ANTOLOGIA DE CRÔNICAS REFLEXIVAS À LUZ DA SÃ CONSCIÊNCIA — Crônica (51): A Teologia da Sã Consciência.
Quem serve a Deus por dinheiro acabará servindo ao diabo por salário melhor. Começo com essa frase porque ela não nasceu para ficar escondida no meio de um parágrafo, abafada por notas de rodapé ou diluída em argumentações sofisticadas. Não. Ela precisa aparecer logo na entrada, descalça, sem maquiagem e sem pedido de desculpas. Que o leitor tropece nela antes mesmo de concordar ou discordar. Porque, no fim das contas, essa frase é a síntese de cinquenta crônicas. É o ponto de chegada de uma caminhada que começou molhada, num tanque batismal adventista, em março de 1979, acompanhada de uma pergunta simples — e perturbadora — que ninguém quis responder.
Ao longo dessa trajetória, encontrei pessoas que, sem perceber, me ensinaram o que significa uma teologia da sã consciência. Dona Rita, morando sozinha a apenas três quarteirões da igreja, enquanto o fundo de assistência aguardava aprovação em comissão. Gilberto, técnico de enfermagem, cruzando bairros periféricos às próprias custas para cuidar de quem precisava, apenas para receber, em troca, uma carta lembrando-lhe dos "canais competentes". Reinaldo, artista talentoso, dobrando o esboço no bolso ao perceber que seu dom também precisaria de autorização para existir. O eletricista da garagem, que devolvia o dinheiro das contribuições porque sabia que quem paga o sermão, cedo ou tarde, tenta decidir o sermão. Benedito, pregador de praças, velórios e salas improvisadas, sem microfone, sem crachá e sem fotografia na revista oficial da denominação. Sua morte não mereceu obituário institucional; em compensação, lotou uma sala de gente comum que ele havia acompanhado quando nenhum pastor credenciado apareceu.
Nenhum deles tinha salário ministerial. Nenhum ocupava cargo de destaque. Nenhum esperou que uma comissão deliberasse sobre o próximo passo. Simplesmente fizeram o que precisava ser feito. Cada um à sua maneira, viveram o mandato que Jesus entregou sem organograma, sem protocolo e sem burocracia: "Recebestes de graça, dai de graça."
Paulo compreendia isso profundamente. Trabalhou noite e dia para não ser pesado a ninguém e, ainda assim, pregou com liberdade. Não era pobreza de espírito; era clareza de consciência. Ele sabia que a mensagem proclamada por quem depende financeiramente de quem a escuta pode adquirir fronteiras invisíveis — daquelas que ninguém anuncia oficialmente, mas que todos percebem. Há assuntos que ficam mais difíceis de abordar; silêncios que se tornam convenientes; verdades que passam a ser administradas como quem regula a temperatura de uma sala.
A sã consciência começa justamente aí: na recusa em permitir que o sustento determine o conteúdo do sermão. Mas, a teologia da sã consciência não se resume a uma discussão sobre dinheiro. Seria pouco. Ela é, antes de tudo, uma postura diante da vida inteira. É a convicção de que cada pessoa — não a denominação, não o pastor, não a comissão, não a tesouraria — prestará contas pelo que lhe foi confiado. Individualmente. É reconhecer que o talento enterrado em nome da segurança institucional não é humildade; é medo vestido de prudência. Que a generosidade terceirizada não é generosidade. Que a fé delegada não é fé. Que a obediência sem consciência corre o risco de ser apenas conformismo religioso.
E há algo mais desconfortável ainda: essa verdade também me alcança. Porque houve momentos em que fechei os olhos para Dona Rita. Momentos em que não atravessei os três quarteirões. Dias em que o envelope estava em dia, mas a consciência seguia atrasada. E talvez essa seja a diferença entre a culpa estéril e a sã consciência: esta não exige perfeição; exige honestidade. A sã consciência não é ausência de erro. É a recusa de chamar o erro de sistema.
Encerro esta série com o rosto de alguém que não apareceu em nenhuma das crônicas anteriores. Não a conheci em igreja alguma, mas num corredor de hospital, durante a visita a um parente. Era uma mulher de cerca de sessenta anos, sentada numa cadeira de plástico do lado de fora de um quarto fechado. Tinha uma Bíblia no colo e as mãos repousadas sobre ela. Não estava lendo. Não procurava versículos. Apenas segurava a Bíblia, como quem segura algo que já conhece de cor e precisa apenas sentir o peso para lembrar quem é.
Perguntei se era parente do paciente. — Não — respondeu. — Sou vizinha. Ele não tem ninguém. E ficou. Ficou por mais duas horas. Não entrou no quarto naquela tarde; o paciente dormia. Não fez oração em voz alta. Não publicou foto. Não registrou presença. Não esperou reconhecimento. Ficou. Não era pastora. Não integrava nenhuma ONG. Não cumpria escala de voluntariado nem obrigação registrada em sistema algum. Estava apenas presente, com a Bíblia no colo e as mãos sobre a Bíblia, exatamente no único lugar onde, naquele momento, havia algo a ser feito.
Isso é a teologia da sã consciência. Não é doutrina. É presença. Não é sistema. É gesto. Não é cargo. É responsabilidade. Não é salário. É graça — recebida de graça, oferecida de graça, sem esperar autorização para amar e sem temer reprovação por obedecer à própria consciência. "Recebestes de graça. Dai de graça."
Cinquenta crônicas. Uma única conclusão. E, talvez, a verdade mais profunda de todas caiba numa simples cadeira de plástico, num corredor de hospital, nas mãos de uma mulher que não conhecia o paciente, mas escolheu permanecer. Porque, às vezes, a fé mais parecida com a de Cristo não sobe aos púlpitos nem ocupa atas de comissão. Às vezes, ela apenas fica.
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