"Se você tem uma missão Deus escreve na vocação"— Luiz Gasparetto

" Não escrevo para convencer, mas para testemunhar."

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MINHAS PÉROLAS

quinta-feira, 13 de julho de 2023

ANTOLOGIA DE CRÔNICAS REFLEXIVAS À LUZ DA SÃ CONSCIÊNCIA — Crônica (50): O Destino dos Mordomos Divinos.

 


ANTOLOGIA DE CRÔNICAS REFLEXIVAS À LUZ DA SÃ CONSCIÊNCIA — Crônica (50): O Destino dos Mordomos Divinos.

Em março de 1979, ainda molhado pelas águas do tanque batismal da Igreja Adventista do Sétimo Dia, eu me fazia uma pergunta que ninguém ao meu redor parecia disposto a fazer. Jesus havia dito: "Ide e fazei que todas as nações se tornem discípulos." Era uma ordem simples, direta, sem intermediários, sem organogramas, sem camadas administrativas. E ali estava eu, recém-batizado, observando aquela congregação com seus departamentos, sua tesouraria, sua engrenagem de associações, missões, uniões e divisões. Quanto mais eu olhava, mais uma dúvida insistia em bater à porta da consciência: será que era isso que Ele estava pedindo?

A resposta nunca veio — pelo menos não oficialmente. Com o passar dos anos, aprendi que certas perguntas não são respondidas; são desviadas. Algumas são diluídas em reuniões e comissões. Outras desaparecem sob relatórios, regulamentos e procedimentos. E há aquelas que simplesmente são recebidas com um sorriso cordial, daqueles que dizem tudo sem dizer nada, porque o sistema costuma sobreviver melhor quando não precisa enfrentá-las.

Mas, a pergunta não foi embora. Ela me acompanhou ao longo das décadas, silenciosa e persistente, como uma pedra no sapato da consciência. Nesse tempo, observei o destino de muitos mordomos que tentaram usar seus recursos diretamente na missão, sem a mediação da tesouraria, sem a chancela da estrutura competente, sem aguardar autorização para fazer o bem.

Vi Gilberto receber uma carta oficial informando que sua iniciativa precisava ser coordenada pela estrutura competente. Vi talentos permanecerem engavetados à espera de aprovações que jamais chegaram. Vi recursos preciosos serem depositados em arcas institucionais que os consumiam em manutenção administrativa, enquanto a missão que deveriam sustentar enfraquecia do lado de fora.

E, talvez mais inquietante do que tudo isso, ouvi repetidas vezes uma frase que a estrutura ensinou os fiéis a repetir quase como uma absolvição preventiva: "Eu fiz minha parte. O que fazem com isso não é minha responsabilidade." Toda vez que escutava essas palavras, não conseguia evitar a lembrança do servo mau e preguiçoso da parábola dos talentos. Ele também se apresentou diante do senhor com algo parecido: Aqui está o que era seu. Guardei. Devolvo intacto. Não multiplicou. Não serviu. Não arriscou. Não produziu fruto. Apenas preservou.

E foi justamente pela preservação que recebeu condenação. Ao longo destas cinquenta crônicas, aprendi a ouvir uma voz diferente. Não a voz da estrutura. Não a voz dos manuais. Muito menos a voz dos regulamentos. Refiro-me àquela voz mais discreta e, ao mesmo tempo, mais exigente, que fala diretamente à consciência e lembra que o acerto de contas final não será feito com a tesouraria. Será feito com cada um de nós. Individualmente. Sem procurações. Sem representantes legais. Sem a possibilidade de transferir responsabilidades.

Quarenta e poucos anos depois daquela tarde de março, finalmente consigo responder à pergunta que fiz enquanto ainda escorriam as águas do batismo. Não. Jesus não estava pedindo a construção de uma empresa religiosa administrada por presidentes, diretorias e redes de comunicação destinadas a comercializar Sua graça. O que Ele pediu foram discípulos. Pessoas dispostas a ir, não instituições encarregadas de administrar quem vai. E essa diferença, embora pareça sutil à primeira vista, é gigantesca. É a distância que separa o movimento da engrenagem, a chama do castiçal, o Evangelho da máquina que pretende administrá-lo.

Eu não saí da fé. Saí da ilusão de que a fé precisava de CNPJ para existir. E o que encontrei do lado de fora foi surpreendente. Em calçadas anônimas, em garagens improvisadas, em tanques batismais de congregações sem placa, em visitas discretas de quintas-feiras a apartamentos de um único cômodo, encontrei algo que, de forma consistente, se parecia muito mais com o mandato original de Cristo do que inúmeras reuniões de comissão das quais participei ao longo da vida.

Ali, longe dos holofotes institucionais, o Evangelho continuava respirando. Continuava andando. Continuava alcançando pessoas. Foi então que as palavras do Mestre passaram a fazer ainda mais sentido: "Muito bem, servo bom e fiel. Sobre o pouco foste fiel, sobre o muito te porei." E o pouco, afinal, não é o valor do cheque. Não é o tamanho da doação. Não é a dimensão da estrutura. O pouco é aquilo que estava ao alcance das mãos: o gesto feito na hora certa, a ajuda oferecida quando ninguém estava olhando, o recurso colocado a serviço da missão sem esperar autorização, aplausos ou reconhecimento.

No fim das contas, é essa a prestação de contas que realmente importa. A única que ninguém poderá delegar. A única diante da qual todos compareceremos. E a única cujo resultado atravessa a eternidade.

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