ver.

Não por acaso, Ensaio sobre a Cegueira, de José Saramago, nos oferece uma das metáforas mais inquietantes da literatura moderna. Ali, quando uma sociedade perde a capacidade de ver, não perde só a visão — perde também a dignidade. Uma cegueira chama outra, e outra, e outra… até que o tecido moral se rasgue por completo.

A beleza, portanto, não se revela sozinha. Ela precisa ser aprendida. E é aqui que entra uma figura curiosa nessa história: o professor. O professor vive cercado de visões possíveis. Convive com juventude, expectativas, inteligências em formação. Sua rotina é quase um laboratório humano, onde ideias, sonhos e frustrações circulam como partículas invisíveis no ar.

Mas fica a pergunta: que tipo de olhar ele devolve ao mundo? Porque um professor pode ter a visão física perfeita e, ainda assim, ser míope diante da vida. Pode acumular diplomas, títulos, homenagens — e continuar espiritualmente rudimentar. Há quem se contente em ser respeitado apenas pelo cargo, como se a função fosse uma lente capaz de corrigir todas as imperfeições da alma.

Mas não é bem assim. A autoridade formal até impressiona. Agora, autoridade moral… ah, essa é outra conversa. Ela nasce da coerência silenciosa entre o que se pensa, o que se diz e o que se faz. E isso, convenhamos, não aparece em exame de vista.

O filósofo Francis Bacon já advertia que “não há beleza perfeita que não contenha algo de estranho em suas proporções”. Talvez seja justamente essa pequena imperfeição que nos salve da superficialidade. A beleza verdadeira nunca é totalmente simétrica; ela guarda sempre uma dobra humana, um desvio sutil que lembra que o essencial não se mede com régua.

Há também o perigo oposto: a beleza que engana. Honoré de Balzac foi certeiro ao ironizar: “quando todo o mundo é corcunda, o belo porte torna-se monstruosidade”. Traduzindo em miúdos: quando a mediocridade vira norma, a virtude passa a parecer exagero. Talvez por isso tanta gente prefira não enxergar demais.

Ver exige responsabilidade. Exige justiça, lealdade, paciência — qualidades que pesam nos ombros e raramente recebem aplausos imediatos. Muito mais fácil é dissolver-se na multidão, seguir o fluxo, aceitar a cegueira coletiva como se fosse apenas mais um detalhe da paisagem. Só que a beleza da vida — silenciosa, discreta — continua ali. Não faz alarde, não levanta a voz, mas tem uma força curiosa: às vezes, basta um gesto verdadeiro para quebrar os cristais mais duros da indiferença.

Hoje, com meus olhos recém-restaurados, percebo algo que antes me escapava: enxergar melhor também é uma responsabilidade. Não quero que essas lentes novas sirvam apenas para admirar o lado de fora das coisas. Seria uma ironia danada recuperar a visão e continuar espiritualmente distraído.

Se existe uma estética realmente confiável, ela atende por um nome simples: educação. Não aquela que se exibe em diplomas ou discursos pomposos, mas a que aparece nos gestos miúdos — na forma de tratar o outro, de ouvir, de discordar sem desrespeitar, de conviver. Porque, no fim das contas, é isso que torna alguém verdadeiramente bonito.

A educação. Essa, sim, é a forma mais luminosa de beleza que os olhos humanos podem aprender a reconhecer.


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Como professor, vejo aqui um prato cheio para discutirmos como a nossa percepção do mundo não é apenas "biológica", mas construída socialmente por meio da cultura, da ética e das instituições, como a escola. Preparei cinco questões que conectam as metáforas do texto com conceitos fundamentais da Sociologia, ideais para provocar o pensamento crítico dos alunos do Ensino Médio.

1. A "Catarata da Alma" e a Naturalização do Social

O texto menciona uma "catarata normativa" — uma cegueira causada pela rotina que torna o extraordinário em algo banal. Na sociologia, chamamos de naturalização o hábito de aceitar as coisas como elas são, sem questionar.

Pergunta: De que maneira o "transplante de sensibilidade" sugerido no texto pode ajudar um cidadão a desnaturalizar as injustiças do cotidiano?

2. Visão e Tecido Moral em Saramago

O autor cita a obra Ensaio sobre a Cegueira, de José Saramago, afirmando que quando uma sociedade perde a capacidade de ver, ela perde sua dignidade e o "tecido moral se rasga".

Pergunta: Como a indiferença (o "não querer ver") pode afetar a solidariedade entre os indivíduos em uma sociedade urbana e acelerada como a nossa?

3. Autoridade Formal vs. Autoridade Moral

O texto diferencia o professor que tem títulos e cargos (autoridade formal) daquele que possui coerência entre o que pensa e o que faz (autoridade moral).

Pergunta: No contexto da escola como uma instituição social, por que a "autoridade moral" é mais eficaz para a transmissão de valores do que apenas o uso do poder hierárquico?

4. A Estética da Educação e a Alteridade

Ao final, o texto define a educação como a forma mais luminosa de beleza, expressa na maneira de ouvir e tratar o outro. Em sociologia, o reconhecimento do "outro" é chamado de alteridade.

Pergunta: Segundo o texto, por que possuir diplomas não é garantia de que uma pessoa seja "educada" no sentido pleno e social da palavra?

5. A Tirania da Maioria e a Mediocridade

A frase de Balzac citada no texto sugere que, em uma sociedade de "corcundas", quem tem bom porte é visto como um monstro. Isso nos lembra a pressão social para o conformismo.

Pergunta: Como a pressão do grupo (a "cegueira coletiva") pode impedir que um indivíduo tome atitudes éticas ou inovadoras dentro de uma comunidade?

Sugestão de Atividade Complementar:

Professor(a), que tal pedir para os alunos produzirem um pequeno parágrafo sobre qual "catarata" eles acham que a nossa sociedade atual precisa operar com mais urgência? (Ex: a catarata do preconceito, da desigualdade ou do egoísmo digital).


domingo, 16 de maio de 2010

A ÉTICA DO PURGATÓRIO (Os pais são os maiores antiéticos, mentem fingindo acreditar na mentira da escola.)












Crônica

A ÉTICA DO PURGATÓRIO (Os pais são os maiores antiéticos, mentem fingindo acreditar na mentira da escola.)

domingo, 16 de maio de 2010
Por Claudeci Ferreira de Andrade
           
 Qualquer discussão sobre ética e profissionalismo deveria interessar a toda comunidade escolar (interna e externa), e em especial aos indivíduos mais esclarecidos, os que têm condições de confrontar os documentos tendenciosos vindos das instâncias maiores, porque são poderosos. Acreditar em citações infundadas é coisa de criança. Quando éramos crianças, tinha de ser dito o nosso dever, digo ao referente às boas maneiras. Havendo crescido num lar ético e educado, não é preciso que se no-lo diga novamente. O assunto em voga aqui é se nossa obediência constitui uma expressão da ética advinda do conhecimento de causa ou da mera subjugação ao poder. Pois, na educação é assim, é dito o conveniente, se é importante no momento! Vale tudo a salvação de quem tem poder, ignora-se o certo, e o desconhecimento do receptor favorece a subjugação. E por falar em conveniência, não podemos esquecer de que no atual sistema, os bons ficam ruins e os ruins nunca ficam bons. Para prevalecer me fiz ruim, acomodei-me, sim, apenas queria evitar indisposição com os que me cercavam. Eu nunca soube me importar com os orgulhosos demais, chamando-me de incompetente. Com o tempo, contaminar-se-ão também. Assim brincamos na gangorra profissional do professorado público sem a qualidade esperada. Às vezes, tenho me calado com um sufoco na garganta porque a maioria maltrata o inconveniente, ou melhor, conquista com unhas e dentes, violentamente, o favorável para si.
          Cá no corpo docente, quando alguém sai do meio dos amigos, é eleito para coordenador ou diretor, esse promove a si mesmo uma mudança de relacionamento. Circunda-se de uma nova atmosfera de recíprocas obrigações, pelo menos, em parte, deveria ser assim. Mas, a maioria dos diretores escolares eleitos torna-se corpo estranho na equipe. Alguns se tornam novas pessoas, porém desconhecidas, entram num novo tipo de vida, isto é, uma vida independente, sem preocupação com o bem-estar, com a segurança e com a integridade dos outros, outrora colegas íntimos.
          E mais para cá, no meio dos subalternos,  nossa relação com os líderes não deve ser assegurada num ambiente de desonestidade, perseguição, desordem, ódio e hostilidade. Isso não funciona nem mesmo no Purgatório!  Obediência em base legal é simplesmente a viabilização da ética...
           Agora compreendo por que algumas autoridades do meio educacional querem abolir a eleição direta para diretor escolar, pelo menos, se não for ético é coerente. Você prefere ser subjugado por um chefe, chefe imposto e indicado ou desconsiderado por um "amigo", alguém em quem votou porque confiava e depositava credibilidade? Não seria mais ético se  talvez tivéssemos diretores por formação e concursado ao cargo? Só assim, eles teriam tempo suficiente para aprender a trabalhar com mais ética. Apesar da fala do Albert Einstein: "Especialista é alguém que lhe diz uma coisa simples, de maneira confusa, de tal forma a fazer você pensar que a confusão é culpa sua". A maior tragédia de um professor comum eleito à direção contecerá depois do mandato, terá que voltar ao meio dos colegas “mortos e feridos”, no pós-guerra! Os sábios pensarão mais nesta frase do comentário de capa do filme "Detenção": "Dê a um homem um pouco de poder e ele comete coisas inesperadas. Tire de um homem seu orgulho e sua humanidade e ele acaba fazendo coisas piores!"
           A ética do purgatório é esta: Um aluno com onze anos de idade pode votar, escolhendo seu diretor escolar, mas não pode resolver sua vida estudantil na escola sozinho. E o pai vota no candidato à direção que o filho sugerir. O aluno de menor não podendo receber nem mesmo o seu próprio boletim, traz o pai desenformado,  e ele nem sabe qual é a série e a sala do filho, e também motivado por ele vota no candidato simpático a família! Os pais são os maiores antiéticos que já conheci no mundo da educação, mentem fingindo acreditar na mentira da escola. 
Claudeko
Publicado no Recanto das Letras em 16/05/2010
Código do texto: T2259983

Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, desde que seja dado crédito ao autor original (autoria de Claudeci Ferreira de Andrade,http://claudeko-claudeko.blogspot.com). Você não pode fazer uso comercial desta obra. Você não pode criar obras derivadas.

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31/08/2010 21:00 - Miralva Viana
Olá!Claudeko, Penso que o diretor não deveria agir assim. Entretanto, os colegas também se afastam, o cargo se torna um castigo. Perde-se a cumplicidade, o bate papo legal, os segredos e as risadas. Precisa-se mudar as mentalidades. O diretor precisa de parceria, apoio e ter jogo de cintura. Abraços!


16/05/2010 15:48 - RONALDO JOSÉ DE ALMEIDA
Muito bom, Claudeko! Gostei muito.


16/05/2010 09:20 - Mazé Carvalho
Caro senador, Ética, para muitos, é palavra riscada do vocabulário, demodê.Para tantos outros, palavra desconhecida.Todas as pessoas "deveriam" possuir senso ético para,assim, avaliar e julgar suas ações.A ética está relacionada a postura que cada um assume diante da vida. Deveria permear as relações dentro de um grupo como indicador de limites em relação as nossas responsabilidades e as nossas limitações. Cá pra nós, senso ético é algo que, definitivamente, não faz parte do cárater de muitos.Parabéns pelo texto. Bjs recheadinhos de carinho. Mazé

sábado, 8 de maio de 2010

MOTIVEMO-NOS UNS AOS OUTROS (Motivação profissional exemplar é a de uma prostituta; recebe um bom salário para gozar! )



Crônica

MOTIVEMO-NOS UNS AOS OUTROS (Motivação profissional exemplar é a de uma prostituta; recebe um bom salário para gozar! )

sábado, 8 de maio de 2010
Por Claudeci Ferreira de Andrade

            Sem motivação não podemos aumentar as atividades da Unidade Escolar. Sem motivação não podemos impressionar a comunidade com crescimento.
            Acho ideal nos motivarmos uns aos outros com a maravilhosa dádiva de um bom relacionamento, já que nossos líderes políticos não têm recursos motivadores, pois deviam tentar com promessas reais e menos oníricas. Motivar-nos como eles querem praticamente está muito além de nossas condições profissional e humana: exigem sempre horas extras não remuneradas. Depois, dizem: — "vocês não querem ser motivados". Quem não quer um bom motivo para ser útil? Nesse caso, louvado sejam as prostitutas ganhadoras de um bom salário, gozando na vida! Por isso, é o trabalho de maior expansão espacial e temporal. Disse Bruna Surfistinha: "Não há coisa melhor do que ganhar dinheiro para gozar."  (Pacheco, Raquel (Bruna Surfistinha); O que aprendi com Bruna Surfistinha - Lições de uma vida nada fácil; 1ª edição, editora Panda Books; 2006; Pág.182).
            A motivação vem de alguém motivado, não de atores com máscaras bonitas. Porque elas sempre caem! A motivação de um é sempre a fonte da motivação do outro. Mas, um precisa ser o primeiro! Temos a capacidade de motivar o outro, sim, até ao mesmo grau em que temos incentivos concretos e vantajosos nos permitindo verdadeiramente se motivar e motivar o outro, dividindo as vantagens.
            Para um funcionário público de muitos anos na educação, o seu melhor é apenas sua “obrigação”, ou o que ele tem prazer em fazer. Ele não pode fazer o excedente, o emocionalmente estressante, o de pouca atração e sem recompensa extra. Se o obrigarem, como disse, tudo isso estará praticamente além de suas forças. E, também, não adianta nossos chefes nos ordenarem isto ou aquilo, baseados apenas em normas e responsabilidades de todo mundo. No caso da escola, há coordenador pedagógico utilizando-se de direitos e imperativos, impondo-se, sobrecarregando sua equipe, obrigando assim os professores a trabalhar sem razão, produzindo uma papelada sem fim, dessa forma não sobra espaço para motivação, depois quando ele tenta se aproximar, querendo contar com a ajuda dos mesmos, eles se escoram, por não haver uma relação de confiança e cumplicidade, mas de "ferração": "cabo de guerra".   
           A lei do menor esforço é real e prática do ser humano em todos os setores, e só as vantagens e propinas podem quebrá-la. Não precisamos da ajuda de ninguém, se usamos um vestuário adequado, pois nossa aceitação pessoal depende da boa aparência. Não precisamos de motivação maior ao nos alimentarmos bem se temos a saúde como lucro.
            Qual espécie de influência e de quem a queremos se ninguém se importa com nossos problemas pessoais? Os problemas da vida nos motivam erroneamente à direção do alívio. Se os patrões entendessem isso se preocupariam mais com a boa motivação, aquela geradora de prosperidade tanto no líder, bem como no liderado. Do contrário, a má motivação tem a poderosa força da inércia como energia: estagnação.
            Como nos tornarmos funcionários produtivos e felizes  sem a sã motivação,  que, ainda, é dom de Deus? É fruto de um espírito altruísta! Sem falar da automotivação, esse veneno, ou melhor, o combustível daqueles de visão unilateral, focados no fim último. Não sei se é coerente, mas vou arriscar terminar esta crônica filosófica com o pensamento de  Paul Valéry: "Um homem sério tem poucas ideias. Um homem de ideias nunca é sério."  Por ventura, alguém vai me levar a sério! Se não, não precisarei dessa falsa motivação para ser um  grande professor.
Claudeko
Publicado no Recanto das Letras em 08/05/2010
Código do texto: T2244108

Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, desde que seja dado crédito ao autor original (autoria de Claudeci Ferreira de Andrade,http://claudeko-claudeko.blogspot.com). Você não pode fazer uso comercial desta obra. Você não pode criar obras derivadas.

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domingo, 2 de maio de 2010

SEGURANÇA NO AMOR DE MÂE (Homenagem à minha mãe: Maria José Ferreira de Andrade)




Homenagem

SEGURANÇA NO AMOR DE MÂE (Homenagem à minha mãe: Maria José Ferreira de Andrade)


Por Claudeci Ferreira de Andrade

Era uma tarde de maio, o aroma de bolinhos fritos pairava no ar, despertando lembranças adormecidas em meu coração. Sentado à mesa da cozinha, onde tantas vezes vi minha mãe preparar aquelas delícias, fui transportado no tempo, revivendo momentos que moldaram minha essência.

Maria José Ferreira de Andrade, minha mãe, carregava em seu nome a essência da Sagrada Família. Como seu nome predestinava, ela foi meu porto seguro, uma manjedoura acolhedora em meio às tempestades da vida. Seu amor era um fogo inextinguível, que aquecia minha alma mesmo nos dias mais frios de minha rebeldia juvenil.

Ainda menino, ela me ensinou as primeiras lições sobre trabalho e honestidade. Com seus bolinhos fritos, que eu vendia na porta da escola, aprendi o valor do esforço e da perseverança. Cada moeda que tilintava em minha mão era um testemunho silencioso de seu amor traduzido em atos concretos.

Seu amor me ofereceu não apenas uma segunda chance, mas inúmeras. Em seus olhos, eu era sempre aquele menininho que precisava de mais uma oportunidade para acertar. Mesmo quando minhas palavras a feriam ou meu comportamento me tornava indigno de seu afeto, ela permanecia firme, suas brasas de amor ardendo sobre minha cabeça rebelde.

Seus castigos e repreensões, que na época pareciam injustos, hoje entendo como expressões de um amor que desejava me ver trilhar o caminho do bem. Como um habilidoso ferreiro, ela usava o calor de seu amor e a firmeza de sua disciplina para moldar meu caráter, consertando com ferro e madeira as falhas de minha personalidade em formação.

Com o tempo, compreendi que ninguém, a não ser eu mesmo, poderia me separar do coração de minha mãe. Seu cheiro, seus cuidados, seu olhar - tudo isso era um chamado constante para que eu retornasse ao lar, como o filho pródigo que finalmente entende o valor do amor incondicional.

Num dia como qualquer outro, ela partiu. A despedida eterna que nunca aceitei completamente. Como poderia? Seu amor parecia tão vasto, tão eterno, que a ideia de sua ausência era inconcebível. Mas descobri que o amor de mãe transcende a presença física. Ele vive em mim, nas lembranças, nos ensinamentos, nas energias etéreas que sinto quando mais preciso de conforto.

Hoje, no segundo domingo de maio, dia oficialmente dedicado às mães desde 1932 por decreto de Getúlio Vargas, reflito sobre essa corrente viva de amor que nasce no íntimo de Deus e chega até nós. Penso em minha mãe e sei que, de alguma forma, ela também pensa em mim. Nosso elo é eterno, inesgotável, fluindo para sempre de onde quer que ela esteja.

Vivo cada dia tentando honrar seu legado, absorvendo suas energias e vivendo da maneira que sei que a faria sorrir. Pois entendi, finalmente, que o amor de mãe é uma força que nem mesmo a morte pode apagar. Ele continua, vivo e pulsante, em cada ato de bondade, em cada lembrança doce, em cada bolinho frito que ainda faço, mantendo viva a chama de seu amor eterno.

E você, caro leitor, como mantém viva a chama do amor de sua mãe? Pois saiba que, assim como em minha experiência, o amor dela por você é eterno, transcendendo tempo e espaço, sempre pronto para aquecer seu coração nos momentos em que mais precisar.

Duas questões discursivas sobre o texto:

1. O texto apresenta uma visão profunda sobre o amor materno. De acordo com o autor, quais são as características mais marcantes desse amor e como ele influencia a formação da identidade de um indivíduo?

Esta questão convida os alunos a refletirem sobre a complexidade do amor materno, suas diferentes manifestações e o impacto que ele exerce na construção da personalidade.

2. O autor utiliza diversas metáforas para descrever o amor materno. Analise essas metáforas e explique como elas contribuem para a compreensão da profundidade e complexidade desse sentimento.

Esta questão estimula os alunos a analisarem a linguagem figurada utilizada no texto e a refletirem sobre como as metáforas podem enriquecer a nossa compreensão de experiências emocionais complexas.

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sábado, 1 de maio de 2010

OS FEIOS SE AMAM IGUALMENTE ("Deixemos as mulheres bonitas aos homens sem imaginação." Marcel Proust .)






Crônica

OS FEIOS SE AMAM IGUALMENTE("Deixemos as mulheres bonitas aos homens sem imaginação."
Marcel Proust 
.)

Por Claudeci Ferreira de Andrade

          Eu gosto de mulheres feias, pobres, baixinhas e magras; são rejeitadas e carentes, assim tenho ajudado quem precisa realmente de carinho e atenção. Se "pego" alguma "bonitona" é a gratidão de Deus sorrindo para mim, por eu motivar à vida aquelas de quem já lhe tiraram a esperança. Aliás, toda mulher deitada gozando é linda! As sábias sabem se deitar criativamente, elas não se vulgarizam, medindo cada benefício trocado. Aprendi com Charles Darwin que na história da humanidade (e dos animais também) aqueles que aprenderam a colaborar e improvisar foram os que prevaleceram. Por isso, acredito também em Marcel Proust quando diz: "Deixemos as mulheres bonitas aos homens sem imaginação". E digo também, ou aos que querem procriar, há quem pense em "Raça Ariana".
          As que se fazem feias vingam-se, ignorando os comuns. Querem homens bonitos também! Mas, recebem como consequência a concretização das palavras de Marcel Proust: "A mulher que amamos só poucas vezes satisfaz as nossas necessidades, pelo que lhe somos infiéis com a mulher que não amamos."
         Dói mais a "patada" de uma mulher feia do que a indiferença das beldades! Porque fere a alma, pois quando um homem comum se dirige a uma mulher feia, põe a alma na frente, com os mais nobres sentimentos. Essas pessoas com as quais a natureza foi cruel demais, sempre descontam em quem está próximo. Não basta uma feiura levar a outras formas de ser feio, querem pisar. Explicando melhor, não gosto da feiura, mas amo as portadoras de traços físicos não padronizados. Para mim importa mesmo é a saúde física, mental e espiritual. E a eficiência no proceder é  mais do que qualquer plástica! Eu quero simplesmente uma mulher com a compostura de Clarice Lispector: "A feiura é o meu estandarte de guerra. Eu amo o feio com um amor de igual para igual". A humildade ornamenta o interior de uma mulher: "A beleza de vocês não deve estar nos enfeites exteriores, como cabelos trançados e joias de ouro ou roupas finas. Ao contrário, esteja no ser interior, que não perece, beleza demonstrada num espírito dócil e tranquilo, o que é de grande valor para Deus." (I pd 3:3,4). 
          Ou seja, mulher feia, assim, é lindo, eu a quero! Ser feio não dói, pois não sofro tanto! Agora, tornar-se feio(a) é dolorido, nojento e fétido; abominável. É como disse o sábio Salomão: " Há quatro coisas que a terra não pode tolerar: (...)a mulher de mau gênio que arranja casamento; (...) (Pv. 30:21,23 NTLH).
Claudeko
Publicado no Recanto das Letras em 16/03/2010
Código do texto: T2142417


Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, desde que seja dado crédito ao autor original (autoria de Claudeci Ferreira de Andrade,http://claudeko-claudeko.blogspot.com). Você não pode fazer uso comercial desta obra. Você não pode criar obras derivadas.

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09/04/2010 22:31 - ALEXANDRE MOHOR
realmente quebrar o sentido lógico buscando a lógica onde a multidão não acha é um meio de se adaptar com novas aptidões e, por isso, sobreviver... Charles tinha razão... e toda mulher deitada gozando é linda mesmo...


16/03/2010 21:28 - ZORA
Ola rapaz,gostei do seu texto dei umas risadinhas BEM LEGAL...Recordei de meu irmão que dizia: "Quando me ve com MULHER feia ,pode separar que é briga" Gostei também de saber que somos vizinhos! Goiania a Senador Canedo é um pulo ,AINDA MAIS QUANDO SE TRATA DE POeTAS e POETISAS..KIAKIAK Espero desde já nos tornarmos amigos...visite meu cantinho do pensar..Ficarei grata...



quarta-feira, 21 de abril de 2010

Desiludido pela Tradição: A Crise das Instituições e dos Papéis Sociais (Filhos de Deus, irmãos de ninguém!)

    

Crônica

Desiludido pela Tradição: A Crise das Instituições e dos Papéis Sociais (Filhos de Deus, irmãos de ninguém!)

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Assisti ao filme A Virada, de Alex Kendrick, e confesso: saí tocado por um desejo quase ingênuo de ser melhor — melhor funcionário, melhor cristão, melhor pai. Esse tipo de filme tem esse poder raro: por alguns instantes, parece reorganizar o mundo moral dentro de nós. Mas a empolgação inicial logo deu lugar a uma pergunta mais incômoda: por que, apesar de tantos discursos edificantes, tantas instituições continuam produzindo frustração, fracasso e desencanto?

Foi então que pensei na Educação Pública, na Igreja e na Família — pilares que todos juram defender, mas que muitos sustentam-se apenas pela aparência. São estruturas veneradas no discurso, porém esvaziadas na prática. Mantêm-se de pé como fachadas bem pintadas: por fora, respeitáveis; por dentro, ocas. Acreditamos que estão vivas porque ainda funcionam burocraticamente, quando, na verdade, sobrevivem de simulacros e de uma fé cega em sua própria importância histórica.

O problema se agrava quando a confusão conceitual vira método. Nas instituições que deveriam formar e educar, passou-se a tomar a parte pelo todo: o aluno, o fiel ou o membro que gera verba é elevado à condição de “patrão”, enquanto o sistema se curva para agradá-lo. A metonímia, aqui, não é recurso estilístico — é um erro estrutural. A escola deixa de formar para reter; a igreja deixa de orientar para não perder fiéis; a família terceiriza sua responsabilidade moral. O resultado é um pacto silencioso de mediocridade.

Lembro-me, então, da advertência atribuída a Salomão: “Há quatro coisas que a terra não pode tolerar: o escravo que se torna rei; o tolo que se farta; a mulher de gênio difícil que se casa; e a serva que toma o lugar de sua senhora” (Pv 30:21-23). Não se trata de elitismo moral, mas de ordem simbólica: quando papéis se confundem, instala-se o caos. O discípulo deixa de ser discípulo, o educador deixa de educar, e a formação técnica — que deveria ser o mínimo — dissolve-se em concessões.

É repugnante, por exemplo, responsabilizar o professor pela ausência de caráter do aluno quando essa desmoralização foi aprendida no lar. À escola cabe instruir; à família, formar; à sociedade, garantir critérios justos de reconhecimento. Quando tudo se mistura, ninguém responde por nada.

Também é uma ilusão perigosa acreditar que a religião, por si só, transforma personalidades. Se assim fosse, o indivíduo perderia sua identidade, esqueceria sua história familiar e substituiria o caráter por slogans espirituais. Não é raro ver, sob o rótulo da fé, pessoas intolerantes, alunos descompromissados, sujeitos difíceis de convivência — reivindicando direitos “conquistados pela fé”, mas esquecidos de qualquer dever. Filhos de Deus, irmãos de ninguém.

A estes, a advertência permanece atual e incômoda: fé sem obras é morta. Não porque falte crença, mas porque sobra encenação. Instituições não se salvam por discursos, e pessoas não se transformam por pertencimento simbólico. Quando a honestidade deixa de ser prática cotidiana e vira apenas linguagem institucional, o colapso já aconteceu — só ainda não foi oficialmente reconhecido.

Talvez a verdadeira virada não esteja no cinema nem nos púlpitos, mas na coragem de desmontar fachadas, devolver responsabilidades a quem de direito e aceitar que nenhuma instituição sobreviverá se continuar confundindo aparência com vida.


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Como seu professor de Sociologia, trago hoje uma proposta de reflexão sobre as nossas Instituições Sociais. O texto que acabamos de ler é uma provocação necessária sobre o "vazio" que muitas vezes se esconde por trás de estruturas que consideramos sólidas, como a Escola, a Família e a Igreja. Na sociologia, estudamos que as instituições servem para organizar a vida em sociedade e transmitir valores. Mas o que acontece quando elas viram apenas "fachadas"? Aqui estão 5 questões para exercitarmos nossa análise crítica:


1. Instituições como "Fachadas". O autor afirma que muitas instituições (Escola, Igreja, Família) mantêm-se de pé apenas pela aparência e pela burocracia, sendo "veneradas no discurso, porém esvaziadas na prática". Questão: Explique, com suas palavras, o que significa dizer que uma instituição social sobrevive apenas como um "simulacro". Como essa falta de conteúdo real afeta a confiança dos indivíduos na sociedade?

2. Socialização Primária vs. Socialização Secundária. O texto destaca que é "repugnante responsabilizar o professor pela ausência de caráter do aluno quando essa desmoralização foi aprendida no lar". Questão: Diferencie o papel da Família (Socialização Primária) do papel da Escola (Socialização Secundária) na formação do indivíduo, conforme discutido no texto. O que acontece com a sociedade quando essas responsabilidades são "terceirizadas" ou misturadas?

3. A Transformação do Indivíduo em "Cliente". O autor menciona que o aluno ou o fiel passou a ser tratado como um "patrão" que o sistema busca agradar para não perder a verba ou o membro. Questão: De que maneira a lógica do consumismo (tratar tudo como mercadoria) prejudica a função educativa e moral das instituições sociais? Por que o ato de "querer agradar" pode levar a um "pacto de mediocridade"?

4. Conflito e Confusão de Papéis Sociais. O texto cita um provérbio sobre o "caos" que se instala quando os papéis se confundem (o discípulo que não é discípulo, o educador que não educa). Questão: Na sociologia, cada indivíduo ocupa um status e desempenha um papel social. Por que a clareza sobre "quem deve fazer o quê" é importante para o equilíbrio de uma comunidade? Quais as consequências sociais quando o educador deixa de exercer sua autoridade pedagógica para não desagradar o aluno?

5. Ética do Discurso vs. Ética da Ação. A crônica termina afirmando que "fé sem obras é morta" e que pessoas não se transformam apenas por "pertencimento simbólico". Questão: Como a desarticulação entre o que se diz (discurso institucional) e o que se faz (prática cotidiana) contribui para o que o autor chama de "colapso" das instituições? Dê um exemplo de como a honestidade prática vale mais para a sociedade do que um rótulo ou slogan.

Dica do Prof: Para responder a essas perguntas, pensem na realidade que vocês observam ao redor. A sociologia não está apenas nos livros; ela está no modo como nos comportamos no pátio, em casa e em nossas crenças.

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PAIXÃO, CLAUDEKO! (Às vezes o homem prefere o sofrimento à paixão — Fiódor Dostoiévski)

               

Apelo


PAIXÃO, CLAUDEKO! (Às vezes o homem prefere o sofrimento à paixão — Fiódor Dostoiévski)

quarta-feira, 21 de abril de 2010
Por Claudeci Ferreira de Andrade

          Ninguém nasce para ninguém, porque são as circunstâncias as unidoras de uns nos outros, porém há aquelas que são temporárias, outras são eternamente; uns firmemente mais que outros! Apenas sei de mim.
           Vá, minha Musa inspiradora, por aonde for e até por caminhos tortuosos, eu lhe espero; nossos caminhos são circulares e quando me encontrar de novo, se ainda restar fôlego em mim, aceito os restos de si. Minha "filha pródiga", talvez devesse agora me chamar Vânio ou Vanuso, pois tenho tudo a ver com a esperança doentia que não sara.
          Quem sabe, queira ser convencida de meus desejos, cativada por um bom cavalheiro, ou ainda um joguinho, um charme que seja! É só abrir o coração e ver, já estou em meu limite, e se é pouco, some com o seu, todo restante para me doar: compreensão! Ou vai querer me ver o tempo todo nessa vidinha vegetativa por escolha! Quer queira ou não, se não agora, quando morrer serei a eterna vítima de seus caprichos, morri de saudade e apenas servirei de adubo no jardim da vizinha pois não saio daqui.
Claudeko
Publicado no Recanto das Letras em 21/04/2010
Código do texto: T2209846


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