ANTOLOGIA DE CRÔNICAS REFLEXIVAS À LUZ DA SÃ CONSCIÊNCIA — Crônica (56): Sobre a Transparência nas Instituições Religiosas.
Se os dízimos e as ofertas são empregados corretamente, por que os membros precisam comprar, do próprio bolso, até mesmo um simples folheto das Associações? Começo com essa pergunta porque ela não é retórica. É lógica. E a lógica, quando se sustenta por si só, dispensa adornos.
Havia um irmão na congregação — vou chamá-lo de Irmão Valdomiro — que decidiu, por iniciativa própria, iniciar um trabalho de visitação em um conjunto habitacional próximo à igreja. Sem convocação oficial, sem cargo, sem o tipo de autorização que certas estruturas parecem exigir antes de permitir que alguém faça aquilo que deveria brotar naturalmente do coração de qualquer cristão.
Valdomiro queria folhetos. Não muitos. Algumas dezenas bastariam: o suficiente para deixar nas portas, puxar conversa, oferecer algo concreto além das próprias palavras. Afinal, por mais eloquente que seja a boa vontade, às vezes um pedaço de papel abre caminhos que um discurso sozinho não alcança. Foi até a Associação regional. A secretária o recebeu com aquela cordialidade protocolar de quem já conhece a resposta antes mesmo de ouvir a pergunta.
Os folhetos existiam. Tinham preço. Valdomiro pagou do próprio bolso. Não era uma quantia exorbitante. Ainda assim, bastou para deixar uma pergunta ecoando como sino em templo vazio: se a Associação mantém material evangelístico disponível para venda; se evangelizar é o propósito declarado de toda a estrutura; e se os dízimos de centenas de congregações sustentam essa mesma estrutura há décadas, por que o irmão disposto a realizar justamente esse trabalho precisa custear o instrumento mais básico da missão?
A resposta que nunca veio acabou se tornando, por si só, uma resposta. Enquanto isso, no mesmo período, a Associação regional lançava uma campanha para reformar seu centro administrativo. Durante os cultos, circulavam envelopes especiais. Nos boletins, multiplicavam-se os apelos por contribuições além do dízimo regular. A meta era ousada. E a arrecadação foi generosa. O centro administrativo foi reformado. O estacionamento ganhou cobertura. Valdomiro continuou comprando folhetos com o próprio dinheiro. Há ironias que dispensam comentários. Elas falam sozinhas.
Pedro havia advertido com uma clareza que o tempo não conseguiu desgastar: "Levados pela cobiça, pastores avarentos vos explorarão com palavras artificiosas." Não se trata de uma acusação vaga, lançada ao vento. Trata-se da descrição de um mecanismo. Palavras artificiosas são justamente aquelas que transformam a reforma de um estacionamento em projeto do Reino e a venda de material missionário ao evangelizador voluntário em mera prática administrativa.
O artifício está na linguagem que sacraliza interesses. Na linguagem que chama de visão aquilo que, na prática, representa expansão patrimonial. Que apresenta como oferta especial aquilo que o orçamento ordinário deveria comportar. Que vende ao fiel os instrumentos da missão que ele próprio já financiou por meio dos dízimos entregues sem jamais receber uma prestação clara de contas sobre seu destino.
Transparência não é uma virtude opcional para instituições sustentadas por doações. É o requisito mínimo para que a doação preserve sua legitimidade. Porque, quando não há prestação de contas; quando o material missionário tem preço para quem vai ao campo, mas o estacionamento recebe cobertura nova; quando envelopes especiais circulam em cultos cuja arrecadação regular deveria bastar para as demandas apresentadas, o que se estabelece deixa de ser mera administração religiosa. Passa a ser exploração revestida de linguagem sagrada. Exploração com versículo.
Ainda assim, Valdomiro concluiu seu trabalho de visitação. Distribuiu os folhetos que comprou. Algumas portas se abriram. Algumas conversas floresceram. Algumas vidas foram tocadas de maneiras que nenhum relatório administrativo registrou e nenhuma ata mencionou. A Associação jamais soube do que ele fez. O estacionamento coberto continua lá.
E a pergunta do primeiro parágrafo permanece sem resposta oficial.
Mas existe uma resposta real — silenciosa, incômoda e perfeitamente reconhecível por qualquer fiel honesto. Ela habita a memória de quem já tirou dinheiro do próprio bolso para comprar o folheto que distribuiria, enquanto a estrutura que deveria fornecê-lo celebrava a inauguração de mais um andar do próprio prédio.
E talvez seja justamente aí que resida a questão mais dolorosa: não na ausência de recursos, mas na escolha de prioridades.
Porque, quando a manutenção da estrutura passa a consumir mais zelo do que a missão que lhe deu origem, algo essencial se perde pelo caminho.
E nenhuma cobertura de estacionamento é capaz de esconder isso.
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