ANTOLOGIA DE CRÔNICAS REFLEXIVAS À LUZ DA SÃ CONSCIÊNCIA — Crônica (52): A Importância da Destinação da Doação.
Ao Darmos aos Pequeninos, Estamos Emprestando a Deus. Começo com essa frase porque ela merece estar logo na soleira da porta — não escondida no rodapé de um argumento nem diluída entre explicações piedosas. Ela precisa aparecer à luz do dia, para que o leitor a carregue consigo até a última linha.
Emprestando. Não dando. A diferença parece pequena, mas muda tudo. Dar pode, às vezes, alimentar a vaidade de quem oferece. Emprestar pressupõe reconhecimento de dívida. Implica relação. Pressupõe que, do outro lado, há alguém a quem algo é devido. É uma maneira de ler Mateus 25 que desarruma nossas certezas: talvez não sejamos benfeitores magnânimos distribuindo favores aos necessitados. Talvez sejamos devedores quitando, ainda que tardiamente, aquilo que sempre pertenceu ao amor.
Havia um menino que aparecia às terças-feiras na porta dos fundos de uma padaria onde eu costumava tomar café. Ele não pedia. Apenas ficava. Tinha aquela imobilidade particular de quem aprendeu cedo demais que pedir cansa, constrange e, não raro, assusta as pessoas. Mas, estar ali, silenciosamente presente, às vezes, funciona. Devia ter uns dez anos. Vestia roupas que pareciam não pertencer à estação do ano e carregava nos olhos aquela estranha lucidez que algumas crianças adquirem quando a vida lhes rouba, cedo demais, o direito à ingenuidade.
O dono da padaria o ignorava com a eficiência de quem transformou a indiferença em método. Alguns clientes deixavam uma moeda pelo caminho, sem parar, sem olhar, sem interromper a conversa — aquele tipo de gesto rápido que alivia a consciência sem exigir presença. Numa terça-feira qualquer, levei dois pães de queijo para a mesa do lado de fora e perguntei se ele queria um. Ele aceitou. Sentou-se. E ficamos em silêncio por um tempo que não soube medir. Depois, olhando para a rua como quem comenta algo simples, perguntou: — "O senhor vem sempre aqui?" Respondi que sim. Então ele disse: — "Então eu também vou continuar vindo." E foi embora.
Confesso que passei dias morando dentro dessa frase. "Então eu também vou continuar vindo." Como se a minha presença previsível tivesse dado sentido à dele. Como se o simples fato de alguém sentar, repartir um pão de queijo e sustentar o olhar tivesse criado, naquele pedaço de calçada, algo parecido com pertencimento. Talvez seja isso que a gente mais distribui sem perceber: a confirmação de que o outro foi visto.
Tiago define a religião verdadeira com uma precisão desconcertante. Não fala sobre erguer templos, elaborar sistemas doutrinários sofisticados ou financiar estruturas religiosas. Fala de cuidar dos órfãos e das viúvas em suas aflições. Justamente deles. Dos que a engrenagem social costuma abandonar com mais facilidade.
O pequenino tem rosto. Tem nome. Tem terça-feira. Tem uma frase que permanece ecoando muito depois que a conversa termina. Por isso, a destinação da doação importa. Quando entregamos recursos sem saber para onde vão, podemos até estar sendo eficientes; nem sempre, porém, estamos sendo generosos. Às vezes, estamos apenas terceirizando o desconforto de olhar nos olhos de quem recebe. Transferimos o gesto para a instituição e preservamos intacta a distância que nos protege do envolvimento.
O menino da padaria não precisava de uma comissão reunida para aprovar sua necessidade. Não precisava de formulários, carimbos ou atas. Precisava de um pão de queijo. E de alguém disposto a permanecer sentado ao seu lado. Isso não diminui a importância das estruturas organizadas. Algumas funcionam admiravelmente; algumas alcançam lugares onde o gesto individual jamais conseguiria chegar. Mas, nenhuma estrutura substitui aquele instante em que a consciência sussurra agora, e a pessoa decide agir sem esperar autorização, sem calcular dividendos morais, sem empurrar a responsabilidade para a próxima reunião de diretoria.
Porque, quando damos diretamente ao pequenino — com rosto, com história, com terça-feira marcada no calendário — não estamos apenas cumprindo uma obrigação religiosa. Estamos reconhecendo uma dívida antiga. Estamos devolvendo ao amor aquilo que o egoísmo reteve por tempo demais. Estamos emprestando a Deus. E Deus, diferentemente das tesourarias humanas, não perde o recibo. Talvez seja essa a parte mais bonita e, ao mesmo tempo, mais exigente do evangelho: descobrir que o Reino de Deus raramente se manifesta nos grandes gestos que impressionam multidões. Na maioria das vezes, ele chega quieto, quase despercebido, na mesa de uma padaria, no repartir de um pão de queijo, na disposição de ficar alguns minutos a mais ao lado de quem o mundo inteiro aprendeu a ignorar. Porque, no fim das contas, os pequeninos nunca foram interrupções no caminho. Eles sempre foram o próprio caminho.
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