"Se você tem uma missão Deus escreve na vocação"— Luiz Gasparetto

" Não escrevo para convencer, mas para testemunhar."

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MINHAS PÉROLAS

sexta-feira, 14 de julho de 2023

ANTOLOGIA DE CRÔNICAS REFLEXIVAS À LUZ DA SÃ CONSCIÊNCIA — Crônica (55): O Peso dos Projetos Fantasmas.

 


ANTOLOGIA DE CRÔNICAS REFLEXIVAS À LUZ DA SÃ CONSCIÊNCIA — Crônica (55): O Peso dos Projetos Fantasmas.

Houve uma campanha chamada Projeto Luz nas Nações. Lembro bem do nome. Era bom. Daqueles nomes grandiosos, feitos sob medida para despertar no fiel a sensação de que ele está participando de algo maior do que a própria vida. Durante meses, o projeto ocupou todos os espaços: cartazes espalhados pelo saguão da igreja, apelos emocionados nos cultos, envelopes especiais com o logotipo cuidadosamente impresso. A meta era nobre e ambiciosa: financiar o trabalho missionário em regiões remotas, levar o Evangelho a lugares onde, supostamente, ele ainda não havia chegado.

Eu contribuí. Muita gente contribuiu. Os envelopes circulavam com uma regularidade quase litúrgica. Dois anos depois, perguntei a um ancião da congregação o que havia acontecido com o projeto. Como tinha sido o resultado. Ele me olhou com aquela expressão desconfortável de quem ouviu a pergunta, mas preferia que ela nunca tivesse sido feita. — Ficou com a Associação — disse, por fim. — Para uso geral.

Uso geral. Duas palavras aparentemente inofensivas, mas capazes de engolir uma promessa inteira. Na prática, significavam que o dinheiro entrou no fundo comum e se dissolveu na manutenção administrativa de uma estrutura que já existia antes da campanha e continuou existindo depois dela. Nenhuma região remota viu missionários chegando com o nome do Projeto Luz nas Nações estampado em suas malas. Nenhuma história retornou para testemunhar que a promessa havia encontrado seu destino. O dinheiro de Deus ficou de braços cruzados. Não por falta de necessidade, mas porque havia uma tesouraria entre a doação e o destinatário — e a tesouraria tinha outras prioridades.

Projetos fantasmas não são, necessariamente, fraudes declaradas. Talvez sejam algo mais sutil e, justamente por isso, mais difícil de identificar. São iniciativas de nomes inspiradores, arrecadações volumosas e resultados invisíveis. Projetos que cumprem perfeitamente a função de mobilizar recursos sem jamais produzir o rastro humano que justificaria essa mobilização. Eles têm utilidade dentro do sistema. Mantêm o fiel engajado na prática de doar sem que ele precise saber, de fato, para onde vai aquilo que doa. A campanha torna-se o produto. O sentimento de participação é o que se comercializa. Enquanto isso, o destino real dos recursos é administrativo, funcional e discretamente diferente daquele anunciado pelo cartaz pendurado na parede.

Jesus descreveu esse tipo de operador com uma precisão desconcertante: "O empregado foge porque trabalha somente por dinheiro e não se importa com as ovelhas." O mercenário nem sempre se apresenta como um vilão evidente. Ele comparece. Cumpre horários. Sorri nos cultos. Aperta mãos. Discursa com cordialidade. Mas, quando surge o custo real de cuidar das ovelhas, ele faz contas. Avalia o saldo. E escolhe o caminho menos oneroso.

O Projeto Luz nas Nações custou muito menos do que anunciou. E as nações permaneceram no escuro. Existe uma ligação que poucos ousam estabelecer explicitamente — seja por receio de parecer presunçoso, seja pela falta de coragem teológica para sustentar a implicação até o fim. O dinheiro de Deus parado nas tesourarias, de braços cruzados enquanto o mundo aguarda, produz consequências que ultrapassam os números frios do balanço financeiro de uma associação regional.

A missão adiada não é apenas ineficiência administrativa. É omissão com peso escatológico. Cada projeto fantasma que consome recursos sem gerar presença humana onde a presença humana era necessária representa um atraso deliberado — talvez inconsciente nos indivíduos, mas incorporado à lógica da estrutura — daquilo que deveria estar acontecendo agora. Com aquele dinheiro. Naqueles lugares. Naquelas regiões remotas que o cartaz prometeu alcançar.

Há silêncios que também pregam sermões. E a ausência de quem deveria ter ido fala tão alto quanto a voz de quem pediu a oferta. Parei de contribuir para campanhas de nomes bonitos. Não parei de contribuir. Mudei o destino. Passei a dar com nome e endereço. Como Paulo, que sabia que os irmãos da Judeia tinham fome naquele inverno específico. Como Severino, que aprendeu que dízimo com rosto é mais honesto do que dízimo com logotipo.

O Projeto Luz nas Nações terminou como tantas outras campanhas terminam: silenciosamente. Sem relatório final. Sem prestação de contas. Sem uma única carta de agradecimento vinda de alguma região remota. Só o cartaz desapareceu do saguão. E o saguão permaneceu exatamente igual, iluminado como sempre esteve — talvez, ironicamente, pela mesma luz financiada pelo uso geral de recursos que um dia foram prometidos a outro destino.

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