ANTOLOGIA DE CRÔNICAS REFLEXIVAS À LUZ DA SÃ CONSCIÊNCIA — Crônica (57): Espiritualidade Autêntica: Alicerces Invisíveis.
Havia uma reunião toda quarta-feira à noite, numa cozinha de fundo de quintal. Não tinha nome oficial. Não havia placa na porta, nem horário rigidamente controlado. Não se recolhia oferta no meio do encontro, tampouco havia um pastor credenciado presidindo a reunião. O que existia era um pequeno grupo de pessoas — oito, dez, às vezes menos, às vezes mais, dependendo da semana — reunidas ao redor de uma mesa onde repousavam uma Bíblia já marcada pelo uso e uma chaleira de café sempre pronta. A cozinha cheirava a madeira antiga e comida feita em panela, aquele aroma doméstico que parece dizer, sem palavras, que alguém se importa com quem chega.
Fui uma vez, movido pela curiosidade. Voltei durante muitos meses. Naquela época, eu não tinha categoria teológica para explicar o que acontecia ali. Faltavam-me definições. Hoje, olhando para trás, encontro um nome que faz sentido: Sociedade Espiritual de Cristo.
Quando Jesus chamou os doze, não havia edifícios. Não existiam estatutos, departamentos ou hierarquias administrativas divididas em associações, missões, uniões e divisões. Havia pessoas reunidas em torno de uma Pessoa. Havia estrada, poeira nos pés, refeições compartilhadas e a promessa de uma presença.
"Onde dois ou três se reunirem porque são meus, eu estarei ali mesmo entre eles." Mateus 18:20 não estabelece quórum mínimo para deliberação. Não exige escritura registrada em cartório. Não condiciona a presença divina à posse de patrimônio, à aprovação de comissões ou à formalização de uma estrutura. Mas, em algum ponto da história, os caminhos começaram a se separar.
De um lado, permaneceu a comunhão invisível: homens e mulheres reunidos em casas, à beira dos rios, debaixo das árvores, nos cantos esquecidos pelo mundo e, justamente por isso, tão próximos do essencial. Do outro, surgiu a institucionalização progressiva: a estrutura que cresceu, organizou-se, regulamentou procedimentos e, pouco a pouco, transformou o espontâneo em protocolo; até que a reunião precisasse de autorização para acontecer e o folheto evangelístico passasse a ser adquirido numa secretaria, com preço de tabela.
Dois caminhos nascidos da mesma nascente. Dois destinos que, com o tempo, aprenderam a falar idiomas diferentes. Na cozinha do fundo do quintal, não havia tesoureiro. Quando alguém enfrentava uma necessidade — e, vez ou outra, isso acontecia —, a situação era compartilhada sem cerimônia. Quem podia ajudar, ajudava. Ali mesmo. Com o que tinha. Sem envelopes. Sem recibos. Sem campanhas adornadas por nomes inspiradores.
Lembro-me de uma noite em que uma das mulheres do grupo contou que havia perdido o emprego. Antes mesmo que terminasse a frase, alguém já fazia contas em voz baixa para ver quanto conseguiria separar naquele mês. Não houve comissão para aprovar valores. Não houve burocracia para validar a compaixão. Havia apenas gente de verdade. Gente que se conhecia. Gente que se importava. Talvez seja isso que a Sociedade Espiritual de Cristo faça quando funciona em sua forma mais pura: ela elimina a distância entre a necessidade e o gesto, entre quem possui e quem precisa, entre a fé proclamada e a fé vivida. A solidariedade deixa de ser discurso para ganhar mãos, rosto e endereço.
Não estou propondo a extinção de todas as estruturas. Estruturas podem servir. Organizações podem facilitar. A questão é outra. Quando a estrutura passa a existir para preservar a si mesma; quando absorve recursos que deveriam alcançar pessoas; quando regulamenta aquilo que deveria nascer da espontaneidade do amor; quando comercializa o que deveria ser oferecido gratuitamente, ela deixa de ser ponte. Transforma-se em barreira.
Aquela primeira bifurcação aconteceu cedo. E, desde então, cada geração precisou fazer sua escolha. Alguns seguiram pelo caminho da cozinha de fundo de quintal — sem placa, sem estatuto, sem folheto à venda. Outros preferiram a rota dos centros administrativos, das fachadas envidraçadas e das engrenagens cuidadosamente ajustadas para manter a máquina em funcionamento. Jesus prometeu estar em ambos os lugares? Talvez sua graça alcance pessoas em todos eles.
Mas, a promessa explícita foi outra. Ele prometeu estar ali. Onde dois ou três se reúnem por causa dele. Não onde dois ou três se reúnem por causa da denominação. Com o tempo, a reunião daquela cozinha chegou ao fim. O dono da casa se mudou, e o grupo se dispersou. Alguns retornaram a congregações tradicionais. Outros encontraram novas cozinhas onde a fé pudesse respirar sem cerimônias. Houve também os que recolheram para si mesmos o silêncio de quem perdeu o lugar onde a esperança, por algum tempo, havia feito sentido.
Mas, a Sociedade Espiritual de Cristo não desapareceu com aquela dispersão. Ela continuou exatamente onde sempre esteve: nos lugares simples, quase invisíveis aos olhos acostumados ao espetáculo; nos encontros sem pompa; nas mesas apertadas; nas conversas demoradas; no abraço oferecido sem protocolo; no café repartido entre irmãos que talvez não tenham muito, mas dividem o pouco com generosidade abundante.
Ela sobrevive com o número mínimo de pessoas necessário. Sobrevive com o indispensável. E não precisa de nada além da promessa feita há dois mil anos. Uma promessa que atravessou impérios, resistiu às instituições, sobreviveu às vaidades humanas e continua encontrando morada nos lugares improváveis. E que, pelo menos por enquanto, ainda não tem preço de tabela.
Havia uma reunião toda quarta-feira à noite, numa cozinha de fundo de quintal. Não tinha nome oficial. Não havia placa na porta, nem horário rigidamente controlado. Não se recolhia oferta no meio do encontro, tampouco havia um pastor credenciado presidindo a reunião. O que existia era um pequeno grupo de pessoas — oito, dez, às vezes menos, às vezes mais, dependendo da semana — reunidas ao redor de uma mesa onde repousavam uma Bíblia já marcada pelo uso e uma chaleira de café sempre pronta. A cozinha cheirava a madeira antiga e comida feita em panela, aquele aroma doméstico que parece dizer, sem palavras, que alguém se importa com quem chega.
Fui uma vez, movido pela curiosidade. Voltei durante muitos meses. Naquela época, eu não tinha categoria teológica para explicar o que acontecia ali. Faltavam-me definições. Hoje, olhando para trás, encontro um nome que faz sentido: Sociedade Espiritual de Cristo.
Quando Jesus chamou os doze, não havia edifícios. Não existiam estatutos, departamentos ou hierarquias administrativas divididas em associações, missões, uniões e divisões. Havia pessoas reunidas em torno de uma Pessoa. Havia estrada, poeira nos pés, refeições compartilhadas e a promessa de uma presença.
"Onde dois ou três se reunirem porque são meus, eu estarei ali mesmo entre eles." Mateus 18:20 não estabelece quórum mínimo para deliberação. Não exige escritura registrada em cartório. Não condiciona a presença divina à posse de patrimônio, à aprovação de comissões ou à formalização de uma estrutura. Mas, em algum ponto da história, os caminhos começaram a se separar.
De um lado, permaneceu a comunhão invisível: homens e mulheres reunidos em casas, à beira dos rios, debaixo das árvores, nos cantos esquecidos pelo mundo e, justamente por isso, tão próximos do essencial. Do outro, surgiu a institucionalização progressiva: a estrutura que cresceu, organizou-se, regulamentou procedimentos e, pouco a pouco, transformou o espontâneo em protocolo; até que a reunião precisasse de autorização para acontecer e o folheto evangelístico passasse a ser adquirido numa secretaria, com preço de tabela.
Dois caminhos nascidos da mesma nascente. Dois destinos que, com o tempo, aprenderam a falar idiomas diferentes. Na cozinha do fundo do quintal, não havia tesoureiro. Quando alguém enfrentava uma necessidade — e, vez ou outra, isso acontecia —, a situação era compartilhada sem cerimônia. Quem podia ajudar, ajudava. Ali mesmo. Com o que tinha. Sem envelopes. Sem recibos. Sem campanhas adornadas por nomes inspiradores.
Lembro-me de uma noite em que uma das mulheres do grupo contou que havia perdido o emprego. Antes mesmo que terminasse a frase, alguém já fazia contas em voz baixa para ver quanto conseguiria separar naquele mês. Não houve comissão para aprovar valores. Não houve burocracia para validar a compaixão. Havia apenas gente de verdade. Gente que se conhecia. Gente que se importava. Talvez seja isso que a Sociedade Espiritual de Cristo faça quando funciona em sua forma mais pura: ela elimina a distância entre a necessidade e o gesto, entre quem possui e quem precisa, entre a fé proclamada e a fé vivida. A solidariedade deixa de ser discurso para ganhar mãos, rosto e endereço.
Não estou propondo a extinção de todas as estruturas. Estruturas podem servir. Organizações podem facilitar. A questão é outra. Quando a estrutura passa a existir para preservar a si mesma; quando absorve recursos que deveriam alcançar pessoas; quando regulamenta aquilo que deveria nascer da espontaneidade do amor; quando comercializa o que deveria ser oferecido gratuitamente, ela deixa de ser ponte. Transforma-se em barreira.
Aquela primeira bifurcação aconteceu cedo. E, desde então, cada geração precisou fazer sua escolha. Alguns seguiram pelo caminho da cozinha de fundo de quintal — sem placa, sem estatuto, sem folheto à venda. Outros preferiram a rota dos centros administrativos, das fachadas envidraçadas e das engrenagens cuidadosamente ajustadas para manter a máquina em funcionamento. Jesus prometeu estar em ambos os lugares? Talvez sua graça alcance pessoas em todos eles.
Mas, a promessa explícita foi outra. Ele prometeu estar ali. Onde dois ou três se reúnem por causa dele. Não onde dois ou três se reúnem por causa da denominação. Com o tempo, a reunião daquela cozinha chegou ao fim. O dono da casa se mudou, e o grupo se dispersou. Alguns retornaram a congregações tradicionais. Outros encontraram novas cozinhas onde a fé pudesse respirar sem cerimônias. Houve também os que recolheram para si mesmos o silêncio de quem perdeu o lugar onde a esperança, por algum tempo, havia feito sentido.
Mas, a Sociedade Espiritual de Cristo não desapareceu com aquela dispersão. Ela continuou exatamente onde sempre esteve: nos lugares simples, quase invisíveis aos olhos acostumados ao espetáculo; nos encontros sem pompa; nas mesas apertadas; nas conversas demoradas; no abraço oferecido sem protocolo; no café repartido entre irmãos que talvez não tenham muito, mas dividem o pouco com generosidade abundante.
Ela sobrevive com o número mínimo de pessoas necessário. Sobrevive com o indispensável. E não precisa de nada além da promessa feita há dois mil anos. Uma promessa que atravessou impérios, resistiu às instituições, sobreviveu às vaidades humanas e continua encontrando morada nos lugares improváveis. E que, pelo menos por enquanto, ainda não tem preço de tabela.


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