ANTOLOGIA DE CRÔNICAS REFLEXIVAS À LUZ DA SÃ CONSCIÊNCIA — Crônica (54): Aos Olhos da Fé.
Havia um homem a quem vou chamar de Irmão Severino. Contribuinte fiel, pontual, daqueles que chegam cedo ao culto e ainda ficam depois para guardar as cadeiras. Nunca faltou ao dízimo. Nunca deixou de entregar a oferta. Durante anos, depositou seus envelopes com aquela confiança silenciosa de quem acredita que o gesto tem destino certo, de quem entrega não apenas dinheiro, mas também esperança.
Até o dia em que viu, num noticiário local, a inauguração de um complexo construído pela associação regional: centro administrativo, auditório, estacionamento coberto e uma fachada envidraçada que custara, segundo o jornal, o equivalente a anos de arrecadação de centenas de congregações menores.
Severino não era ingênuo. Sabia que instituições precisam de estrutura, que a obra exige planejamento e que paredes, por si sós, não são pecado. Mas, havia algo naquela fachada envidraçada — naquela extravagância específica — que o fez parar. Talvez porque conhecesse, pelo nome e pela história, famílias da própria congregação que atravessavam dificuldades concretas: o remédio comprado pela metade, a conta vencida escondida na gaveta, a geladeira que denunciava o fim do mês antes do calendário.
Foi o contraste que o desarmou. Na semana seguinte, pediu uma reunião com o pastor dirigente. Não foi para acusar nem para apontar culpados. Queria entender. Desejava saber como os recursos eram distribuídos, quais prioridades orientavam as decisões e de que maneira a generosidade dos pequenos sustentava os grandes projetos.
O pastor o recebeu com aquele sorriso que certos líderes desenvolvem para situações inconvenientes: cordial, contido, impermeável. Um sorriso que acolhe sem aproximar, que escuta sem realmente ouvir. Falou sobre a visão da obra, sobre projetos de longo prazo, sobre a fé que transcende a compreensão imediata.
Severino saiu dali exatamente como entrou. Sem resposta. Algum tempo depois, encontrou num documento interno da denominação uma frase que, desde que ele me contou, nunca mais consegui esquecer: "Nada do que pertence à Associação ou Missão deve entrar em qualquer cogitação, mesmo por empréstimo de alguns dias" — Pinho, 1980, página 106. Era uma frase administrativa. Seca. Sem ornamentos. Dessas que dispensam metáforas porque a própria objetividade já pesa o suficiente. E dizia, na linguagem do regulamento, o mesmo que o sorriso do pastor havia dito na linguagem da evasão: os recursos da Associação não são assunto seu.
O fiel que pergunta para onde vai o seu dinheiro não é subversivo. É responsável. Esta série inteira foi construída sobre essa premissa: generosidade consciente é diferente de generosidade cega. Dar com discernimento não é o mesmo que dar e escolher não saber. Fé não exige anestesia moral, nem transforma prestação de contas em sinal de rebeldia.
No batismo, Severino prometera ser coobreiro de Cristo. Ninguém lhe explicou, porém, que o coobreiro seria chamado a sustentar a obra, mas não necessariamente a compreender como ela administra aquilo que recebe. A ironia que carregou por anos tornou-se difícil de ignorar. Abrir as janelas do céu era o versículo usado nos apelos pelo dízimo. Com o tempo, porém, percebeu que aquelas janelas abertas pareciam oferecer vista para o estacionamento coberto de um centro administrativo.
Não estou dizendo que toda estrutura religiosa seja corrupta. Generalizações costumam ser atalhos preguiçosos para problemas complexos. Estou dizendo algo mais simples — e talvez mais incômodo: estruturas que não prestam contas não têm o direito moral de exigir a confiança irrestrita daqueles que as sustentam. Porque confiança sem transparência não é fé. É ingenuidade administrada. Severino deixou de dizimar para a associação. Não abandonou a generosidade; apenas mudou o trajeto por onde ela caminhava. Passou a dar diretamente: à família cuja necessidade conhecia de perto; ao jovem que precisava de transporte para chegar ao estágio; à mulher que, no meio do mês, precisava escolher entre comprar remédio ou colocar comida na mesa.
Continuou na fé. Saiu do sistema. E, quando alguém na congregação lhe perguntava sobre o dízimo, respondia com a serenidade de quem já não depende da aprovação dos outros para permanecer em paz com a própria consciência: "Meu dízimo tem nome e endereço. O da Associação tinha fachada envidraçada." Não há retórica nessa frase. Não há desejo de escandalizar, nem prazer em denunciar. Há apenas a clareza de quem aprendeu, aos olhos da fé, a distinguir transparência de pompa, responsabilidade de submissão e confiança de ingenuidade. Porque a fé madura não fecha os olhos. Ela aprende a enxergar.
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