Ensaio Teológico X(3) A Complexidade da Prosperidade: Além da Interpretação Religiosa
Por Claudeci Ferreira de Andrade
Conheço essa cena, ou melhor, conheço mil versões dela: um homem perde o emprego aos cinquenta anos, a fábrica fecha e as contas começam a se amontoar sobre a mesa da cozinha. No domingo, procura consolo na igreja e ouve, de alguém que o ama, que talvez lhe falte fé. Não sai dali apenas desempregado; sai também culpado. É por causa dessa culpa que escrevo, talvez a face mais cruel da ideia de que a prosperidade seja o selo da devoção e a pobreza, o sinal de alguma falha íntima. Não desprezo quem acredita nisso, pois, muitas vezes, trata-se de gente sincera, que precisa confiar na força do espírito para vencer as dificuldades da vida. Essa esperança merece respeito; já o diagnóstico que a acompanha merece ser examinado com cuidado.
Os números, porém, não confirmam essa equação. Em O Capital no Século XXI (2014), Piketty mostra como a riqueza se concentra por mecanismos ligados à herança, à tributação e ao acesso à educação, e não por uma suposta superioridade moral de quem acumula bens. Stiglitz, em O Preço da Desigualdade (2013), chega a uma conclusão semelhante ao apontar o peso das decisões governamentais e das regras de mercado na distribuição das oportunidades. Sendo assim, o homem da fábrica não foi reprovado numa prova de santidade; foi atingido por um vento econômico e social que sopra muito acima de sua cabeça. Sen, em Desenvolvimento como Liberdade (2000), lembra que prosperar significa ampliar as liberdades reais, como o acesso à saúde e à educação. Sachs (2015), por sua vez, reforça que nenhum país se desenvolve sem articular fatores econômicos, sociais, políticos e ambientais. Afinal, uma criança sem escola não carece de oração; carece de oportunidades. E não há milagre que justifique a omissão de quem deveria garantir esse direito.
Reconheço, entretanto, que a geografia da fé exige cautela. Seria fácil apontar os países nórdicos, seculares e prósperos, como prova de que religião e riqueza não caminham necessariamente juntas. Mas os Estados Unidos são ricos e comparativamente devotos, enquanto o Brasil, profundamente religioso, continua marcado pela desigualdade. Norris e Inglehart, em Sacred and Secular (2004), apresentam uma interpretação mais sutil: a religiosidade tende a diminuir onde existe maior segurança material e permanece mais forte onde a vida é marcada pela vulnerabilidade. A fé, nesse cenário, aparece menos como causa da riqueza e mais como abrigo diante das incertezas. Isso não a diminui; apenas ajuda a compreender por que floresce com tanta força onde o chão parece prestes a ceder. Por isso, insisto: criticar a teologia da prosperidade não significa atacar a fé. Pelo contrário, é uma crítica que também nasce de dentro dela. Stott e Padilla defenderam uma missão integral, que não separa a salvação da alma da luta por justiça; o livro de Jó questiona a tese de que o sofrimento seja prova de culpa, e Lucas dirige suas bem-aventuranças justamente aos pobres.
Mas, há também um estrago concreto nessa maneira de pensar. Quando a pobreza é tratada como castigo, o pobre passa a ser visto com desconfiança, como se carregasse alguma culpa escondida, e a solidariedade, pouco a pouco, esfria. Singer, em A Vida que Podemos Salvar (2009), defende justamente o contrário: quem tem condições de aliviar um sofrimento significativo sem precisar fazer um grande sacrifício tem o dever de agir. Não proponho abandonar a fé, muito menos desprezar o consolo que ela oferece. Proponho apenas que não lhe cobremos aquilo que nunca prometeu, pois a fé pode consolar, fortalecer e sustentar, mas não é um contrato com cláusulas de rendimento, muito menos uma apólice contra o desemprego, a doença ou a pobreza.
No fim das contas, a pergunta honesta não é “quanto ele orou?”, mas “que escola havia, que hospital, que emprego, que herança?”. Aquele homem não precisa de um sermão sobre o que lhe faltou na vida espiritual. Precisa de oportunidades, de um sistema que não o deixe cair sozinho e de uma comunidade disposta a lhe estender a mão antes de procurar culpados. Afinal, entre oferecer uma explicação religiosa para a miséria e fazer alguma coisa para combatê-la, há uma distância enorme. E é justamente nessa distância que a fé, quando acompanhada de consciência e responsabilidade, tem a oportunidade de mostrar seu verdadeiro valor.


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